O umbral da desordem mundial (I)

(Continuação do artigo publicado na edição de 18 de Junho)

Quando planeiam intervenções terrestres, os decisores de Washington parecem ignorar a geografia acidentada de um território maior do que vários países europeus reunidos, com quase cem milhões de habitantes jovens, dotados de forte identidade e elevada cultura, com destaque para os avanços técnico‑ científicos e para a formação das mulheres.

É compreensível que muitos iranianos estejam cansados de um regime opressivo e corrupto. O que não se compreende é como Trump pode pedir‑ -lhes que derrubem esse governo enquanto os bombardeia indiscriminadamente.

Por que razão, então, esta aventura que desestabiliza o planeta e ameaça comprometer a posição do presidente nas próximas eleições intercalares? Três respostas interligadas; por Israel, Trump e Netanyahu, e Deus. Por Israel, porque nesta disputa mortal os Estados Unidos seguem a linha estratégica do Estado hebraico. O general Udi Dekel, analista do Institute for National Security Studies de Telavive, explica que “Desde 7 de Outubro, Israel caiu na armadilha da ‘segurança absoluta’, uma concepção que conduz à guerra permanente. Se a segurança é definida como eliminação total de qualquer ameaça assim que surge, em vez de a reduzir ou estabilizar, então qualquer resultado que não seja a remoção completa será visto como insuficiente.”

Esta deriva, impulsionada por Netanyahu após o ataque do Hamas, transformou as Forças de Defesa de Israel em forças de ataque contínuo, esgotando-‑ as. O próprio chefe do Estado‑ Maior, Eyal Zamir, alertou: “Ergo dez bandeiras vermelhas antes que as forças colapsem.” Por Trump, hipnotizado por Netanyahu. Trata‑ se de mais uma prova da influência que Israel exerce sobre as elites americanas como fenómeno poderoso e insuficientemente estudado.

Como pode o presidente alinhar tão cegamente com um aliado? Porque, nos círculos políticos, mediáticos, económicos e financeiros dos Estados Unidos, muitos consideram Israel quase um parente próximo. As ligações bipartidárias são antigas. Há episódios históricos que revelam essa assimetria, como o ataque israelita ao navio USS Liberty de 8 de Junho de 1967, durante a Guerra dos Seis Dias, que matou dezenas de marinheiros americanos sem provocar qualquer reacção oficial.

A relação entre os actuais líderes dos dois países constitui o ponto máximo dessa ligação. Entre Trump e Netanyahu há uma espécie de devoção recíproca, com momentos de tensão e reconciliação, mas sempre com dependência mútua. Circulam teorias menos nobres sobre possíveis meios de pressão, mas o essencial é que Netanyahu construiu a sua carreira política nos Estados Unidos e mantém influência profunda no Partido Republicano e em sectores do Estado.

Hoje, a estratégia da guerra permanente serve-‑ lhe também para atrasar um processo judicial por corrupção. Trump, por sua vez, empenha-‑ se em obter para o aliado uma forma de imunidade, irritando-‑ se com a recusa do presidente israelita Isaac Herzog. O último elo da cadeia é religioso. O fio que une os dois países é o chamado sionismo cristão, muito popular entre conservadores americanos e bem recebido em Jerusalém, apesar de alguns dos seus defensores serem antissemitas convictos.

Trata-se de um literalismo bíblico segundo o qual Deus atribui ao povo eleito um território vasto e liga o seu destino ao regresso do Messias. Esta visão mística permite a Netanyahu e Trump afirmar que a guerra terminará apenas com a segunda vinda de Cristo.

Desde o início, esta guerra foi concebida como um exercício de resistência que, nas intenções israelo‑ -americanas, deveria desenrolar‑ -se sobretudo no plano militar. O cálculo era simples; pois tinha como objectivo degradar rapidamente a capacidade iraniana de resposta com mísseis e drones, antes que o arsenal americano se esgotasse. Se essa aposta falhou, foi porque a subestimação do Irão atingiu também o plano económico.

Em cerca de quarenta anos, a República Islâmica estruturou uma “economia de resistência” capaz de suportar guerras, sanções e choques comerciais. O país produz internamente grande parte do que não consegue importar, ainda que com qualidade variável, incluindo medicamentos, componentes automóveis e electrodomésticos. Para isso, dispõe de centenas de indústrias distribuídas pelo território, numa estratégia de descentralização desenvolvida após a guerra com o Iraque, que revelou a vulnerabilidade das cadeias produtivas concentradas. Quando as sanções apertam, Teerão recorre à troca directa de bens por bens (escambo), permutando petróleo por alimentos e maquinaria.

A estratégia de substituição de importações e de criação de rotas alternativas a Hormuz ganhou força durante a primeira administração Trump, cuja política de “pressão máxima” expôs fragilidades internas mas também acelerou a capacidade iraniana de adaptação.

Décadas de embargo, durante as quais Teerão foi impedida de se apoiar plenamente no rendimento energético, produziram, paradoxalmente, uma das economias mais diversificadas e industrializadas da região. O petróleo continua a ter grande peso e, durante este conflito, o Irão manteve as exportações sobretudo para a China a um ritmo de quase três milhões de barris por dia, gerando receitas que fluem em grande parte para os Pasdaran.

No entanto, cerca de dois mil milhões de dólares por mês provêm da exportação de metais, produtos químicos e alimentos. Trata-se de um sistema que, apesar das disfunções evidentes, preservou o impulso modernizador das décadas de 1960 e 1970, colocando a base industrial erguida pela monarquia Pahlavi ao serviço da revolução.

Este modelo enfrenta agora a sua prova mais difícil. Desde 28 de Fevereiro, Israel e Estados Unidos atingiram uma infinidade de alvos em território iraniano, sobretudo infra-‑ estruturas civis com uso industrial.

Assim agravaram uma economia debilitada pelas sanções e por uma inflação de 40%, simultaneamente causa e efeito dos protestos do início de 2026. Apesar disso, a economia de resistência cumpriu o seu papel, pois o custo da guerra para o Irão é imenso, mas as autoridades têm como prioridade absoluta a sobrevivência do Estado, não a prosperidade salvo a sua própria. Ainda existe muita economia civil para ser sacrificada em benefício da máquina bélica.

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