EntrevistaJosé Paulo Esperança, docente da Universidade Cidade de Macau: “Macau precisa de especialistas” Andreia Sofia Silva - 28 Mai 202628 Mai 2026 José Paulo Esperança, professor de Finanças da Universidade Cidade de Macau, apresentou ontem uma palestra sobre o sector financeiro local intitulada “Mercado Pequeno, Estratégia Inteligente: O Futuro Financeiro de Macau”. O académico considera essencial que o ecossistema financeiro local “se torne mais robusto” O Governo tem na agenda política o desenvolvimento do mercado financeiro. Como descreve este sector actualmente e quais as principais lacunas que aponta? Faltam, por exemplo, mais empresas com contabilidade organizada, ou uma maior estruturação? O ecossistema financeiro necessário para suportar a nova visão do sistema financeiro é complexo. Macau tem elevadas competências ao nível legal, bancário e de supervisão, mas o desenvolvimento de novos produtos e fundos exige maior número de especialistas em auditoria, compliance, gestão de risco, investimento em acções, obrigações e derivados, para além da necessidade de reforçar a literacia financeira em Macau. Não menos importante é a capacidade da comunicação social em ajudar a perceber as oportunidades e riscos dos produtos financeiros. Na sua apresentação abordou lacunas, ou espaços a que o mercado financeiro de Hong Kong não consegue dar resposta e que Macau pode preencher. Que áreas são essas? Hong-Kong tem uma das dez maiores praças financeiras do mundo e é a segunda pelo valor de IPOs (Initial Public Offerings), beneficiando do dinamismo de startups da China. Também tem uma projecção inquestionável na gestão de fortunas, no mercado de obrigações, e no mercado cambial. A regulação de novos produtos como “stable coins” também não foi ignorada. No entanto, apesar do dinamismo dos parques científicos e dos “family offices”, o financiamento de startups e pequenas empresas regista ainda lacunas significativas, essencialmente ao nível da mobilização de capital privado para novos projectos. Talvez uma das diferenças mais significativas entre Macau e Hong-Kong seja o nível da taxa de poupança que representa um enorme volume de capital “ocioso” à procura de oportunidades de investimento. Macau pode, de facto, construir um mercado financeiro “mais focado e diferente” em relação ao cimentado sector financeiro de Hong Kong? Que produtos de nicho poderia ter? Macau tem desenvolvido diversas iniciativas ao nível do mercado de obrigações (MOX) ou de direitos de carbono, “Macau Emissions Exchange” (MEX), ambas áreas onde Hong-Kong também possui forte presença, por exemplo com a emissão de “green bonds”. No entanto, outras iniciativas são claramente distintas, como é o caso do “Microconnect”, uma plataforma de “revenue based (ou royalty) financing (RBF)” em que os investidores são remunerados através de uma percentagem da facturação dos negócios investidos. Este modelo, que já apoiou mais de 10.000 pequenas empresas por toda a China, permite começar a receber dinheiro na conta bancária logo que o beneficiário faz a primeira venda. A China constitui um mercado excelente para este modelo de financiamento, dado o elevado nível de digitalização da economia, o que reduz o risco de fraude. Alguns estudos sugerem que o RBF é o modelo de financiamento de pequenos negócios com maior potencial de crescimento no mundo, mais de 30 por cento ao ano. Outros modelos com enorme potencial para Macau incluem a criação de uma rede de “business angels” que permitiria dinamizar as elevadas poupanças dos residentes de Macau. Um dos maiores especialistas, antigo presidente da European Business Angels Network (EBAN) e autor do “Zero Risk Start-Up”, Paulo Andrez, fez já três visitas a Macau, tendo apresentado o modelo que permitiu à Europa acelerar a sua rede de “business angels”, uma área em que estava muito atrás dos Estados Unidos da América. A criação de novos fundos e o compromisso de investimento público nesses fundos permite uma elevada expectativa na capacidade de alavancar os investimentos privados em start-ups locais, na Grande Baía e nos países de língua portuguesa (PLP). Finalmente, uma área ainda não explorada que proponho é a criação de plataformas de “crowd-funding” que podem mobilizar muitas pequenas contribuições para novos projectos com fins lucrativos, ou para apoio a famílias de baixos recursos, por exemplo nos PLP. Mencionou ainda exemplos de pequenas economias com laços internacionais, como o Luxemburgo e o Dubai. Que perperspectivas estes territórios abrem para a RAEM? Estes pequenos centros financeiros têm diferentes especializações. Por exemplo, Singapura é muito forte em gestão de fortunas, mercados cambiais e derivados, mas o seu mercado de capitais é muito reduzido. O Luxemburgo beneficia de uma posição central na União Europeia e tornou-se o segundo maior centro de fundos de investimento bem como ao nível da indústria seguradora e de resseguros. Os fundos de investimento podem ter um elevado potencial também para Macau, mas é necessário que o nosso ecossistema se torne mais robusto. Macau é, há muito, um território com baixa carga fiscal, não existindo impostos sobre o consumo ou rendimentos. Considera que haveria espaço para uma mudança – que seria estrutural – a esse nível? A baixa carga fiscal é fundamental, nesta fase. A Irlanda é um exemplo em que um IRC [Imposto sobre o Rendimento de Pessoas Colectivas) reduzido, de 12.5 por cento, permitiu atrair muitas multinacionais. No futuro, um sector financeiro mais robusto em Macau pode permitir uma receita fiscal mais elevada, mas isso vai levar algum tempo. Macau quer apostar no desenvolvimento do sector financeiro, mas parece demorar a flexibilizar as leis de contratação de quadros externos. É importante ter uma “mente aberta” a este nível e permitir uma contratação mais acessível de pessoas, sobretudo do espaço lusófono? Macau precisa de atrair especialistas e “boutiques” especializadas em produtos financeiros inovadores. Na fase de arranque é fundamental uma maior abertura ao direito de residência de especialistas e apoio financeiro à criação de novas empresas no sector financeiro e segurador. Portugal e o Brasil têm uma experiência recente de dinamização do sector financeiro de que Macau poderia beneficiar, para além de os mercados dos PLP representarem oportunidades de investimento muito interessantes, sobretudo se associadas à entrada de empresas chinesas, nas áreas da energia, agricultura ou indústria transformadora. Finanças ao pequeno-almoço “Small Market, Smart Strategy: Macau’s Financial Future?” [Mercado Pequeno, Estratégia Inteligente: O Futuro Financeiro de Macau?] foi o tema da mais recente sessão de conversas ao pequeno-almoço, organizada ontem pela Câmara de Comércio França Macau no Sofitel Ponte 16. A sessão protagonizada por José Paulo Esperança teve como objectivos frisar a importância de Macau não copiar as características de Hong Kong, mas aproveitar e preencher as lacunas da praça financeira vizinha, e ganhar margem de manobra no financiamento de startups e nas ligações aos países de língua portuguesa e espanhola. Segundo o académico, produtos financeiros de nicho e aposta em novas tecnologias podem também ser trunfos da RAEM. Em Portugal José Paulo Esperança foi vice-presidente da Fundação para a Ciência e a Tecnologia de Portugal, tendo ainda ajudado a criar o AUDAX-ISCTE, um centro dedicado ao empreendedorismo e às empresas familiares, que presidiu até 2015 e reitor da ISCTE Business School.