Quando a paz tem cheiro a petróleo

“The great enemy of the truth is very often not the lie, deliberate, contrived and dishonest, but the myth, persistent, persuasive and unrealistic.”
John F. Kennedy, Yale University Commencement Address (11 June 1962).

 

A História possui um sentido de humor particularmente cruel. Sempre que a humanidade proclama estar prestes a alcançar a paz, aparece uma factura. Desta vez, a factura poderá vir sob a forma de refinarias, campos petrolíferos e postos de combustível espalhados pelo mundo, pertencentes à gigante russa Lukoil. Porque, aparentemente, no século XXI, as pombas da paz já não transportam ramos de oliveira. Transportam contratos energéticos.

Segundo uma investigação do New York Times, as negociações entre Washington e Moscovo para o fim da guerra na Ucrânia passaram a incluir discussões sobre um acordo multimilionário envolvendo activos internacionais da Lukoil. O negócio exigiria aprovação simultânea da administração americana e do Kremlin, demonstrando que, embora o capitalismo adore proclamar a sua independência, continua frequentemente a necessitar da bênção dos príncipes políticos.

A situação tem algo de teatral. Durante décadas, políticos de ambos os lados do Atlântico repetiram que os valores democráticos, a soberania dos povos e o direito internacional constituem princípios inegociáveis. Entretanto, eis que as conversações sobre a paz surgem acompanhadas por uma oportunidade de negócio capaz de fazer sorrir qualquer administrador de fundos de investimento.

O mais curioso não é que existam interesses económicos. Isso seria apenas a confirmação do óbvio. O verdadeiramente fascinante é a persistência com que o discurso público continua a fingir surpresa. Desde Tucídides até aos nossos dias, a política internacional raramente foi um concurso de virtudes. Foi quase sempre uma negociação entre interesses, recursos e poder.

Henry Kissinger escreveu em “Diplomacy” (1994) que os Estados actuam principalmente segundo cálculos estratégicos e não por impulsos morais. A frase escandaliza apenas aqueles que ainda acreditam que as conferências internacionais são reuniões de poetas humanistas. Na realidade, são encontros onde cada participante chega acompanhado por uma calculadora.

A eventual inclusão da Lukoil nas conversações sobre a Ucrânia parece confirmar essa tradição. De acordo com as informações divulgadas, o grupo empresarial em causa procura adquirir ou reestruturar activos internacionais da petrolífera russa, num processo que envolveria investidores ligados a círculos próximos de Steve Witkoff e Jared Kushner.

É difícil evitar a ironia. Durante anos, as sanções económicas foram apresentadas como instrumento indispensável para pressionar Moscovo. O raciocínio era simples incluindo restringir receitas, enfraquecer capacidades e forçar concessões. Agora, discute-se a possibilidade de algumas dessas restrições serem aliviadas precisamente porque uma flexibilização poderá favorecer um acordo mais amplo.

Numa época menos sofisticada, este fenómeno teria um nome muito directo que é pragmatismo. Hoje prefere-se utilizar expressões mais elegantes, como “criação de incentivos”, “construção de confiança” ou “arquitectura de estabilidade”. A terminologia mudou. A substância permanece notavelmente semelhante.

A Lukoil não é uma empresa marginal. Trata-se da segunda maior produtora petrolífera da Rússia e de uma das maiores companhias energéticas mundiais, representando cerca de 2% da produção global de petróleo. Essa dimensão explica porque razão qualquer alteração ao seu estatuto jurídico ou sancionatório possui implicações que ultrapassam largamente as fronteiras russas.

Num mercado internacional ainda sensível a choques energéticos, a mera expectativa de aumento da oferta pode influenciar preços. E os preços do petróleo continuam a ser um dos grandes reguladores silenciosos da economia mundial. Daniel Yergin, no clássico “The Prize: The Epic Quest for Oil, Money and Power” (1991), demonstrou como o petróleo nunca foi apenas uma mercadoria. Foi uma alavanca geopolítica, uma arma estratégica e, em muitos momentos, um instrumento de política externa. Trinta e cinco anos depois da publicação da obra, a tese permanece desconfortavelmente actual.

A guerra na Ucrânia transformou-se gradualmente numa demonstração prática dessa realidade. O conflito não é apenas territorial, militar ou ideológico. É igualmente energético. Enquanto os combates continuam a produzir destruição humana incalculável, o petróleo prossegue o seu percurso quase indiferente através de oleodutos, terminais marítimos e mercados financeiros. A energia não vota resoluções nas Nações Unidas. Limita-se a circular para onde encontra compradores.

É aqui que surge uma das maiores contradições contemporâneas. Os governos falam frequentemente sobre princípios absolutos, mas os mercados operam segundo necessidades concretas. Uma refinaria não processa valores morais. Processa crude. Naturalmente, os defensores deste eventual acordo argumentarão que qualquer iniciativa susceptível de aproximar o fim da guerra merece consideração séria. E não lhes falta razão.

A continuação do conflito representa um custo humano devastador. Milhares de mortos, milhões de deslocados, destruição de infra-estruturas e uma instabilidade prolongada que atinge toda a Europa. Perante este quadro, qualquer mecanismo que facilite negociações significativas deve ser analisado sem preconceitos ideológicos. Contudo, a questão não reside apenas nos benefícios potenciais. Reside também nas percepções.

Se um acordo petrolífero passar a ser visto como parte essencial do processo de paz, surgirão inevitavelmente dúvidas sobre a natureza das negociações. Será a paz o objectivo principal ou apenas a consequência conveniente de um entendimento económico mais vasto? John Mearsheimer, em “The Tragedy of Great Power Politics” (2001), argumenta que as grandes potências tendem a actuar segundo os imperativos da sobrevivência estratégica. Sob essa perspectiva, o eventual envolvimento da Lukoil não constitui uma anomalia. Constitui precisamente o funcionamento normal da política internacional.

Ainda assim, existe algo de perturbador na imagem. Enquanto soldados continuam a arriscar a vida nas linhas da frente, executivos discutem activos energéticos avaliados em milhares de milhões de dólares. Enquanto famílias ucranianas enfrentam incertezas diárias, mercados financeiros avaliam potenciais ganhos decorrentes de futuras alterações regulamentares. A distância entre a linguagem dos comunicados oficiais e a realidade concreta é frequentemente abissal.

George Orwell observou, em “Politics and the English Language” (1946), que a linguagem política existe muitas vezes para fazer com que mentiras pareçam verdades e assassinatos pareçam respeitáveis. Talvez hoje fosse necessário acrescentar que a linguagem diplomática serve também para fazer parecer coincidentes interesses que apenas ocasionalmente caminham na mesma direcção.

Vladimir Putin compreende perfeitamente o valor simbólico do negócio. Segundo as informações publicadas, o Presidente russo terá apresentado a proposta como uma demonstração de que russos e americanos continuam capazes de fazer negócios entre si. A mensagem é clara. Mais do que vender activos, trata-se de vender uma narrativa. A narrativa de que o isolamento pode terminar. A narrativa de que o regresso à normalidade é possível. A narrativa de que a cooperação económica continua a ser uma linguagem universal, mesmo quando a linguagem diplomática falha.

Por seu lado, Washington enfrenta um dilema clássico. Se mantiver integralmente as sanções, preserva a coerência da pressão exercida sobre Moscovo. Se abrir espaço para excepções estratégicas, poderá facilitar entendimentos políticos mais amplos e aliviar tensões nos mercados energéticos. Nenhuma destas opções é particularmente confortável. E talvez seja precisamente esta a característica mais honesta da política internacional que raramente oferece escolhas moralmente perfeitas. Quase sempre apresenta alternativas imperfeitas, acompanhadas por consequências imprevisíveis.

A Ucrânia observa este processo numa posição delicada. Qualquer acordo que contribua efectivamente para uma paz duradoura será naturalmente bem-vindo. Contudo, qualquer percepção de que interesses económicos externos passaram a dominar a agenda negocial poderá alimentar desconfianças legítimas. A experiência histórica aconselha prudência. Em “A Peace to End All Peace” (1989), David Fromkin mostrou como vários acordos celebrados após a I Guerra Mundial produziram efeitos profundamente distintos daqueles que os seus arquitectos imaginavam. A História está repleta de soluções brilhantes no papel e desastrosas na prática.

Por isso, a pergunta essencial permanece sem resposta. Este potencial negócio representa uma ponte para a paz ou apenas uma oportunidade económica que surgiu no momento certo? Talvez seja ambas as coisas. O mundo contemporâneo raramente oferece explicações simples. A diplomacia mistura-se com finanças. A segurança cruza-se com energia. A moralidade disputa espaço com o interesse nacional.

No final, o aspecto mais revelador desta história não é a participação da Lukoil, nem a presença de Jared Kushner ou Steve Witkoff, nem sequer o papel inevitável de Vladimir Putin. O aspecto mais revelador é a facilidade com que a geopolítica moderna transforma conflitos existenciais em negociações patrimoniais. Os cidadãos comuns escutam discursos sobre democracia, liberdade e segurança colectiva. Os mercados observam licenças, activos e fluxos de caixa. Uns falam de paz. Outros fazem contas. E, por vezes, ambos estão exactamente na mesma mesa.

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