Grande PlanoFórum Boao | Entre o crescimento interno, o digital e energias limpas Andreia Sofia Silva - 26 Mar 202626 Mar 2026 Chamam-lhe o “Davos asiático” e termina na sexta-feira. Em Hainão, China, decorre a Conferência Anual do Fórum Boao para a Ásia e são muitos os temas em agenda: o crescimento económico chinês, apontado para 4,5 a 5 por cento, o crescente papel da inteligência artificial na economia, a aposta em energias limpas e o lugar da Ásia como motor de crescimento Por estes dias os olhares focam-se na zona mais tropical da China: Hainão. É nesta província insular do país que acontece, até sexta-feira, mais uma Conferência Anual do Fórum Boao para a Ásia, que reúne cerca de dois mil participantes de 60 países e regiões, com uma agenda pautada por temas como o papel da tecnologia e do digital na economia, com foco na inteligência artificial, a aposta em energias renováveis ou o lugar da Ásia na economia mundial. Claro que os olhos estão também colocados na economia chinesa, isto numa altura em que acaba de ser divulgado o 15.º Plano Quinquenal do país. Na terça-feira, dia de abertura do Fórum, foi divulgado um relatório que prevê que a economia asiática cresça entre 4,5 e 5 por cento este ano, com a região a continuar a ser o “motor do crescimento mundial”, juntamente com os países da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), que inclui Timor-Leste. Ainda que haja “incertezas globais”, escreveu a Lusa. Este mesmo documento descreve que a Ásia no Produto Interno Bruto (PIB) global deve avançar de 49,2 por cento em 2025 para 49,7 por cento este ano, considerando a paridade de poder de compra. Entretanto, e segundo noticiou o China Daily, Justin Yifu Lin, um antigo economista-chefe do Banco Mundial, considerou, ao discursar numa das conferências do Fórum, que “apesar das dificuldades causadas pelas ondas de desglobalização e pelas tensões geopolíticas, a China está bem posicionada para atingir a sua meta de crescimento do PIB para 2026, entre 4,5 e 5 por cento, o que contribuiria com cerca de 30 por cento para o crescimento global”. Justin Yifu Lin acrescentou que “o crescimento pode até ultrapassar os 5 por cento (este ano), com uma melhor execução das políticas, desde que não ocorram grandes choques imprevistos no ambiente internacional”. Já Zheng Yongnian, director da Escola de Políticas Públicas da Universidade Chinesa de Hong Kong, em Shenzhen, falou da “previsibilidade das políticas” da China espelhada no 15.º Plano Quinquenal, sendo que o país tem, no seu entender, um “papel estabilizador na economia global”. O 15.º Plano Quinquenal diz que a China pretende alcançar o estatuto de “país de desenvolvimento intermédio” até 2035, sendo que, para Zheng, “o país está no caminho para manter um crescimento anual de cerca de 4,5 a 5 por cento até 2035, oferecendo um motor previsível para o crescimento global na próxima década”, lê-se no diário. Planos de Shenzhen O Fórum Boao tem apresentado também algumas metas que o país quer desenvolver, a nível interno e do continente, na área das novas tecnologias e inteligência artificial (IA), isto numa altura em que Shenzhen acaba de divulgar um plano a três anos para construir um “hub” nas áreas dos semicondutores e IA. Segundo o South China Morning Post, “a cidade pretende alcançar um aumento” e dar “um salto” na “capacidade de produção e no volume de envios de toda a cadeia de fornecimento de servidores de IA até 2028”. O plano foi publicado esta segunda-feira pelo departamento municipal da indústria e tecnologia da informação de Shenzhen. Outro relatório divulgado esta terça-feira no evento de Hainão, aponta que o “epicentro global do desenvolvimento da IA está a deslocar-se progressivamente da Europa e dos Estados Unidos para a Ásia”, lê-se na Xinhua. “Aproveitando as suas vastas populações digitais, ecossistemas de aplicação diversificados e estruturas políticas coerentes, as economias asiáticas estão a evoluir rapidamente de seguidoras em IA para líderes”, descreve o documento “Perspectivas Económicas da Ásia e Progresso da Integração – Relatório Anual 2026”. Aqui, lê-se também que a China “alcançou maturidade industrial em toda a cadeia e demonstrou fortes capacidades na implementação em larga escala, enquanto o Japão e a República da Coreia concentram os seus esforços na manufactura avançada e na automação industrial”. No caso da Cidade-Estado de Singapura, “serve como modelo de desenvolvimento orientado para aplicações, desempenha um papel fundamental na inovação em governança e funciona como um centro de plataforma”. Verifica-se, portanto, uma “ascensão inteligente” do continente asiático de forma “multifacetada”, existindo “apoio institucional essencial ao nível nacional, um poderoso ciclo de retroalimentação entre ‘escala de aplicação, geração de dados e aperfeiçoamento interactivo’ que acelerou a industrialização, bem como uma profunda integração com as indústrias centrais”, segundo o relatório”. Desta forma, a Ásia encontra-se “numa posição única para liderar a criação de uma rede regional de inovação em IA”, considerada pelo relatório como “multinodal, interligada e colaborativa”. “Tal rede ampliaria significativamente a influência colectiva da região na cadeia de valor global da IA, no ecossistema de inovação e no debate internacional sobre governança”, conclui o documento. O que é digital é bom Outro relatório divulgado no contexto do Fórum Boao, chama a atenção para a presença do digital na economia asiática. “Ásia e o Mundo – Relatório Anual 2026 — Desenvolvimento Sustentável na Ásia em Meio à Transformação Global” descreve, segundo a Xinhua, como as tecnologias digitais têm uma presença crescente na economia, atingindo, até ao ano passado, “uma dimensão de 27 mil milhões de dólares, representando 46 por cento” do PIB. “A Ásia tem assumido a liderança na exploração de modelos de desenvolvimento orientados para o futuro através das tecnologias digitais, procurando transformar as suas diversas estruturas económicas em competitividade global e resiliência regional”, lê-se. Neste caso, a IA volta a marcar presença, por se ter tornado “um impulsionador vital do progresso social e económico” no continente. O documento dá conta que “a adopção generalizada e a implementação transversal de aplicações de IA na região Ásia-Pacífico estão a remodelar as estruturas de produtividade”, além de “aumentar a produtividade das pequenas e médias empresas”. Esta área está também a contribuir para o “impulsionar a criação de emprego e reforço da resiliência social no sector dos serviços públicos, entre outros efeitos”. Uma questão de energia Numa altura em que o mundo se depara novamente com uma crise energética potenciada pelo conflito no Médio Oriente, com o disparar dos preços dos combustíveis, o Fórum Boao também tem olhado para estas questões. O mesmo relatório acima referido destaca como a Ásia “está a emergir como uma força central na transição global para uma energia mais verde e de baixo carbono, passando de ‘maior centro de consumo de energia tradicional’ para ‘um líder no desenvolvimento de energia limpa'”. A conclusão, citada pela Xinhua, dá conta de como a “digitalização e transições verdes estão a lançar as bases para um novo ‘Milagre Asiático'”. “Em toda a região, China, Índia, Japão, República da Coreia, ASEAN e os países do Golfo estão a desenvolver energias renováveis, como a solar e eólica, de acordo com as condições locais, ao mesmo tempo que avançam em tecnologias como o hidrogénio, a modernização das redes eléctricas e a captura, utilização e armazenamento de carbono, com a economia verde a demonstrar um forte dinamismo de crescimento”, é descrito. O documento dá conta que a “a capacidade instalada de geração de energia na Ásia ultrapassou os 5,3 terawatts, sendo que as energias renováveis representam 2,67 terawatts, ou cerca de metade do total”. Desta forma, “a região representa actualmente 58 por cento da capacidade global instalada de energia renovável”. Li Baosen, vice-secretário-geral da Organização para o Desenvolvimento e Cooperação da Interligação Global de Energia (GEIDCO), descreveu que “a transição verde da Ásia, particularmente a transição energética, está a aprofundar-se e a posicionar a região como uma força global de liderança”, em declarações citadas pela Xinhua. O responsável disse ainda que a China se tem destacado como um “motor-chave”, já que, no ano passado, “a capacidade total instalada de energia limpa da China atingiu 2,4 mil milhões de quilowatts, representando cerca de 45 por cento do total global.” “Notavelmente, a capacidade combinada de energia eólica e solar da China ultrapassou, pela primeira vez, a da energia térmica, um avanço que evidencia a crescente contribuição do país para a transformação energética tanto na Ásia como no mundo”, acrescentou. O documento apresenta, contudo, as limitações que a Ásia ainda tem neste domínio, nomeadamente “a dependência enraizada de combustíveis fósseis, infraestruturas de redes eléctricas subdesenvolvidas e lacunas no financiamento verde”. O Fórum Boao foi criado em 2001 e dedica-se a “promover a integração económica regional e a aproximar os países asiáticos dos seus objectivos de desenvolvimento”. O tema da edição deste ano é “Construindo um Futuro Partilhado: Novas Dinâmicas, Novas Oportunidades, Nova Cooperação”, sendo que o evento conta com a presença dos chefes executivos das duas regiões administrativas especiais chinesas: Sam Hou Fai de Macau e John Lee, de Hong Kong. Com agências