Meu querido robot: oportunidades e preocupações

No âmbito do novo desenvolvimento tecnológico, uma empresa da área sediada em Shenzhen, China, fundada por uma equipa de Hong Kong lançou recentemente robots de companhia, que também são parceiros sexuais, e que combinam o Grande Modelo de Linguagem com IA incorporada. O robot com forma feminina, feito de silicone, mede 1,75 metros e pesa 20 quilos. É revestido por pele biónica que reproduz a temperatura do corpo e desenhado para proporcionar contacto íntimo.

Os utilizadores podem escolher o rosto, o penteado, a cor da pele e as proporções do corpo a seu gosto. O robot incorpora reconhecimento de voz e um sistema que permite variadíssimas expressões, com base na conversação, e consegue ainda assumir 165 posições corporais. Uma memória a longo prazo permite que vá gradualmente conhecendo a personalidade do utilizador e as suas preferências e hábitos, proporcionando uma diversidade de desempenhos e companhia emocional.

Pode operar três horas consecutivas após ter estado a carregar durante uma hora e espera-se que esteja disponível para pré-encomenda no Verão de 2027. O preço de mercado de produtos similares é superior a 10.000 USD, mas estes fabricantes pretendem conquistar clientes estabelecendo um preço entre os 4.000 e os 5.000 USD. Também planeiam lançar mais tarde o modelo masculino.

Os robots satisfazem os desejos e as emoções mais íntimas dos seres humanos, marcando uma nova fase onde os algoritmos e a tecnologia incorporada dominam, provocando impactos complexos, positivos e negativos, nos indivíduos e na sociedade como um todo.

Aspectos positivos: Em primeiro lugar, através da flexibilidade corporal e da diversidade de desempenhos, os robots podem ir ao encontro das preferências do utilizador, proporcionando a companhia desejada que é difícil de encontrar no mundo real devido às normas sociais e às limitações pessoais. Em segundo lugar, para pessoas mais velhas que vivem sozinhas, ou para quem sofre de grave ansiedade social, ou tem alguma deficiência ou ainda para os solteiros que lutam para conseguir relações íntimas, os robots podem servir como uma válvula de escape emocional, ajudando a combater uma solidão prolongada ou a reduzir o risco de conflitos sociais derivados de privação emocional e repressão sexual.

Em terceiro lugar, para as pessoas transgénero e para quem está à procura da identidade de género, os robots proporcionam um espaço de baixo risco para experimentação. Em contextos clínicos da área da psicologia, robots especialmente concebidos para o efeito podem servir como ferramentas para trabalhar a intimidade e a dessensibilização em vítimas de traumas sexuais e em pacientes com transtorno de stress pós-traumático. Em quarto lugar, quando usados correctamente, os robots podem ajudar a prevenir doenças sexualmente transmissíveis e gravidezes indesejadas. Alguns académicos sugerem que a utilização alargada destes produtos poderia teoricamente reduzir o tráfico humano, o número de trabalhadores sexuais involuntários e certos crimes sexuais.

No entanto, os robots também podem ter alguns efeitos negativos: Em primeiro lugar, o contacto unilateral prolongado com uma entidade antropomórfica digital pode facilmente levar à dependência de uma companhia virtual. Esta experiência íntima, que não requer ajustes e não dá origem a conflitos, pode enfraquecer a empatia, a disponibilidade para o compromisso e a tolerância às interacções sociais do mundo real, exacerbando a desintegração social e aumentando a dificuldade de estabelecer relações íntimas genuínas. Em segundo lugar, perante uma companhia alternativa que nunca envelhece, que responde sempre e que não requer responsabilidade, os mecanismos da tolerância e a capacidade de resolver conflitos, necessárias nas relações do mundo real, podem ir gradualmente enfraquecendo.

A longo prazo, este cenário pode provocar mudanças nas atitudes do casal e potencialmente diminuir a já baixa taxa de natalidade. Em terceiro lugar, muitos dos actuais modelos robóticos são principalmente concebidos para satisfazer necessidades estéticas e de desejo de géneros específicos, aumentando potencialmente a objectificação do corpo feminino e reforçando as desigualdades já existentes.

Em quarto lugar, os robots retêm enormes quantidades de registos de conversas privadas, das preferências comportamentais e ainda de dados biométricos. Se ocorrer qualquer vulnerabilidade na segurança de dados, os utilizadores enfrentam riscos de violação de privacidade e de chantagem. Falhas de hardware, temperaturas anormais das baterias e o sistema de controlo remoto também podem provocar acidentes.

Os produtos tecnológicos nunca são meras ferramentas; o seu desenvolvimento tem inevitavelmente impacto nos padrões inter-pessoais, nos valores e nas estruturas industriais. A controvérsia em torno dos robots estende-se para lá do nível pessoal, afectando estruturas sociais, normas jurídicas, a ordem social e a moral pública.

No próximo artigo continuaremos a explorar o profundo impacto da mercantilização das relações íntimas e falaremos sobre a necessidade de a sociedade estabelecer um quadro regulatório correspondente.

Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau
Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau
cbchan@mpu.edu.mo

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