China / ÁsiaCPLP/30 anos| Brasil diz que português é questão de soberania na era da IA Hoje Macau - 13 Jul 2026 O Brasil defendeu que a língua portuguesa deve ser tratada como um activo estratégico na era da inteligência artificial e afirmou que a CPLP pode desempenhar um papel central na defesa da soberania tecnológica dos países lusófonos. Em entrevista à agência Lusa, o secretário de África e Médio Oriente do Ministério de Relações Exteriores do Brasil, embaixador Carlos Sérgio Sobral Duarte, alertou para os desafios colocados pelos actuais modelos de inteligência artificial. Segundo o diplomata, a concentração do desenvolvimento dessas tecnologias em poucos países faz com que os grandes modelos sejam treinados sobretudo em inglês e chinês. “Quando o português é tratado como língua secundária no treinamento dos modelos, enfraquece-se a soberania das sociedades lusófonas e sua capacidade de desenvolver soluções próprias”, afirmou por ocasião dos 30 anos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), que se assinalam em 17 de Julho. “Para reverter esse quadro, precisamos tratar a língua portuguesa não apenas como património cultural, mas como activo estratégico. E aqui a CPLP tem um papel central a desempenhar”, completou. Carlos Duarte defendeu que a CPLP promova bases de dados linguísticos partilhados que representem adequadamente todas as variedades da língua portuguesa. Também propôs o reforço da cooperação científica e universitária entre os países da comunidade para ampliar a investigação em inteligência artificial. Segundo o diplomata, as comunidades lusófonas produzem dados relevantes, mas ainda não têm capacidade suficiente para extrair deles maior valor económico. “No plano internacional, a CPLP tem peso suficiente para levar a foros como as Nações Unidas, a UNESCO e a UNCTAD a exigência de que os sistemas de inteligência artificial respeitem a diversidade linguística e cultural”, declarou. O diplomata acrescentou que a integração da CPLP não depende da uniformização da língua, mas da capacidade de transformar a diversidade das variantes do português num património comum. “Em última análise, defender o português no mundo digital é defender a nossa soberania tecnológica, científica e cultural”, concluiu. Mais fortes Ao abordar a convivência entre as diferentes variantes do português, Carlos Duarte afirmou que a diversidade linguística fortalece, e não enfraquece, a comunidade lusófona. “As diferenças entre as variedades do português faladas nos países da CPLP são reais. E não falo apenas de sotaques. Há diferenças de vocabulário, construções gramaticais, expressões idiomáticas, referências culturais e posição do idioma em cada sociedade”, avaliou. “Seria um erro interpretar essas diferenças como um obstáculo à integração. Pelo contrário, o grande desafio da CPLP não é superar a diversidade, mas aprender a valorizá-la”, disse. O responsável considerou que talvez o maior desafio actual da CPLP não seja propriamente linguístico, mas sociopolítico. “Os países da CPLP ainda têm níveis relativamente modestos de circulação de pessoas, estudantes, pesquisadores, livros, produtos audiovisuais e conteúdos digitais”, disse, referindo que brasileiros e africanos lusófonos, por exemplo, conhecem pouco a literatura contemporânea uns dos outros. “A integração da CPLP não depende da uniformização do português, mas da capacidade de transformar a diversidade das variedades lusófonas num património comum”, realçou.