Poesia de Lu Xun traduzida – 他 Tā

「知了」不要叫了, zhī liǎo bú yào jiào le 他在房中睡著;

tā zài fáng zhōng shuì zháo

「知了」叫了,刻刻心頭記著。

zhī liǎo jiào le, kè kè xīn tóu jì zhe

太陽去了,「知了」住了,還沒有見他,

tài yáng qù le, zhī liǎo zhù le, hái méi yǒu jiàn tā

待打門叫他,一銹鐵鏈子繫著。

dài dǎ mén jiào tā, yí xiù tiě liàn zi jì zhe

秋風起了,

qiū fēng qǐ le

快吹開那家窗幕。

kuài chuī kāi nà jiā chuāng mù

開了窗幕,會望見他的雙靨。

kāi le chuāng mù, huì wàng jiàn tā de shuāng yè

窗幕開了,一望全是粉牆,

chuāng mù kāi le, yí wàng quán shì fěn qiáng

白吹下許多枯葉。

bái chuī xià xǔ duō kū yè

大雪下了,掃出路尋他;

dà xuě xià le, sǎo chū lù xún tā

這路連到山上,山上都是松柏,

zhè lù lián dào shān shàng, shān shàng dōu shì sōng bǎi

他是花一般,這裏如何住得!

tā shì huā yì bān, zhè lǐ rú hé zhù de

不如回去尋他,一呵!回來還是我的家。

bù rú huí qù xún tā, yì hē, huí lái hái shì wǒ de jiā

Ele

«Cigarra»,

não cantes mais.

Ele dorme dentro de casa.

«Cigarra»,

cantas sem cessar,

e o meu coração lembra-se dele. O sol desapareceu.

A cigarra calou-se. E eu ainda não o vi.

Quero bater-lhe à porta, chamá-lo,

mas uma corrente enferrujada prende-a.

Ergue-se o vento de outono. Abre aquela cortina.

Abre-a depressa.

Se a cortina se abrir,

talvez eu veja as suas covinhas. A cortina abre-se.

Olho.

Há apenas um muro rosado. Em vão o vento derruba folhas secas.

Cai a neve.

Abro caminho para o procurar. Esta estrada sobe à montanha.

Na montanha

há apenas pinheiros e ciprestes. Ele é como uma flor.

Como poderia viver aqui?

Talvez seja melhor voltar a procurá-lo.

Ah…

Quando regresso, continua a ser

a minha casa.

Comentário da tradutora

Publicado a 15 de abril de 1919 na revista Nova Juventude (Xin Qingnian 新青年), vol. 6, n.º 4, sob o pseudónimo Tang Si (唐俟), este poema debruça-se sobre o motivo da procura de uma figura idealizada, designada apenas por “ele” (他). A indeterminação do pronome abre o texto a uma leitura amplamente simbólica. “Ele” pode ser uma pessoa amada, uma forma de beleza, um ideal espiritual ou uma promessa de renovação que permanece sempre próxima e inacessível.

A construção do poema aproxima-se de uma pequena cena dramática. A voz dirige-se primeiro à cigarra (知了), pedindo-lhe silêncio, como se o canto insistente impedisse o repouso ou amplificasse um sentimento de vazio causado por uma ausência. A cigarra, associada ao verão, adquire a função de uma voz exterior que ativa a memória interior. O seu canto fixa “ele” no coração do sujeito, instaurando uma tensão entre som, desejo e impossibilidade de encontro.

A procura organiza-se em três momentos sazonais. O verão aparece no canto da cigarra e no desaparecimento do sol. O outono surge através do vento, da cortina e das folhas secas. O inverno manifesta-se na neve, no caminho aberto à força e na montanha coberta de pinheiros e ciprestes. A primavera permanece ausente, precisamente a estação da flor, do encontro e da renovação. Esta ausência dá ao poema uma estrutura de frustração contínua.

A casa (房, 家) constitui o primeiro espaço da procura e também o ponto de retorno

enquanto a corrente enferrujada (銹鐵鏈子) parece assumir a função do objeto que impede o acesso ao interior, convertendo, assim, a proximidade em clausura. É como se a figura procurada estivesse dentro mas a porta bloqueada transformasse essa possibilidade numa forma de distância. Ou seja, a busca começa perante uma suposta presença e termina numa amargura associada ao mesmo espaço doméstico.

A cortina (窗幕) parece introduzir uma promessa de revelação. A voz espera ver as covinhas de “ele” (雙靨), detalhe corporal delicado que confere à figura uma presença quase amorosa. Quando a cortina se abre, surge apenas o muro rosado (粉牆). O gesto de desvelamento revela uma superfície vazia. A cor preserva uma delicadeza aparente, mas a presença esperada dissolve-se numa parede.

A última deslocação conduz à montanha, espaço de frio, de distância e de permanência. Os pinheiros e ciprestes (松柏), associados à resistência e também ao imaginário fúnebre, contrastam com a natureza floral de “ele”. A afirmação “ele é como uma flor” (他是花一般) torna explícita a incompatibilidade entre a figura procurada e o lugar encontrado. A flor exige outro clima, outro tempo, outra possibilidade de vida.

O verso final fecha o poema em círculo. O regresso não produz reencontro nem uma descoberta. A casa permanece a mesma e o sujeito retorna ao ponto de partida, trazendo apenas a consciência da ausência. A procura revela-se, assim, simultaneamente movimento e clausura, desejo de saída e impossibilidade de abandonar verdadeiramente o próprio lugar.

A tradução procurou acentuar a dimensão vocal e dramática do texto original, preservando os chamamentos, as interrupções e as frases breves. A divisão versal procurou tornar audível a respiração ansiosa da busca e consequente sucessão de expectativas frustradas. A linguagem mantém a simplicidade do chinês vernáculo, enquanto as imagens sazonais, a flor, a cortina, a corrente e a casa sustentam uma atmosfera de sugestão próxima de uma sensibilidade simbolista.

Nota

¹ Recolhido em Ji wai ji shiyi bian (集外集拾遺補編, Suplemento aos Escritos Recolhidos Fora das Coletâneas), incluído em Lu Xun quanji (魯迅全集, Obras Completas de Lu Xun), vol. 8, pp. 109–110.

Subscrever
Notifique-me de
guest
0 Comentários
Mais Antigo
Mais Recente Mais Votado