Uma transição e uma oportunidade para o desporto

Por Manuel Silvério

Não tinha intenção de comentar esta nomeação. Tratando-se de uma solução temporária, inserida num processo de reorganização já anunciado, pareceu-me inicialmente mais prudente aguardar pelo Regulamento Administrativo que irá definir a futura estrutura.

Perante algumas das reacções que, entretanto, surgiram, porém, talvez seja útil recordar determinados elementos que podem ter passado despercebidos e que ajudam a compreender melhor o momento que estamos a atravessar.

A fusão do Instituto Cultural, do Instituto do Desporto e do Fundo de Desenvolvimento da Cultura não surgiu agora. Foi anunciada pelo Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, quando apresentou, em 18 de Novembro de 2025, as Linhas de Acção Governativa para 2026, no quadro de uma reforma mais ampla da Administração Pública destinada, segundo o Governo, a reforçar a coordenação e elevar a eficiência da governação.

É, portanto, dentro desse processo já programado que deve ser entendida a decisão de designar a Arq.ª Leong Wai Man para exercer temporariamente, em regime de substituição e em acumulação com a presidência do Instituto Cultural, as funções de presidente do Instituto do Desporto, entre 20 de Setembro e 31 de Outubro.

São 42 dias.

E esta duração não parece ser um pormenor. Várias comissões de serviço de dirigentes e chefias do Instituto do Desporto terminam precisamente em 31 de Outubro, incluindo a vice-presidência, o Departamento de Desenvolvimento Desportivo e a Divisão de Apoio ao Associativismo Desportivo.

A conjugação destas datas sugere um calendário administrativo articulado com a reorganização em curso. Estes 42 dias podem, assim, ser compreendidos como um período de preparação e transição para a nova estrutura, cuja configuração definitiva só conheceremos quando for publicado o respectivo Regulamento Administrativo.

É também por isso que me parece excessivamente redutor centrar toda a discussão em saber se a pessoa escolhida “é ou não do desporto”.

No caso de Macau, sobretudo, não considero que a proveniência do meio desportivo deva constituir o critério decisivo para dirigir a Administração do desporto. Conhecer o sector é importante; dispor de profissionais tecnicamente competentes dentro da estrutura é indispensável. Mas dirigir uma organização pública exige algo diferente e mais amplo: capacidade de gestão, liderança, coordenação, decisão e, cada vez mais, uma visão regional e internacional.

Macau é uma cidade pequena, mas o seu desporto não pode pensar pequeno.

Os grandes eventos, a formação de atletas e jovens, as relações com federações internacionais, a cooperação com o Interior da China e a Grande Baía, a utilização das instalações, o turismo desportivo, a captação de competições e o desenvolvimento das associações exigem hoje capacidade para trabalhar muito para além das fronteiras de um único sector.

Um bom dirigente não precisa de substituir os especialistas. Precisa de saber ouvi-los, coordená-los e criar condições para que o conhecimento técnico se transforme em políticas, decisões e resultados.

Neste contexto, também convém conhecer melhor o percurso da Arq.ª Leong Wai Man antes de reduzir a avaliação da sua nomeação à ausência de uma carreira no desporto.

Entrou no Instituto Cultural em 2009 e desenvolveu grande parte do seu percurso na área do património cultural, onde exerceu funções de chefia, antes de assumir a vice-presidência e, posteriormente, em 2022, a presidência do Instituto Cultural.

Ao longo destes anos, esteve envolvida numa estrutura responsável por matérias particularmente complexas: conservação e gestão do património, revitalização urbana, grandes manifestações culturais e cooperação regional e internacional. A Arq.ª Leong Wai Man tem também presidido, em substituição, ao Conselho do Património Cultural, que acompanha matérias como o Plano de Salvaguarda e Gestão do Centro Histórico, trabalhos de restauro e património cultural intangível.

A dimensão internacional tornou-se igualmente mais visível. Macau assumiu em 2025 o programa “Cidade de Cultura da Ásia Oriental”, plataforma de cooperação cultural entre China, Japão e República da Coreia, cuja preparação e execução envolveram coordenação local e intercâmbio regional. O Instituto Cultural organizou também fóruns internacionais, incluindo o Fórum Cultural Internacional sobre a Rota Marítima da Seda, com participação de instituições e especialistas de diferentes geografias.

Nada disto significa que estes resultados devam ser atribuídos individualmente à presidente de um organismo que dispõe naturalmente de equipas próprias e trabalha sob tutela governamental. Significa que existe uma experiência acumulada de gestão de projectos, coordenação institucional, património, grandes actividades e relações externas que também deve ser considerada quando se procura compreender a opção feita para estes 42 dias.

Importa, porém, distinguir duas questões.

Uma é assegurar uma transição administrativa durante pouco mais de um mês. Outra será definir quem e como deverá conduzir, no novo organismo, o desenvolvimento do desporto de Macau nos próximos anos.

É nessa segunda questão que deposito maior atenção.

Espero sinceramente que esta reorganização possa abrir melhores perspectivas para o desporto de Macau — para os nossos jovens, para os atletas e associações e também para todos aqueles que, com experiência, contactos, ideias e vontade de trabalhar, procuram contribuir para o seu desenvolvimento.

A capacidade de acolher e avaliar propostas desportivas de dimensão internacional merece também atenção nesta reorganização.

Não basta haver boas ideias, parceiros interessados ou disponibilidade externa. É igualmente necessária, do lado de Macau, capacidade para receber uma proposta, avaliá-la, dialogar sobre ela e tomar uma decisão em tempo útil.

Naturalmente, nem todas as iniciativas podem ou devem ser aceites. A Administração tem a obrigação de avaliar o interesse público, a viabilidade, os custos, os riscos e as condições de concretização de cada proposta.

Mas entre aceitar e recusar existe algo fundamental: analisar, dialogar, explicar e responder. É também isso que espero da futura estrutura.

Os procedimentos administrativos são necessários. O rigor também. O que importa evitar é que complexidades burocráticas desnecessárias, insuficiente coordenação ou capacidade técnica, falta de transparência, ausência de diálogo ou respostas que tardam — e por vezes simplesmente não chegam — acabem por afastar pessoas e projectos que poderiam contribuir para Macau.

Quem apresenta uma proposta séria não adquire, por esse facto, o direito de a ver aprovada. Deve, porém, poder saber com quem falar, quais são as regras, que condições devem ser preenchidas, se a proposta é viável e, no final, receber uma resposta clara dentro de um prazo razoável.

Isso também é boa Administração.

Talvez seja precisamente aqui que reside uma das maiores oportunidades desta fusão: criar uma estrutura mais capaz de cruzar cultura, desporto, grandes eventos, juventude, turismo e relações externas, preservando simultaneamente o conhecimento técnico específico de cada área. A mudança deverá traduzir-se na forma de trabalhar e nos resultados que conseguir alcançar.

Para o desporto, isso exigirá bons técnicos. Mas exigirá igualmente bons gestores, capacidade de decisão e uma visão que ultrapasse Macau e saiba olhar para a Grande Baía, para o País e para o mundo.

Os 42 dias são apenas uma transição. O que verdadeiramente importa começa depois. Aguardemos o Regulamento Administrativo, com a esperança de que a nova etapa traga, pelo desporto, pelos jovens e por Macau, melhores condições para quem quer contribuir.

Analista independente de políticas públicas e desenvolvimento regional
(Antigo dirigente público com experiência internacional, com longa dedicação às políticas públicas e ao desenvolvimento desportivo)

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