Países hispânicos | Macau é “largamente desconhecido”

Apesar do desconhecimento geral, Macau pode ter sucesso no novo objectivo se conseguir provar que é a melhor forma de os países hispânicos explorarem as relações comerciais com a China ou se afirmar a nível do investimento em infra-estruturas

 

Analistas hispânicos consideraram em declarações à Lusa que Macau continua “largamente desconhecido” para países de língua espanhola, apesar da ambição do Governo local em afirmar-se como plataforma de ligação entre a China e o bloco hispanófono.

Segundo Carlos Martin, professor associado em Relações Internacionais na Universidade Europeia de Valência, Macau tem “um potencial ainda por explorar”, com “bases para se tornar o conector natural entre a China e o mundo hispânico”, mas continua “largamente desconhecido nesses mercados”.

O académico defendeu à Lusa que o Governo deve “executar uma estratégia inteligente para activar as conexões certas”, de maneira a que os sectores civil e empresarial “vejam Macau como a melhor opção para operar na China”.

O analista espanhol propõe mesmo a criação de ligações regionais específicas, sugerindo “ligar os centros regionais adequados”, como por exemplo, Macau e cidades espanholas como Valência e outras.

Para Martin, a ligação cultural entre Macau e os países hispanófonos é relevante, fruto da sua história lusófona, mas não suficiente, pois “o tamanho das empresas, os sectores envolvidos, a mão de obra necessária” são factores que influenciam a “perspectiva dos governos regionais e a forma como consideram a cooperação e o equilíbrio do envolvimento”.

O académico concluiu também que as oportunidades não se limitam a um país ou região, e que, “se o foco for apenas empresarial”, oportunidades podem ser encontradas em todo o continente latino-americano.

“Destaco directamente o interesse da Argentina, Colômbia e Equador [no mercado chinês]”, indicou.

Poderio económico

A China é actualmente o segundo maior parceiro comercial de toda a América Latina, com o comércio bilateral a atingir o recorde de 518 mil milhões de dólares em 2025.

O Governo chinês definiu em 2003 Macau como uma ponte entre a China e os países de língua portuguesa, papel que foi expandido pelo novo líder da região, Sam Hou Fai, para englobar também os 21 países de língua espanhola.

Questionado sobre se Macau pode ter esse papel de ligação com a China, Juan Enrique Serrano Moreno, professor associado do Instituto de Estudos Internacionais da Universidade do Chile, é peremptório: “Não creio”.

“Não penso que Macau venha a tornar-se um centro de negócios para empresários latino-americanos. Há formas mais eficazes através de centros de negócios na China continental e, em menor medida, em Singapura”, indicou à Lusa o analista chileno.

Ignacio Araya, analista relações China–América Latina na Universidade Diego Portales, sublinhou que Macau está a procurar “um papel maior dentro da projecção internacional que a China está a construir hoje”.

Para o académico, o território pode funcionar como “ponte complementar”, especialmente para ligar latino-americanos ao sul da China e à província de Guangdong.

Os planos de integração e cooperação existentes de Macau com a província de Guangdong e a zona económica especial na vizinha Hengqin, estabelecida para ajudar a diversificação económica da cidade, oferecem também uma via para a entrada das empresas dos países de língua espanhola na China.

Araya destaca, no entanto, que “a oportunidade mais concreta está nas infra-estruturas”, lembrando que Macau foi sede do Fórum de Cooperação em Infra-estruturas China-América Latina e Caraíbas.

“Macau pode ser especialmente útil se se especializar como nó de infra-estruturas para o Brasil e outros países sul-americanos, onde já existe uma presença significativa de empresas e financiamento chineses”, acrescentou.

O investigador destacou que a China não se projecta internacionalmente apenas a partir de Pequim, fazendo-o também através de províncias, cidades e universidades com “agendas próprias de internacionalização”.

“Nesse mapa, Macau pode ser útil, se se posicionar como um nó especializado capaz de articular essas conexões, não como substituto de outros canais, mas como espaço capaz de os interligar”, concluiu.

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