A crise interna americana

Every empire is a graveyard of its own illusions.”
James Baldwin, No Name in the Street (1972)

A guerra que hoje se espalha pelo mundo não nasce de desertos longínquos nem de rivalidades ancestrais. Nasce, sim, da crise interna dos Estados Unidos, esse colosso que, ao tropeçar nos próprios pés, espalha a sua turbulência para fora como quem despeja lixo pela janela e espera que o vento o leve para longe. A velha república, corroída por dentro, parece saída de uma parábola de Mark Twain que escreveu que “a história não se repete, mas rima”. Pois bem, a rima actual é amarga, dissonante e profundamente reveladora.

A América vive uma espécie de dissociação imperial, uma esquizofrenia política e social que transforma frustração doméstica em agressividade externa. Não é novidade que impérios em declínio se tornam nervosos; o que surpreende é a velocidade com que este se fragmenta. Como escreveu Christopher Lasch em “The Culture of Narcissism” (1979), “uma sociedade que perde o sentido de comunidade perde também o sentido de futuro”. E é exactamente isso que acontece de uma nação que não acredita no seu próprio amanhã.

Sete em cada dez cidadãos não acreditam no chamado “sonho americano”. Não é uma estatística poética; é um dado real, repetido em estudos como o da “Pew Research Center” (2023). A chamada “revolução trumpiana”, longe de ser causa, é sintoma de uma reacção desesperada à crise de identidade nacional. A promessa de “restaurar a saúde espiritual e cultural” do país soa, para muitos, a um anúncio de vitaminas vencidas.

O multiculturalismo, outrora bandeira de inclusão, tornou-se bode expiatório. Fala-se em reconstruir um “núcleo cultural central”, limitar a imigração e recuperar a velha assimilação. Mas o problema é mais profundo pois a sociedade americana não assimila nem os seus próprios filhos, quanto mais os recém-chegados. O teólogo R. R. Reno, em “Return of the Strong Gods” (2019), descreve esta tendência como “imperativo de reconsolidar” uma tentativa de colar os cacos depois de décadas de libertação social e económica que, embora legítimas, acabaram por dissolver solidariedades.

Reno propõe o “nacionalismo cristão” como antídoto. Não uma teocracia, diz ele, mas uma espécie de travão moral para evitar que o nacionalismo se transforme em fúria. A ideia é interessante, mas contém o seu veneno de como unir uma sociedade que se habituou ao “cada um por si” durante meio século?

A perda de dignidade causada pela desindustrialização é conhecida. O que ainda não entrou totalmente no radar é a epidemia de solidão, termo usado pelo Surgeon General dos Estados Unidos em 2023. As pessoas não se encontram na igreja, no sindicato e nas reuniões municipais. A amizade tornou-se artigo de luxo, como se fosse um relógio suíço.

Menos de metade das famílias são compostas por casais casados; 42% dos adultos são solteiros. A depressão e o stress atingem níveis recorde, alimentados por uma economia onde até a classe média-alta teme não conseguir pagar contas. O dinheiro tornou-se o único valor em ascensão, enquanto família, comunidade e patriotismo se afundam como pedras num lago.

A geração Z é o espelho mais cruel desta crise. São jovens que saem menos, vivem mais irritados, deprimidos e isolados. Passam horas entre ecrãs, mas atribuem pouco valor ao que fazem. Muitos nunca abordaram alguém presencialmente para iniciar uma relação. As taxas de actividade sexual entre menores de 34 anos caíram drasticamente, segundo o General Social Survey (2022).

Endividados até ao tutano por diplomas que valem menos do que promessas eleitorais, estes jovens sabem que dificilmente comprarão casa. Vivem numa guerra de sexos onde as mulheres são acusadas de ser demasiado liberais e os homens demasiado conservadores. E culpam as gerações anteriores por lhes terem deixado um país onde o futuro é uma palavra gasta.

A política externa é outro campo de batalha. Israel, outrora aliado incontestável, tornou-se tema fracturante. A esquerda acusa-o de colonialismo; a direita questiona se votou em “America First” ou “Israel First”. Não se trata de antissemitismo mas de fadiga moral e estratégica.

Peter Slezkine, analista respeitado, afirmou que “para muitos jovens, qualquer discurso sobre tiranos a abater soa simplesmente vazio”. E quando figuras como Lindsey Graham defendem mudanças de regime, são vistos como relíquias de uma era que não convence ninguém.

O inimigo não é externo. É o vizinho que vota no outro partido. Nathan Pinkoski descreve isto como “guerra civil fria”, marcada pela ideia de que não é possível viver com quem pensa diferente. A confiança social evapora-se. E sem confiança, não há democracia funcional.

As tecnologias digitais aceleram tudo. Isolam, viciam e fragmentam. A economia da atenção transforma cidadãos em consumidores de estímulos. A leitura ponderada desaparece; cada um segue os seus gurus no Substack. A tribalização cresce. A inteligência artificial ironicamente, ameaça empregos e dignidade, introduzida à pressa para não perder terreno para a China.

Mary Harrington, em “Feminism Against Progress” (2023), alerta para o risco de um “regime algorítmico a enxame”. Para evitar isso, diz ela, seria preciso um líder carismático com ligação ao povo como “o retorno do rei”. Não sei se é de concordar, mas compreende-se o diagnóstico de quando a complexidade interna é insuportável, alguém tenta simplificar à força.

Um país só é actor geopolítico se conseguir reduzir a sua complexidade interna. Democracias precisam de coesão. Sem ela, há duas vias a do Estado de segurança e de vigilância, que cresce desde o 11 de Setembro e ignorar a coesão, permitindo que poderes públicos e privados actuem por conta própria. Os Estados Unidos parecem seguir ambas. E é essa contradição que alimenta guerras externas pois quando não se consegue resolver o caos interno, exporta-se.

A guerra contemporânea é, antes de tudo, um sintoma da crise interna americana. Não é ideologia, destino e moralidade. É desespero. Uma nação que não acredita em si mesma tenta reafirmar-se através do mundo, como quem grita para não ouvir o próprio silêncio. E enquanto não se escavar no corpo ferido de Columbia, continuaremos a interpretar o presente com mapas antigos, sem perceber que o epicentro do tremor está dentro da própria América.

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