Voltar às aulas sem dinheiro

Mais um ano lectivo vai ter o seu início. Milhares de crianças vão experimentar pela primeira vez o que é ter um professor, o que é uma sala de aula, o que é uma turma, o que é brincar no recreio e ter a sensação de arranjar amigos novos ou sentir o que é bulling. Os liceus e universidades voltam a encher e a ter vida. Por vezes, uma vivência complicada, com professores em greve, com instalações onde chove no seu interior e a presença de “vendedores” de drogas.

Um novo ano lectivo pode ser um martírio para milhares de pais. Para os encarregados de educação que vivem com dificuldades e que recebem apenas o salário mínimo. A criança exige mais um lápis, mais uma mochila, mais um caderno, mais um conjunto de marcadores de cores diversas. É o sonho natural de quem vai frequentar uma escola pela primeira vez ou por mais um ano.

Os pais começam a fazer contas em função do que os filhos precisam de comprar. Os livros são o principal nas contas e muitas vezes podem passar do irmão mais velho para o mais novo. Depende, se o Ministério de Educação, sem consideração pelos mais desfavorecidos, não decide mudar todos os livros para determinado ano escolar. Muitos, são caríssimos para certas bolsas. Há pais, que ao deitarem-se, correm-lhes as lágrimas pela face. Adoram os filhos e não querem que lhes falte nada. Mas o dinheiro não chega para tudo. Começam a cortar na compra de roupa, de certos alimentos, de jantares em restaurantes. Tudo têm de conseguir para que os filhos cheguem à escola e o professor não os traumatize por não possuírem todo o material necessário. Cerca de 43 por cento das famílias portuguesas enfrentam dificuldades financeiras para suportar os custos do regresso às aulas, o que leva 79 por cento dos encarregados de educação a cortar noutras despesas do orçamento familiar.

Acontece que o início do ano lectivo custa em média quase 580 euros por estudante. As famílias sacrificam férias, refeições fora de casa e actividades de lazer para poderem pagar a escola. E uma parte significativa das famílias precisa de recorrer a ajudas de familiares e amigos ou reduzir certos gastos essenciais. Em muitas casas portuguesas, antes do início das aulas, decide-se pela reutilização de vários materiais, tais como, mochilas, estojos, réguas e calculadoras que passam de um ano para o outro. E mais de metade dos pais optam por comprar artigos recondicionados ou usados, apesar de os cadernos e lápis de marca branca reduzirem bastante a factura final.

A pressão financeira associada ao regresso às aulas leva quase oito em cada 10 famílias (79 por cento) a cortar noutras despesas. E isto, é justo? Estamos ou não perante um país pobre onde a maioria do povo sofre por vários motivos? Temos ou não um Governo que se preocupa que a economia do país se baseia na produção e não no turismo? Um Governo que deve concluir ou não que os seus governados são quatro milhões a viver ao nível da pobreza? Um Governo que estuda ou não que todas estas famílias que referimos mereciam um apoio estatal para inscrever os filhos numa escola? Não temos, infelizmente, uma governação que pense que estes estudantes são o futuro do país e nunca um futuro com aqueles que estão sentados nos gabinetes ministeriais a aumentar a sua riqueza, única preocupação da classe política.

As principais despesas associadas ao regresso às aulas concentram-se na compra de materiais (53 por cento), alimentação (46 por cento), roupa (39 por cento), mensalidades e propinas (33 por cento). A pressão sobre o orçamento é ainda agravada pelo peso das despesas fixas das famílias, com 55 por cento dos encarregados de educação a sublinharem que os custos da habitação têm um impacto moderado (36 por cento) a elevado (19 por cento) na disponibilidade para os gastos com a educação.

Regressar às aulas ou entrar pela primeira vez numa escola, nunca devia constituir um sofrimento para os progenitores da malta nova. As dificuldades financeiras para enfrentar algo que devia decorrer na maior normalidade, recordando os custos avultados na compra dos materiais, leva-nos a concluir que não se avista para a próxima década um caminho de progresso e de qualidade de vida para a maioria das famílias portuguesas. Uma situação destas, em que a precariedade existente na maior parte das casas portuguesas, tem forçosamente que envergonhar quem nos governa.

O ensino deve ser o fenómeno humano mais importante na vida de qualquer cidadão. É no ensino que está a escrita, a cultura, a história, a geografia, o desenho, a informática, a literatura, a antropologia e tanto conhecimento que se adquire ao longo dos anos em que se frequentam escolas, liceus e faculdades. Especialmente, a cultura é fundamental para um futuro advogado, arquitecto, engenheiro, professor, jornalista ou mesmo político.

Não admitir esta premissa é virar as costas ao progresso intelectual dos nossos jovens que iniciam uma vida escolar ou que regressam à carteira de uma sala de aula. Com pais sem dinheiro para os filhos estudarem com o mínimo de dignidade é a mesma coisa que fazermos uma festinha a um burro e pensarmos que o animal é muito inteligente…

P.S. – 25 anos é muito tempo. Parabéns, ao bom amigo Director Carlos Morais José e a toda a sua equipa, por mais um aniversário do ‘Hoje Macau’, o melhor jornal de língua portuguesa.

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