O Abissal

Ana Cristina Alves – Investigadora Auxiliar e Coordenadora do Serviço Educativo do Centro Científico e Cultural de Macau

Quantos foram os que tentaram domar as águas, interiores e exteriores? E os que venceram dilúvios?

Numa cultura tão antiga como a chinesa, há um grande imperador mitológico, gerado apenas por ventre paterno, tal como a deusa Atena, que havia de nascer da cabeça de Zeus. O Grande Yu (大禹), filho de Gun (鯀), nasceu do pai na forma de dragão e tinha poderes superiores aos do progenitor. Este procurava controlar as cheias com a terra reprodutora, aquele fê-lo com a mesma terra reprodutora milagrosa, mas com o auxílio suplementar de dois animais sagrados, o Dragão Ying (应龙) e a Tartaruga Xuan (玄龜). Apesar da oposição do Deus da Água, venceu-o e passou à história chinesa como o “Imperador que dominou o dilúvio”(大禹治水 Dà Yǔ Zhì Shuǐ) e, além disso, para impedir o avanço das águas construiu canais e dragou rios. As cheias, obra de deuses maldispostos ou de demónios perversos, foram controladas pela força do trabalho de um governante com poderes sobrenaturais, que se sacrificou a si e à sua família a bem da terra chinesa. Por isso se diz que ele casou com Nujiao (女娇), uma donzela da tribo Tushan (涂山氏) e “quatro dias depois do casamento, saiu de casa para retomar os seus afazeres. Esperavam-no trabalhos sem fim. Durante treze anos, passou três vezes pela sua casa, mas nunca entrou.” (Wang, Alves, 2009, 86).

 À sua imensa virtude e força de trabalho se ficou a dever a salvação da China e, como esta era à época o centro do mundo, da própria terra.

 Será ainda em luta e desafio às águas que outros heróis, divinos e humanos, vão exercitar as suas virtudes e, através delas, salvar a humanidade.

 Também na Grécia houve uma grande inundação provocada pela fúria de Zeus, contra uma humanidade cada vez mais impiedosa, violenta e corrupta. Conta-se que o deus supremo do Olimpo primeiro ainda pensou em desferir o seu raio contra os homens, deixando a terra toda em chamas, mas como o fogo poderia chegar aos céus, resolveu que o castigo seria perpetrado através das águas. Prometeu, que era vidente e muito amigo da humanidade, resolveu avisar o seu filho Deucalião, que morava em Ftia com a esposa Pirra, sendo esta filha de Pandora e Epimeteu. Ora como eles eram modelos de virtude foram os únicos a escapar ao dilúvio grego. “O casal tinha uma vida exemplar: eram muito trabalhadores, cumpriam as leis e eram piedosos. Por esse motivo, bem como pela afeição paternal, Prometeu quis garantiu que Deucalião e Pirra sobreviviam ao Dilúvio, que ele sabia que Zeus ia enviar um dia, e tinha dito ao filho para se preparar.” (Johnston, 2025, 83).

 Quando os céus escureceram, Deucalião percebeu que era tempo de se proteger, bem como à mulher. Preparou uma arca de madeira, isolou-a, encaixando as juntas e calafetando-as com alcatrão, depois equipou-a com alimentos necessários para se manter vivo com a sua mulher durante algum tempo. Passados nove dias e nove noites, a arca do casal encalhou no monte Parnaso. Perceberam que estavam sozinhos no mundo e para o repovoar procederam de acordo com os conselhos avisados de Témis, avó de Deucalião e mãe dos titãs Prometeu e Epimeteu, deusa que organiza o cosmos, conselheira e consorte temporária de Zeus. Não foi com o barro de Nϋwa (女娲), mas quase, foi com pedras, ossos maternos de Gaia, que repovoaram a terra: das mãos de Deucalião rolavam pedras que se transformavam em homens e das de Pirra eram atirados seixos que em contacto com o solo amoleciam e se metamorfoseavam em mulheres.

Assim foi salva a humanidade por um casal, meio divino, meio humano, totalmente exemplar. Eram de facto os únicos que se aproveitavam naqueles tempos antigos e, através deles, as gentes tiveram a sua segunda oportunidade.

Episódio semelhante sucedeu na tradição judaico-cristã. Depois de ter sido atingido o auge da corrupção “Javé viu que a maldade do homem crescia na Terra e que todo o projecto do coração humano era sempre Mau” (Gen, 6, 5-7) . Só havia um justo, de nome Noé, e esse preservou a vida, bem como a mulher, os filhos e as mulheres dos filhos. Para tal, e porque o castigo do dilúvio se aproximava, também ele construiu uma arca, com as dimensões exatas ditadas por Deus, cento e cinquenta metros de comprimento, vinte e cinco de largura e quinze de altura. Era ampla para que nela coubesse um casal de cada ser vivo. Tinha à época este justo Noé 600 anos. Ao cabo de um ano de aventuras, já atingira os 601 anos, pôde sair com toda a família e companheiros da barca para se multiplicar e encher a terra, sob a proteção de Deus, que assim falou: “Estabeleço a minha aliança convosco; de tudo o que existe, nada mais será destruído pelas águas do dilúvio, e nunca mais haverá dilúvio para devastar a Terra.” (Gen, 9, 11).

Bastou um justo para salvar toda a sua família, os outros seres vivos e recomeçar a história da humanidade e do mundo. Mas o dilúvio, o banho purificador, também na tradição judaico-cristã, foi essencial, sem ele a terra continuaria poluída e corrupta.

 O que nos diz a tradição filosófica chinesa sobre a Água? Para obter uma resposta há que remontar ao Clássico das Mutações (易经), no qual se encontram entrelaçadas a poesia e a filosofia. Este é composto por oito trigramas (八卦 bāguà) básicos, sendo um deles a Água (坎 kǎn). Os oito trigramas combinam-se de modo a constituírem os 64 hexagramas. Quando o trigrama da Água de base se encontra com o trigrama da Água do topo, está-se rodeado de água e este hexagrama, o 29º (坎卦第二十九 kǎn guà dí èr shí jiǔ), denomina-se, numa tradução possível pelo seu atributo, o Abissal.

O perigo é enorme e repetido, de nada serve ao/à filósofo/a tentar escapar, porque está no meio de um dilúvio, que quando não é exterior, é interior, ou até simultâneo. No entanto, caso se observe a disposição das linhas, há esperança, já que o trigrama da Água é formado por duas linhas descontínuas yin, sombrias e aquáticas, mas ao centro contém uma linha contínua yang, solar, onde reside a alma. Quer dizer, ao todo, o hexagrama do abismo, ou numa interpretação ousada, do dilúvio, é constituído por quatro linhas sombrias e duas solares. Há então saída para o grande mergulho nas águas, mas essa deve ser encontrada no interior, o que liga a mente ao espírito, aquele capaz de se elevar, ainda que por vezes só em pensamento, para escapar ao perigo abissal.

 O/a sábio/a deverá cultivar uma determinada atitude, prática e muito concreta, se quiser ter a mesma sorte de Da Yu, Noé ou Deucalião, apontada pelo juízo do hexagrama, que resume e condensa a leitura atenta das seis linhas. No 29º hexagrama está-se perante: “O Abismal repetido, mas com sinceridade e confiança no coração, ser-se-á bem-sucedido em tudo o que se fizer.” (習坎,有孚,維心亨。行有尚) (Zhang, 1995,127). Será decisiva a sinceridade ,que nos tempos antigos também se dizia “pensar com o coração” (維心 wéi xīn).

 Assim, na leitura da primeira linha, aquela em que se dá a repetição das águas (o dilúvio), devem ser evitadas as armadilhas, porque caso se caía numa, dada a adversidade das condições circundantes, não há saída possível. Na segunda linha, yang contínua, surge a compreensão da situação e a tentativa de avançar aos poucos, com pequenas ações. Na terceira linha, yin descontínua regressa a atmosfera de água sobre água, pelo que a não-ação é a melhor resposta. Na quarta linha, também ela yin descontínua, experimenta-se um certo bem-estar usufruído nos pequenos prazeres da vida, como uma jarra de vinho ou uma vasilha gui2 de arroz, passados pela janela, a ser recebidos sem culpas. (六四;樽酒,簋貮、用缶,納約自牖,終無咎) (Zhang, 1995,129). A sinceridade do sentir e a comunhão desta com as ações é essencial para preparar a entrada na quinta linha yang contínua, solar e apta à compreensão e ao exercício da via do meio, seguida sem excessos de ambição que provoque uma cheia incontrolável. O/a sábio/a é então confrontado com a necessidade de se autocontrolar, sendo de ultrapassar o abismo interior. As águas do dilúvio são desafiadas e controladas por dentro, e quando se construiu a barca interna, está-se preparado para enfrentar a adversidade, mas caso não tenha havido essa preparação, segue-se uma sexta linha yin aquática, na qual todos os que não se cultivaram, ou melhor, não exercitaram a sua sinceridade, vão padecer por um período, segundo a linha de topo do hexagrama, “conhecendo a desgraça por três anos” (三歲不得,兇) (Zhang, 1995,130).

Na filosofia chinesa mais antiga, a pessoa de saber é igualmente confrontada com o dilúvio, só que o perigo abismal, ainda que possa ser provocado por condições externas, só será vencido, caso seja adotada a atitude correta, que implica ultrapassar os obstáculos como boa preparação e sinceridade. A arca transportamo-la nós.

Bibliografia

Bíblia Sagrada. 1997. São Paulo: Paulus.

Johnston, Sarah Iles. 2025. Deuses e Mortais. Tradução de Luís Filipe Pontes. Odivelas: Alma dos Livros.

Wang Suoying, Ana Cristina Alves. 2009. Mitos e Lendas da Terra do Dragão. Lisboa: Caminho.

Wilhelm, Richard. 1989. I Ching or Book of Changes. Prefácio de C. G. Jung. London: Penguin Group.

張中鐸 (Zhang Zhongduo)(ed) 1995《易經提要白話解》(O Essencial do Clássico das Mutações)台南市:大孚.

Este espaço conta com a colaboração do Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, sendo as opiniões expressas no artigo da inteira responsabilidade dos autores.

Gui (簋) é uma vasilha, de grande antiguidade, usada, por exemplo, no Paleolítico chinês para efeitos rituais, de culto ás divindades nos templos e nas casas dos grandes senhores do país.

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