Um Grito no Deserto VozesUm passeio por Macau Paul Chan Wai Chi - 12 Dez 2025 Todos os anos, a seguir à apresentação das Linhas de Acção Governativa, o Governo da RAE realiza debates na Assembleia Legislativa sobre as várias áreas de governação, onde os responsáveis respondem às perguntas dos deputados. Mas para compreender verdadeiramente a actual situação de Macau, a experiência e o conhecimento em primeira mão são, sem dúvida, essenciais. Diz-se que vai encerrar uma antiga loja de electrodomésticos situada na Rua das Estalagens porque o dono se vai reformar. Todas as sucursais desta loja fecharam ao mesmo tempo. Estão a oferecer descontos de 50 por cento, o que atrai imensos clientes. Perante uma forte concorrência de sites e aplicações de vendas online, até os supermercados estão a começar a aderir a este sistema. A redução de pessoal é uma forma de manter o negócio, mas que competências tem um trabalhador de supermercado desempregado que lhe permitam conseguir um emprego noutras áreas do sector comercial? Comprar alimentos presencialmente é sem dúvida a melhor opção, mas o ambiente do mercado municipal de Taipa no domingo é muito diferente do da Rua do Cunha, que está apinhada de gente. Alguns donos de bancas do mercado municipal até optaram por fechar temporariamente. Os turistas não vão certamente comprar produtos no mercado para depois irem cozinhar. E os habitantes de Macau, foram para onde? Um residente de Taipa disse-me que desde que as autoridades de Macau concederam acesso de veículos motorizados de Macau à Ilha de Hengqin, as pessoas deixaram de ir ao mercado local e passaram a fazer compras em Hengqin, depois reabastecem os carros e jantam por lá, simplesmente porque é tudo mais barato. Perante a forte competitividade da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau, ir às compras e jantar em Zhuhai ou Hengqin tornou-se uma tendência irreversível. Para além da redução de impostos ou da diminuição das taxas no arrendamento das propriedades, que medidas efectivas tomou o Governo da RAE para reduzir outros custos operacionais, quebrar monopólios e abrir o mercado? A atmosfera movimentada das zonas turísticas de Macau durante o dia faz com que as noites tranquilas na Zona A dos Novos Aterros Urbanos pareçam algo solitárias. Os projectos de habitação pública estão a ser concluídos uns após os outros, mas as várias infra-estruturas em redor do complexo habitacional ainda estão em construção. Para sobreviver, a humanidade necessita de um tecto, mas também de qualidade de vida. As recentes medidas de melhoria tomadas pela Direcção dos Serviços de Solos e Construção Urbana podem ser consideradas uma resposta às necessidades dos residentes, mas “colmatar” as lacunas e melhorar as condições do tráfego em Macau é da responsabilidade das autoridades competentes. Com o encerramento dos casinos-satélite, a situação dos negócios circundantes e a reinserção dos funcionários afectados voltou a ser um tópico de debate na Assembleia Legislativa. Devido à mudança do tipo de turistas nos últimos anos, hoje em dia temos maioritariamente os que tiram selfies e fotografias das atracções turísticas. O aumento do número de turistas não é proporcional ao aumento das receitas fiscais. A pergunta é a seguinte, para além dos pontos de referência, da comida e dos casinos, que mais há em Macau que possa levar os turistas a gastar o seu dinheiro? A relva do Taipa Jockey Club cresceu, o desenvolvimento do parque temático “Parque Oceanis” ainda está na fase de planeamento, e os projectos de construção no terreno do canídromo da Companhia de Corridas de Galgos de Macau (Yat Yuen) deverão começar em breve. Mas com muitos terrenos sem utilização, como é que Macau vai poder gerir o seu desenvolvimento global, e para além disso, integrar-se de forma activa no quadro do desenvolvimento nacional? Depois dos debates sobre as várias áreas de governação na Assembleia Legislativa estarem concluídos, seria uma boa altura para os principais responsáveis governamentais darem um passeio pelas várias zonas de Macau sem combinações prévias e sem séquito.