O canto da Europa desencantada (III)

“History teaches us that men and nations behave wisely once they have exhausted all other alternatives.”

Raymond Aron, Peace and War: A Theory of International Relations (1962)

A integração europeia nasceu de um medo profundo que foi o receio de que a Alemanha, derrotada mas nunca irrelevante, pudesse novamente tentar dominar o continente. Logo após a II Guerra Mundial, o Departamento de Estado americano afirmava que, “para contrabalançar este perigo, os países ocidentais devem associar-se mais estreitamente e incluir a Alemanha na sua comunidade”. Era uma estratégia simultaneamente pragmática e psicológica, destinada a impedir que o país regressasse ao isolamento que tantas vezes precedera a catástrofe. Winston Churchill, em 1949, sintetizava o dilema europeu ao afirmar que “o problema alemão consiste em restaurar a vida económica da Alemanha sem que isso exponha os vizinhos a qualquer reafirmação do seu poder militar”. A Europa unida surgia, assim, como solução para um problema que não era apenas económico ou militar, mas civilizacional.

Robert Schuman, um dos arquitectos da integração, reforçava esta visão ao escrever que “a Alemanha nunca é tão perigosa como quando está isolada”. A frase, simples e incisiva, traduzia a convicção de que a integração funcionaria como uma espécie de terapia colectiva, capaz de salvar a Alemanha “dos seus demónios”. Mesmo dentro da Alemanha, figuras como Adenauer eram mal vistas por sectores nacionalistas, que o acusavam de separatismo renano por defender uma integração profunda com o Ocidente. A Europa acreditava que só poderia protegerse, ajudando também a Alemanha de si própria.

Este receio não desapareceu com o passar das décadas. Pelo contrário, regressou com força em 1989-1990, quando a queda do Muro de Berlim e a reunificação alemã reacenderam temores antigos nas chancelarias europeias. Mitterrand e Thatcher, em particular, viam na unificação um potencial desequilíbrio continental. Não surpreende, que esse momento tenha coincidido com um novo avanço da integração como o nascimento do euro, concebido, como “sempre em função antialemã”. A moeda única pretendia amarrar a Alemanha a um quadro institucional que limitasse a sua autonomia económica e, por extensão, política.

Ainda hoje, a chamada “questão alemã” paira sobre a Europa. Os Estados Unidos, aliados centrais do projecto europeu, receiam o neutralismo do continente e temem que os seus parceiros, “com a Alemanha à cabeça”, não resistam à penetração estratégica da China e da Rússia. Por isso mantêm presença militar em território alemão muito reduzida face ao passado, mas ainda significativa e estendemna até à Europa Central, com o objectivo de “separar fisicamente Moscovo de Berlim”. A geopolítica continua a ser moldada por esta preocupação estrutural de impedir que a Alemanha, pela sua força económica e posição geográfica, se torne o pivô de uma aproximação eurorussa.

Paradoxalmente, a Alemanha não quer liderar a União Europeia (UE). Embora seja extremamente influente no plano normativo e económico, evita assumir o papel de guia político. Os seus vizinhos aceitam integrar a cadeia produtiva alemã, mas rejeitam ordens vindas de Berlim; e os alemães, conscientes dos aspectos desagradáveis do poder, também não querem dálas. Preferem concentrarse no comércio e manter o excedente produtivo que sustenta a coesão interna de um país “historicamente propenso à centrifugação”. Esta relutância alemã em liderar, combinada com a dependência europeia da sua economia, cria uma tensão permanente entre expectativa e recusa e entre necessidade e desconforto.

O mito europeísta, construído ao longo das décadas, alimentou também a fantasia do fim do Estado nacional. Contudo, os fundadores da integração nunca pretenderam abolir o Estado. Schuman escreveu em 1963 que “os nossos Estados europeus são uma realidade histórica” e que seria “psicologicamente impossível fazêlos desaparecer”. A retórica federalista existia, mas era marginal e não representava os humores populares, divididos entre patriotismo e retraimento. A academia, porém, difundiu a ideia de que a integração europeia estava em antítese com o Estado, que as nações eram aberrações históricas destinadas a fundirse numa identidade superior e que as fronteiras eram barreiras anacrónicas. As teorias funcionalistas defendiam que a criação de instituições sucessivas educaria elites e massas para uma cultura comum, através do chamado efeito “spillover”. Esta visão ignorava uma constante histórica de que as colectividades humanas “fundamse e fundemse através da violência”, e mudar identidades não é uma operação de laboratório.

Ao longo das décadas, o Estado reforçouse e a democracia enfraqueceu. A integração permitiu aos Estados oferecer mais segurança e prosperidade, mas retirou poder às maiorias, criando um défice democrático desde o início. Os pais fundadores queriam proteger o sistema das distorções que tinham permitido a ascensão dos autoritarismos, retirando competências não aos Estados, mas à volubilidade das maiorias. O Parlamento Europeu ampliou a representatividade, mas também aumentou a distância em relação ao cidadão, contribuindo para a confusão sobre a soberania e para a sensação de perda de controlo num contexto económico longe de ser próspero.

A ausência de uma dimensão simbólica e emocional agravou este afastamento. Pascal Lamy reconheceu que “à integração europeia faltou uma dimensão simbólica e cultural capaz de consolidar um sentido de pertença”. Jacques Delors dizia que “não é possível apaixonarse por um mercado ou por uma moeda comum”. A Europa tornouse um projecto frio, racional, incapaz de gerar encantamento ou laços profundos. A falta de narrativa mobilizadora transformou a UE numa entidade tecnocrática, mais próxima de um cálculo administrativo do que de uma comunidade política. O resultado foi o regresso do nacionalismo, uma reacção ao receio de ver esbaterse a identidade e a soberania. O Eurobarómetro mostra que a UE suscita “neutralidade impassível em quase metade dos inquiridos”, sinal de que o mito não se consolidou.

O mito europeísta nasceu da vontade de fugir às violências do século XX, mas a Europa não pode recomeçar numa página em branco como os Estados Unidos, que só o conseguiram após o extermínio dos povos nativos. O continente europeu é demasiado fragmentado, denso de memórias e marcado por divisões profundas. Aqui, Estado e nação permanecem unidos por mais do que a simples experiência de existir ou de partilhar bemestar. A insistência da UE em apresentarse como única alternativa ao caos revela o medo profundo de ver regressar a história, os conflitos e os nacionalismos que foram empurrados para o inconsciente porque uma vez conduziram à catástrofe.

No fundo, desmontase o mito europeísta mostrando como ele nasceu de medos, ilusões e pressões externas, e como continua a revelar contradições estruturais. A integração foi concebida para neutralizar a Alemanha; o euro surgiu como resposta ao receio provocado pela reunificação; a Alemanha evita liderar; o Estado nacional permanece central; a democracia fragilizouse; a identidade europeia não se consolidou; e o nacionalismo regressa. A Europa não pode fugir da sua história, porque, “a história é a Europa”.

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