Casamentos tardios: alegrias e tristezas (I)

Com o aperfeiçoamento da medicina e o maior alcance do sistema de saúde, a esperança média de vida dos residentes de Hong Kong e de Macau continua a aumentar, atingindo o patamar dos 83 a 87 anos. O crescimento da longevidade remodelou a percepção do Homem moderno sobre as várias fases da vida: os 50 deixaram de ser a entrada na velhice, e passaram a ser um recomeço que permite que as pessoas se reexaminem e construam a “segunda metade” das suas vidas. Com a abertura dos comportamentos sociais, o casamento de idosos, considerado tradicionalmente um tabu, está a tornar-se gradualmente uma opção para que as pessoas encontrem apoio e autonomia emocional no ocaso das suas vidas.

No entanto, os casamentos tardios não são apenas uma questão de recomeço emocional; envolvem questões complexas como a reestruturação familiar, a divisão de bens, alterações nos direitos de herança e ajustes nas pensões de reforma.

Equilibrar as necessidades emocionais com a segurança financeira enquanto se procura a felicidade na velhice tornou-se um verdadeiro desafio que os seniores de hoje em dia têm de enfrentar.

O aumento dos casamentos e dos divórcios em idades avançadas não é um fenómeno social súbito, mas sim um resultado faseado de alterações a longo prazo do modelo da família tradicional. Na estrutura nuclear das famílias chinesas, a maior parte dos casais dedica a sua energia, durante a juventude e a meia-idade, a criar os filhos e a gerir o agregado familiar, transformando gradualmente o matrimónio de relação íntima em “Empresa de Parentalidade Cooperativa.” Imagine-se um pai que chega a casa depois de um dia de trabalho cansativo e que tem de ajudar o filho a estudar para o teste do dia seguinte, enquanto a mãe faz os trabalhos de casa com a filha. Este estilo de vida repetitivo deixa pouco espaço para a vida afectiva do casal. A intimidade entre ambos parece um sonho distante.

O dia a dia gira em torno do apoio escolar, dos cuidados aos filhos e da divisão das tarefas domésticas, sufocando constantemente a comunicação, o companheirismo e a intimidade entre os esposos. Este padrão que se arrasta por muito tempo, acaba por substituir o amor romântico pelo afecto familiar e por colocar a responsabilidade à frente do companheirismo, conduzindo à persistência de um défice emocional dentro do casamento. Além disso, os desentendimentos em torno da educação dos filhos e da divisão das tarefas domésticas transformam-se em muitos conflitos insolúveis, são uma bomba-relógio pronta a explodir a qualquer momento.

Quando os filhos crescem, tornam-se independentes e saem de casa, e o elo que mantinha o casal unido desaparece. A falta de comunicação que há muito tempo se vinha a acumular, as diferenças de personalidade e a carência emocional vêm ao de cima, fazendo com que muitos casais de meia-idade, ou mesmo mais velhos, se divorciem. Comparada com a mentalidade tradicional que pautava por “aguentar as dificuldades até ao fim,” hoje em dia, os seniores têm mais consciência de si próprios e são mais independentes. Com uma esperança média de vida que ultrapassa os oitenta anos, cada vez mais idosos deixam de estar dispostos a manter casamentos insatisfatórios, optando por terminar relações antigas e procurar outras mais compensadoras. Os segundos casamentos entre idosos tornaram-se, assim, uma tendência social generalizada.

Do ponto de vista motivacional, quando se voltam a casar, os idosos escolhem os parceiros com base em factores emocionais e também em factores práticos, demonstrando os valores particulares que levam ao casamento nesta faixa etária. Quer ao nível fisiológico quer ao nível psicológico, à medida que as pessoas envelhecem, são confrontadas com o declínio, os riscos de adoecerem aumenta, e o círculo social diminui, pelo que aumenta significativamente o medo das doenças, da solidão e do inevitável fim da vida. Relações estáveis que proporcionem companhia diária e conforto emocional aumentem bastante o sentimento de felicidade e de segurança neste período da vida.

Ao contrário da geração mais jovem que se foca na atracção e no futuro do casamento, os segundos casamentos dos idosos privilegiam a compatibilidade de interesses e do estilo e ritmo de vida. Nos seus últimos anos, quando já não estão sobrecarregados com as pressões dos cuidados infantis, a compatibilidade espiritual torna-se o critério central para os idosos escolherem um parceiro, tornando os casamentos tardios mais puramente emocionais.

Continuaremos a análise dos segundos casamentos entre idosos na próxima semana.

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