Não vou de férias

O primeiro-ministro Luís Montenegro anunciou ao país que não iria de férias de Verão. Dando a entender que desejava dedicar-se aos problemas da governação de “corpo e alma”. Saiu-lhe o tiro pela culatra. O povinho como não é estúpido, e muito menos arrogante, percebeu logo a atitude do chefe do Executivo. Uma autêntica tentativa de limpar a sua imagem de governante máximo que, por três vezes, foi para as bancadas do Mundial de futebol no EUA, quando o país estava em estado de alerta a arder em vários locais e milhares de portugueses em pânico.

Ou quando foi divertir-se para o concerto musical NOS Alive estando milhares de alunos em apuros com a vergonhosa digitalização das provas de exames. Uma decisão de político chico-esperto. Em primeiro lugar, todo o funcionário tem direito a férias e Montenegro não é excepção. Segundo, os seus ministros estão a banhos nas praias do Algarve ou nas piscinas dos seus montes alentejanos.

Se Montenegro não goza férias no Verão a que tem direito poderá deduzir-se que em meio ano já gozou e descansou bastante com as viagens a Bruxelas, Itália, Grécia e aos EUA. O mais intrigante é que uma fonte do seu Gabinete afirmou que o patrão não iria gozar férias para “coordenar a actividade do Governo”. Só para rir. Se os ministros estão a banhos como é que Montenegro coordena o Governo? Ah, já fazemos uma ideia…

O primeiro-ministro tem imenso trabalho pela frente. Tem que pensar o que fará ao seu ministro da Educação que se lembrou de executar de um ano para o outro a digitalização das provas de exames, um facto que em Inglaterra demorou 15 anos e em França 10. Montenegro terá de reflectir como foi possível que alunos soubessem os resultados das suas provas à meia-noite e para muitos o resultado era absurdo: as pautas mostravam -3; Zero e suspenso. Reflectir como é que centenas de famílias tiveram de alterar todas as férias já marcadas e pagas, porque os alunos não sabiam os resultados, não sabiam se tinham de ir à segunda fase e quando é que se podiam inscrever no ensino universitário. Com a agravante de se terem visto agentes da PSP em funções de estivadores a carregar caixotes de papelão, quando as patrulhas escasseiam nas ruas.

Montenegro terá muito trabalho na secretária sobre o que se passa com a sua ministra da Saúde, que é a governante mais incompetente que deve ter aparecido desde o 25 de Abril de 1974. O chefe do Executivo tem de meditar sobre os portugueses que têm morrido por falta de socorro do INEM, por este instituto ter veículos de urgência médica avariados; pela quantidade de partos que têm acontecido em ambulâncias porque as mães têm as maternidades da zona onde residem encerradas; pelas imensas horas de espera em qualquer urgência hospitalar; pelas consultas que levam meses para serem atendidas e as cirurgias só ao fim de mais de um ano.

Montenegro tem de debruçar-se sobre o seu ministro das Infraestruturas. Pinto Luz fala, fala, diz que faz, inaugura o que estava planeado há anos, diz que volta a fazer, mas o aeroporto de Alcochete talvez lá para 2045, o TGV entre Lisboa e Badajoz deve ter sido um sonho do governante, o mesmo que anuncia uma terceira ponte e um túnel entre Lisboa e a Margem Sul.

Milhares de milhões de euros em causa, mas as reformas miseráveis de 300 euros continuam a granel. O mesmo ministro que agora está na baila porque, ao exercer o seu cargo anterior como vice-presidente da Câmara Municipal de Cascais, aprovou a venda de um terreno valiosíssimo na marginal por uma ninharia escandalosa, onde agora subiu a construção de um hotel Hilton e de mais dezenas de apartamentos…

Montenegro irá certamente à sexta-feira para Espinho e irá banhar-se nas águas do mar do norte, e à noite, irá visitar os seus amigos do casino Solverde. Regressa na segunda-feira a Lisboa para pensar como é que o seu amigo ministro da Administração Interna está metido num buraco sem fundo, enquanto foi director nacional da Polícia Judiciária.

O homem alegadamente concedeu mais de 10 ajustes directos de obras na PJ a um amigo empreiteiro e o mais grave é que deixou o empreiteiro levar um camião que a PJ tinha apreendido a uma rede mafiosa de tráfico de droga com material perigosamente inflamável. Luís Neves, de sua graça, ainda está nas bocas do povinho por na função de ministro ter dito ao seu amigo empreiteiro que lhe construísse uma piscina no monte alentejano e que realizasse mais umas obras em casas que a família detém. Tudo isto, sem nunca declarar o seu património.

Montenegro não pode deixar de meditar na derrota que a sua ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social obteve com o infame pacote laboral, do qual nem vale a pena falar, porque os desmandos dessa governante são tantos, que já se fala em pretender retirar aos reformados o subsídio de Natal.

Enfim, uma baralhada de casos graves que obviamente têm de levar Montenegro a anunciar que não vai para o Algarve de férias. E ainda poderá existir outra razão para Montenegro “suar” durante o mês de Agosto. Sabe-se lá, se não irá rebentar mais alguma “bomba” com um qualquer ministro e Montenegro tem de estar no seu posto para responder logo aos “malandros” dos jornalistas. Ou serão, das duas, uma? Ou Montenegro não vai de férias em Agosto porque sabe que no interior do PSD há quem lhe queira espetar a faca nas costas e que tem de ficar por Lisboa a controlar as conspirações ou o primeiro-ministro pensará numa já demorada remodelação ministerial?

Sabe que mais, senhor primeiro-ministro? O senhor não goza férias de Verão por uma qualquer conveniência política, mas milhares de portugueses não podem ter férias de Verão porque nem dinheiro têm para o bilhete do autocarro…

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