Descontrolados

A palavra que mais se ouviu na semana passada foi “descontrolados”. Incêndios descontrolados por vários locais do país. O inferno das chamas e o sofrimento das populações é uma realidade anual assim que chega a época do calor. Bombeiros são aos milhares e não chegam para as encomendas. E Portugal tem bombeiros voluntários, o que não acontece em Espanha e França.

Imaginem se não tivéssemos esses soldados da paz que arriscam a vida somente por solidariedade. Existem as mais diversas instituições ligadas a catástrofes, mas as relacionadas com as nossas florestas andam o Outono, Inverno e Primavera a ver futebol. O que fazem para abrir caminhos na floresta? O que fazem para organizar a limpeza de terrenos? O que fazem para organizar o apoio logístico na época de incêndios? O que entende a Protecção Civil por meios adequados a facilitar o trabalho dos bombeiros e da GNR, nomeadamente no âmbito das telecomunicações?

O que se vê são hectares a serem dizimados por fogos completamente descontrolados. Muitos meios aéreos a não poderem actuar por falta de visibilidade. Casas a arder e pessoas desesperadas com uma mangueira ou um balde na mão como se isso fosse apagar chamas que chegam a atingir 10 metros de altura. Animais a morrer queimados. Plantações agrícolas que já foram. Bombeiros deitados no chão com uma sandes e uma garrafa de água oferecido por um morador. Estradas e autoestradas cortadas.

Um amigo nosso, com 83 anos, médico que cumpriu serviço militar numa das ex-colónias, vivia na sua bela quinta em Mirandela, uma pérola com mais de 300 anos que lhe ficou dos antepassados. A quinta tinha uma moradia maravilhosa, uma adega onde se produzia um vinho de excelência, um anexo onde se fabricava artesanalmente alheiras e outros enchidos, uma vinha excepcional, todas as árvores de fruto, oliveiras e um galinheiro com vários animais. O fogo chegou à quinta e os bombeiros não puderam passar. As chamas devoraram tudo. Ficou sem nada. Ligou-nos de casa de um irmão a contar o sucedido e a dizer que tinha morrido…

Os incêndios têm de ter um combate importante: a prisão por muitos anos de todos os pirómanos que são apanhados pelas autoridades e apresentados à justiça. O crime de fogo posto é hediondo e não merece qualquer perdão. As populações e as autoridades sabem que um incêndio que tem início às três horas da madrugada, com alguma humidade no ar, é um acto de mão criminosa.

A saga dos incêndios deixa milhares de portugueses em pânico, em dificuldades de alojamento e os mais idosos que são evacuados dos lares perdem alguns anos de vida que lhes restavam. A grande maioria dos incêndios registados em Portugal teve mão criminosa. É um facto real. O Governo tem de facilitar mais meios e melhor salário aos guardas florestais. Eles têm de trabalhar de noite e esse trabalho deve ser bem pago. Sem uma vigilância constante e profícua nunca mais terminará o flagelo dos fogos.

A lista de localidades atingidas pelos incêndios é quase inacreditável, mas o sofrimento das gentes esteve patente em Concelhos como Gouveia, Paredes, Torre de Moncorvo, Póvoa de Varzim, Vila Nova de Gaia, Porto de Mós, Chaves, Celorico da Beira, Penafiel, Pombal, Valpaços, Marinha Grande, Vouzela, Viseu, Pedrógão Grande, Ansião, Aveiro, Leiria, Guarda, Almeirim, Mirandela, Bragança, Vila Verde e tantos, tantos outros. É impressionante.

Que o Governo não cruze os braços e que o ministro da tutela deixe lá os atrelados e as piscinas e procure uma coordenação futura de modo a que o país não fique sem florestas e que não hajam mais portugueses a ficar apenas com as calças e as camisas…

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