Um Grito no Deserto VozesA propósito do mundial Paul Chan Wai Chi - 31 Jul 2026 O Mundial, realizado de quatro em quatro anos, chegou ao fim, e, em Macau, a paixão despertada pelo futebol já começa a esfriar. No entanto, depois de vários dias a ver partidas de futebol, percebemos que para além do prazer de assistir a um jogo, existem muitos aspectos a considerar. A “Mão de Deus” irá sempre aparecer. Para evitar golos marcados pelas “Mãos de Deus” e assegurar que os jogos são equilibrados e justos, o sistema do VAR passou a ser implementado no Mundial. Embora exista ainda alguma controvérsia em torno das decisões, no geral, os jogadores têm de se submeter à tecnologia e ao julgamento dos árbitros. No entanto, o Presidente dos Estados Unidos chegou ao ponto de telefonar ao Presidente da FIFA para adiar a suspensão de um jogador americano que tinha visto o cartão vermelho, para que pudesse jogar contra a Bélgica. Se nesse jogo a selecção americana tivesse vencido, poder-se-ia dizer que Donald Trump também tinha usado a “Mão de Deus”. No entanto, a intervenção humana não pode, em última análise, superar a verdadeira mão de Deus. Perante a verdade e a justiça, a vitória está sempre na mão divina, e todas as acções que violem a justiça estão destinadas a ser derrotadas. Actualmente, existem apenas dois países (a Índia e a China) com mais de mil milhões de habitantes. Embora a Índia tenha sido uma colónia britânica, não é especialista em futebol. Naquele país, o cricket foi sempre o desporto mais popular e o que gera mais receitas. Devido à ausência de um planeamento a longo prazo que aposte no crescimento do futebol, desde as escolas às ligas profissionais, e embora o seu desempenho futebolístico tenha melhorado nos últimos anos, a Índia tem ainda um longo caminho a percorrer antes de se vir a qualificar para um Mundial. Na verdade, a Índia qualificou-se por defeito em 1950, depois de várias equipas se terem retirado, mas a Federação Indiana de Futebol também acabou por tirar a equipa da competição para apostar nas Olimpíadas. Não foi um pouco lamentável? A China, que se diz ter sido o berço do “futebol primitivo”, só viu a sua selecção ser qualificada para o Mundial uma vez, em 2022, perdendo os três jogos da fase de grupos, sem marcar qualquer golo. Embora o seleccionador nacional tenha manifestado a vontade de a equipa se vir a tornar em 2030 líder do futebol asiático, e o Governo tenha estabelecido o objectivo do país se tornar uma potência do futebol em 2050, sem reformas sistémicas e sem a erradicação da corrupção, mesmo que se encontre um jogador excepcionalmente talentoso no meio de cem milhões de pessoas, a realidade não pode ser mudada. A Rússia foi outro grande país ausente do Mundial, não é o mais populoso, mas o maior em área geográfica. O futebol russo não é mau e a sua selecção qualificou-se várias vezes para o Mundial. No entanto, nos últimos anos, o futebol russo tem falhado a presença no Mundial e nas Olimpíadas devido à “operação militar especial” contra a Ucrânia desencadeada há quatro anos. Se a vitória e a derrota forem as únicas medidas do valor, então das 48 equipas participantes só uma tem valor, a que vence a competição. Mas o desportivismo exibido em campo é ainda mais importante do que a possibilidade de perder ou de ganhar. As equipas de Cabo Verde, do Japão e da Noruega foram eliminadas, mas as suas actuações conquistaram os corações dos adeptos e de quem as viu jogar. Ver jogadores de ambos os lados reunir-se para rezar no final da partida, um símbolo de amizade e de paz, deveria ser um motivo de reflexão para quem luta incansavelmente pelos seus próprios interesses. Cabo Verde, um nome familiar para muitas pessoas de Macau, é um país lusófono que tem estado presente em várias actividades desta cidade. O seu PIB per capita é inferior ao de Macau, mas o espírito de equipa que revelou neste Mundial foi o pilar dos seus excelentes resultados. O Japão almeja ganhar um Mundial e a China luta para ter a melhor equipa asiática em 2030. Este espírito visionário merece servir de exemplo, e as suas práticas, independentemente do sucesso ou do fracasso, merecem ser usadas como referência em Macau.