Dora Lyu, CEO da MedPHA, empresa sediada em Hengqin: “Passámos de startup a referência”

A MedPHA Bioscience, sediada no Parque Industrial de Medicina Tradicional Chinesa de Guangdong-Macau em Hengqin desde 2019, tem vindo a afirmar-se no mercado dos materiais biodegradáveis e suplementos alimentares de saúde cerebral. O HM conversou com Dora Lyu, CEO da empresa, que denuncia a “escassez” de talentos nesta área

Abriram portas em Hengqin em 2019. Que balanço faz da presença na região?

Em 2019 começámos do zero, dedicando-nos à investigação e desenvolvimento, fabrico e comercialização de novos materiais derivados da biologia sintéctica e de um suplemento alimentar para a saúde do cérebro: a molécula de beta-hidroxibutirato (D3HB). Após mais de sete anos de consolidação no mercado, a empresa passou de startup a interveniente de referência no seu sector, tanto a nível nacional como internacional, detendo a propriedade intelectual de novos materiais biofabricados, desenvolvida de forma independente. O 15º Plano Quinquenal inclui os biomateriais entre as quatro principais indústrias emergentes estratégicas e a biofabricação entre as seis indústrias do futuro. O foco do nosso negócio alinha-se precisamente com estes novos motores de crescimento económico.

Que projectos concretos desenvolvidos nestes anos pode destacar?

É particularmente digno de nota que a empresa tenha sido pioneira num primeiro suplemento alimentar do mundo para a saúde cerebral, a pequena molécula de beta-hidroxibutirato, produzida e comercializada através da fermentação da glicose por meio da biofabricação. Trata-se de um exemplo clássico de [um produto] “desenvolvido em Hengqin, comercializado em Macau”. Actualmente, é produzido em escala e comercializado na base do Grupo Nam Yue em Macau, com receitas previstas de dezenas de milhões de patacas de Macau em 2026 e mais de 100 milhões em 2027.

Têm apostado sobretudo em produtos ligados à área farmacêutica ou os que substituem artigos de plástico, como palhinhas ou copos de café.

Nos últimos sete anos focámo-nos em três áreas-chave: biomateriais PHA de base biológica e totalmente biodegradáveis no sector ecológico e ambiental; materiais PHA biorreabsorvíveis de grau médico, líderes a nível mundial, no sector médico e de cuidados de saúde; e ainda o suplemento alimentar para a saúde cerebral, a pequena molécula de beta-hidroxibutirato, D3HB, no sector da nutrição e saúde. Na prática, os nossos materiais PHA biodegradáveis desenvolvidos em Hengqin, através de fabricantes na Grande Baía, estão a ser utilizados em produtos como palhinhas, tampas de copos e cápsulas de café para marcas como a Starbucks, o McDonald’s, a Nespresso e a Saturnbird. A pequena molécula de beta-hidroxibutirato, ao que sabemos, é o primeiro produto do mundo obtido através da fermentação da glucose e da biofabricação, detendo patentes nacionais e internacionais em toda a cadeia industrial, desde as estirpes e a biofabricação até ao desenvolvimento de aplicações, oferecendo uma vantagem significativa em relação aos produtos sintetizados quimicamente, tanto em termos de pureza como de custo, com um enorme potencial de mercado. Os nossos materiais PHA de grau médico já estão a apoiar várias empresas líderes no desenvolvimento de aplicações tanto para produtos médicos de consumo como para dispositivos médicos.

Como podem colocar estes produtos ou materiais biodegradáveis num grande mercado como o chinês, com milhões de consumidores? Ainda existem entraves à adesão a este tipo de produtos?

O principal obstáculo é a diferença de preço significativa entre o PHA e os plásticos de base petroquímica, enquanto a implementação e o lançamento completos das políticas ambientais ainda levarão tempo. Estamos a trabalhar para reduzir os custos, garantindo financiamento industrial e capital de risco e investindo continuamente na inovação tecnológica e no aumento da produção, ao mesmo tempo que sensibilizamos a sociedade e o mercado.

Que vantagens competitivas oferece Hengqin a empresas no geral, e em particular na vossa área de produção e investigação?

O papel da Zona de Cooperação Aprofundada de Hengqin na diversificação das indústrias de Macau está a tornar-se cada vez mais proeminente, particularmente nas áreas da biofarmácia, dos dispositivos médicos e dos novos aditivos alimentares. Tomemos, por exemplo, o Parque Industrial de Medicina Tradicional Chinesa de Guangdong-Macau, onde estamos sediados. A indústria biofarmacêutica está aqui concentrada, com equipamento de teste avançado e plataformas de ampliação fornecidas pelo laboratório provincial de Medicina Tradicional Chinesa e pelas empresas farmacêuticas de Guangdong-Macau, bem como recursos de aplicação provenientes de clientes a jusante. Políticas altamente competitivas de atracção de talentos têm atraído um grande número de doutorados e investigadores de pós-doutoramento para Hengqin para se juntarem a nós, acelerando o desenvolvimento de tecnologias de ponta. Os principais projectos de investigação científica e tecnológica cuidadosamente definidos pelo Departamento de Desenvolvimento Económico também estão a produzir resultados positivos. Entretanto, o sistema universitário bem desenvolvido e robusto de Macau fornece a Hengqin talentos de engenharia de alto calibre. Em termos gerais, Hengqin fez grandes progressos nos últimos anos no âmbito da atracção de talentos, do investimento em financiamento para investigação científica e da construção de plataformas.

De que forma a localização em Hengqin tem contribuído, ou pode contribuir, para o crescimento e desenvolvimento da vossa empresa?

Essencialmente em três áreas: reforça a sinergia entre as redes comerciais de Macau e Guangdong; integra a empresa no polo de alta tecnologia da Grande Baía; e o excelente ambiente ecológico de Hengqin, combinado com a sua vantagem geográfica de estar adjacente a cidades centrais regionais como Guangzhou e Shenzhen, e oferece uma enorme conveniência para a investigação e desenvolvimento e os intercâmbios comerciais.

Que oportunidades específicas encontram na Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau que dificilmente existiriam noutras zonas da China?

Há o papel da Grande Baía como base de fabrico avançado e mercado orientado para a exportação, com uma via rápida para os mercados internacionais através de Hong Kong e Macau. Em segundo lugar, há a vantagem política oferecida pelo Governo de Macau na aprovação de novos alimentos. Em terceiro lugar, e mais importante, há a ligação natural de Macau com os países de língua portuguesa. Podemos aceder ao mercado europeu através de Portugal, à América do Sul através do Brasil e a África através de Moçambique, expandindo assim rapidamente a nossa rede comercial global.

Considera difícil atrair talentos na área? Deveria mudar a política de recursos humanos para atrair mais quadros qualificados na área das ciências para Hengqin?

O talento neste domínio é, de facto, escasso, provindo actualmente principalmente de um pequeno número de instituições, tais como a Universidade de Tsinghua, a Academia Chinesa de Ciências e a Universidade de Tecnologia do Sul da China. No entanto, os programas relevantes da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Macau e da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau estão perfeitamente alinhados com as necessidades da empresa, e estamos a reforçar os nossos laços com estas instituições. Ao mesmo tempo, instituições como a Universidade de Ciência e Tecnologia do Sul, a Universidade Sun Yat-sen, o Instituto CAS em Shenzhen e a Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong estão também a expandir o seu trabalho no campo da biologia sintética, lançando bases para o talento na indústria.

A cidade universitária em Hengqin está a ser construída. Acha que pode ser uma mais valia para a vossa empresa?

Sem dúvida. O campus universitário atrairá mais jovens profissionais e estagiários de gestão, ajudando a empresa a crescer e a aumentar a sua visibilidade e, mais importante ainda, promovendo uma colaboração mais estreita entre a indústria, o meio académico e a investigação, o que impulsiona o desenvolvimento tecnológico.

Qual a vossa estratégia para chegar ao mercado, seja chinês, seja lusófono ou de língua espanhola? A proximidade de Macau e também Hong Kong é um factor diferenciador e privilegiado?

Estar perto de Hong Kong e Macau é altamente vantajoso. Hong Kong já introduziu uma proibição do plástico, e o nosso negócio de PHA de grau industrial está a expandir-se por lá. As vendas da pequena molécula de beta-hidroxibutirato estão a prosperar em Hong Kong e Macau e podem ser alargadas ao Sudeste Asiático. Todas as três linhas de produtos visam o mercado global, e usar Macau como ponte para alcançar os países de língua portuguesa é uma vantagem singularmente favorável. Especificamente, o PHA de grau industrial está focado em entrar no mercado europeu, os dispositivos de PHA de grau médico estão prestes a passar pela certificação CE e a pequena molécula de beta-hidroxibutirato está destinada ao mercado brasileiro. À medida que o nosso negócio global se expande, a influência da empresa continua a crescer. Na China, os produtos das três linhas de negócio também ganharam reconhecimento dos clientes, com vendas a ultrapassarem os cem milhões de yuans.

“Longa Marcha” rumo ao Sul

Dora Lyu confessou ao HM que a vinda até Hengqin, desde que começou os estudos universitários, foi como uma espécie de ‘Longa Marcha’, uma viagem para sul para se dedicar à inovação e ao empreendedorismo na Grande Baía de Guangdong-Hong Kong-Macau. Formada em Engenharia Química pela Universidade de Yantai e também em Ciência de Materiais na Universidade de Tecnologia Química de Pequim, Dora Lyu fez ainda um MBA na Universidade de Pequim e na Vlerick Business School, na Bélgica, onde teve acesso a “todo o espectro da gestão empresarial, estratégia de mercado, gestão financeira, recursos humanos e gestão da cadeia de abastecimento”.

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