O umbral da desordem mundial (II)

“Great empires are not maintained by timidity.” Tacitus.

Fala‑se muito da “defesa em mosaico”, que, ao descentralizar os comandos, permite ao Pasdaran, Basiji e militares das Forças Armadas regulares (Artesh) manterem‑se operacionais apesar da sucessão de assassinatos na liderança político‑militar. Menos divulgado, mas igualmente importante, é o aspecto económico‑industrial dessa estratégia. Nas primeiras fases da guerra, o presidente Masoud Pezeshkian delegou autoridade às províncias e simplificou os procedimentos administrativos, facilitando, entre outras coisas, a importação de mercadorias que favoreceu o comércio terrestre, compensando parcialmente o semi‑encerramento de Hormuz. O Irão importa, através desse estreito, parte do trigo, óleo vegetal e arroz que consome, além de quase toda a soja. O abastecimento provinha sobretudo de portos do Golfo, que foram alvo de represálias iranianas. Entre as rotas alternativas figuram ligações ferroviárias com a China a norte e portos secundários como Chabahar, no sul, embora com capacidade limitada.

Apesar disso, os alimentos incluindo os frescos permaneceram abundantes e, ao contrário dos meses anteriores, relativamente estáveis nos preços, graças ao isolamento do rial. O racionamento do petróleo evitou a escassez após os ataques aos centros de armazenamento que escureceram o céu da capital. O Estado, principal empregador do país, continuou a pagar salários. A República Islâmica mostrou‑se economicamente preparada para a guerra, embora pagando um preço elevadíssimo. Tal como aconteceu com a Rússia após a invasão da Ucrânia, confundiram‑se as dimensões modestas da economia com a sua tenacidade, que lhe permite sustentar uma guerra de desgaste. A situação é diferente para a economia mundial que é um mecanismo muito maior, mas também mais complexo e, por isso, frágil.

Os países árabes do Golfo são nós cruciais na produção global de fertilizantes azotados, essenciais para a agricultura industrial. Quando a cadeia do azoto se interrompe, os efeitos acumulam‑se nos solos e influenciam durante meses as decisões de plantação. As previsões de rendimento das colheitas de milho estão a ser revistas em baixa, dado que muitos agricultores optarão pela soja, que exige menos azoto. A este cenário soma‑se a guerra na Ucrânia. A Rússia e Ucrânia produzem cerca de um quarto do trigo mundial, e quase quinhentas mil pessoas, sobretudo em África e no Médio Oriente, sofrem choques alimentares devido a esse conflito. Com o agravamento climático, o Corno de África encontra‑se há muito à beira da fome.

Os principais importadores de cereais, como o Egipto, têm reservas para apenas alguns meses. Aumentos de 30-40% nos preços dos alimentos básicos estão historicamente associados ao crescimento da instabilidade política nos 6 a 18 meses seguintes, como ocorreu amplamente durante as chamadas primaveras árabes.

Há ainda consequências de médio e longo prazo. É cedo para avaliar o impacto da guerra contra o Irão sobre o poder económico‑financeiro dos Estados Unidos, mas alguns efeitos estruturais delineiam-se. Dois, em particular. Primeiro, embora a evidência imediata possa sugerir o contrário, a desdolarização tende a continuar, se não a intensificar‑se. A valorização do dólar nas primeiras semanas de guerra ecoa a sua função tradicional de refúgio. Mas muitos vêem nesta corrida ao dólar não tanto como uma busca de segurança, mas como uma postura de neutralidade. Depois de terem investido massivamente em ouro, em detrimento do dólar, os agentes económicos regressam parcialmente a um activo líquido e abundante, para retomarem distância assim que possível de uma moeda e de um país não vistos como totalmente fiáveis.

Segundo, a China, aconteça o que acontecer, saiu vencedora. Uma guerra longa e dispendiosa que deixe o Médio Oriente ainda mais inseguro corrói a capacidade de dissuasão dos Estados Unidos isto é, a confiança dos aliados na protecção de Washington e o receio dos adversários em desafiá‑la. Tal implica, entre outras coisas, uma corrida generalizada ao armamento e à diversificação energética. Esta última não é apenas um esforço ecológico, mas sobretudo um instrumento de redução de risco, seguindo o modelo chinês das últimas três décadas, que levou o país a gerar hoje um terço da electricidade mundial proveniente de fontes renováveis.

Tudo isto exige matérias‑primas críticas, o que significa sobretudo aço e electrónica, portanto terras e metais raros, mas também gás e outros precursores necessários à produção de chips. A China controla actualmente mais de 70% da capacidade manufactureira associada a estes sectores como o solar, eólico, baterias e componentes químicos. Com cerca de 1,3 mil milhões de barris de petróleo acumulados em reservas estratégicas, é também o único país capaz, no curto e médio prazo, de estabilizar o mercado petrolífero, além de ser exportador líquido de refinados e o segundo maior exportador mundial de fertilizantes. Possui ainda vastas reservas de enxofre, essencial para fertilizantes e metalurgia, e reduziu a dependência do Golfo em relação ao hélio, crucial para semicondutores, graças a descobertas recentes de jazidas internas.

Para muitos outros países, especialmente os europeus, prevê‑se um aumento das dependências de bens críticos, bem como uma inflação persistente no sector energético e nas matérias‑primas em geral, com inevitáveis repercussões na indústria e nas limitadas margens fiscais dos seus orçamentos endividados. No Golfo trava‑se hoje uma guerra assimétrica. Assimétrica porque opõe o Irão que é um Estado organizado e detentor do monopólio da violência a uma América errática e sem estratégia, que visa exclusivamente destruir. E servir Israel, ou melhor, os seus impulsos autodestrutivos. O Estado iraniano longe de poder ser reduzido ao regime geriu com relativo sucesso as tentativas israelo‑americanas de decapitação, reorganizando rapidamente a cadeia de comando graças a planos preparados há décadas, mas aperfeiçoados recentemente através do estudo das tácticas usadas por Washington e Telavive contra os seus aliados regionais.

Apesar da amputação do seu corredor estratégico, agora reduzido ao eixo Bagdade‑Teerão‑Herat com a extensão libanesa do Hezbollah demasiado cedo dada como destruída, o Irão permanece nas mãos dos Pasdaran. Pior ainda, das suas facções mais radicais. Os Estados Unidos e Israel estão, de facto, a impor uma mudança interna do regime. À liderança contrária ao confronto total, eliminada pelos assassinatos cirúrgicos, sucede uma constelação em recomposição, convencida de lutar pela vida ou morte. Com todos os meios ao seu dispor. Se o Estado não for destruído e se as negociações com os Estados Unidos não lhe oferecerem garantias absolutas (e como confiar, depois de tudo?), qualquer futura liderança iraniana acelerará a corrida à Bomba. Com esta guerra, Washington está a fazer a si aquilo que pretendia fazer a Teerão. E está a revelar‑se aquilo que acreditava ser o Irão; um “tigre de papel” (Trump), absolutamente “incapaz de raciocinar” (Rubio). Assim, na Casa Branca resta confiar nas orações. Da exportação da democracia à importação da teocracia?

A operação Epic Fury configura‑se como a hegeliana “fúria do desaparecer” de um mau infinito de violência sem síntese, que expõe a profundidade da crise estrutural americana. Uma crise enrolada em três factores de fragilidade, encadeados e orientados para a rápida dissipação de uma potência que não é super. O primeiro é estritamente militar. Desde 28 de Fevereiro, os americanos têm esvaziado os seus arsenais a um ritmo paroxístico. Análises informadas sugerem que, em breve, poderão ficar sem mísseis balísticos de precisão e sem sistemas capazes de interceptar projécteis iranianos. No primeiro mês de combates, a Marinha dos Estados Unidos terá lançado mais de 850 mísseis Tomahawk, quase um quarto das reservas disponíveis. Sistemas como o Patriot, caríssimos e impossíveis de substituir de imediato, foram usados para interceptar drones iranianos baratos e facilmente reproduzíveis em massa. Sinal de uma guerra insustentável, mal concebida e pior executada como notaram soldados ucranianos enviados para a região como conselheiros militares (como o mundo muda), os americanos estão “a disparar sem pensar”. Exactamente como os iranianos desejavam.

O segundo factor de fragilidade é a ausência de estratégia. Este défice resulta de dois elementos. Primeiro, os poderes americanos estão divididos, parcialmente privatizados, mais empenhados em combater‑se entre si do que em elaborar uma teoria da vitória. A potência substitui a estratégia, tornando a guerra interminável e, por fim, esgota‑se por autocombustão. Tudo muito americano com a diferença de que, desta vez, Washington enfrenta um inimigo cuja paciência estratégica é um mantra, enquanto se alia a um actor, o Estado israelita, que alimenta a dissipação da potência americana.

A falta de estratégia impede derrotar o inimigo e também controlar o aliado. Em geopolítica, como na vida, se não sabes o que queres, acabas por fazer o que os outros querem. Sejam inimigos ou supostos amigos, pouco importa. Assim, os Estados Unidos invertem o princípio hegemónico de longe de fazerem os outros agir em seu benefício, fazem o que serve os outros, prejudicando‑se. Sem alcançar qualquer objectivo que não seja, nas palavras de Baudrillard, o “delírio de uma vitória vazia, a exaltação de uma proeza estéril”.

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