10 de Junho | Mostra de Eduardo Leal revela disparidades de Macau

Foi divulgado esta quarta-feira o programa de mais uma edição das celebrações do 10 de Junho – Dia de Portugal, Camões e das Comunidades Portuguesas. O destaque de “Junho – Mês de Portugal” vai para uma exposição do fotojornalista Eduardo Leal, intitulada “The Insider”, onde se inclui o projecto “A Pataca”, centrado nas desigualdades económicas de Macau

Os contrastes económicos de Macau, uma das regiões com o produto interno bruto per capita mais elevado do mundo, é um dos temas abordados por Eduardo Leal numa exposição por ocasião de “Junho – Mês de Portugal” no território.

Eduardo Leal, fotojornalista residente em Macau há quatro anos, é este ano o artista em foco nas celebrações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas em Macau. “The Insider” tem inauguração a 5 de Junho a partir das 18h30 na Casa Garden.

Entre os trabalhos que o portuense vai apresentar na exposição organizada pela Fundação Oriente na Casa Garden, está o projecto “A Pataca”, que aborda a dupla identidade da cidade onde reside há vários anos, centrada nas disparidades económicas consideráveis do território.

“A exposição viaja através de várias reportagens e projectos que fiz em Macau. Quero contar estas histórias por dentro, mostrar os dois lados da moeda. Em Macau é impossível fugir desta dimensão económica do turismo e casinos”, disse o autor em entrevista com a Lusa.

“São os dois lados da moeda. Olho para Macau como um espaço de contrastes: coisas tranquilas e a azáfama, zonas ricas e zonas pobres”, explicou.

Leal trabalha como fotojornalista correspondente da agência France-Presse (AFP) e da Bloomberg, cobrindo o Sudeste Asiático, com foco em questões políticas e sociais. O seu trabalho tem sido reconhecido em concursos internacionais como os Sony World Photography Awards e o POY Latin America, e exposto internacionalmente, nomeadamente em Londres, Nova Iorque, Amesterdão, Viena, São Paulo e Hong Kong.

Seguindo o tema lusófono das celebrações em Macau, Leal inclui também projectos realizados em Portugal e no Brasil. “Acompanhei um grupo de forcados amadores de Évora e pescadoras açorianas. No caso dos Açores, as mulheres não são vistas como trabalhadoras do mar, mas de terra, e acompanhei a luta delas nesse espaço”, recordou.

Imagens do Sul

O fotógrafo expõe também um trabalho que documenta as comunidades que residem em “grande isolamento” nos Lençóis Maranhenses, o maior campo de dunas da América do Sul, no nordeste do estado do Maranhão, e outro sobre o maior festival religioso do mundo, o Kumbh Mela, na Índia.

“Residi durante dois meses com um Saddhu, um homem sagrado que conheço. No ano em que fiz o projecto, 2019, eram cerca de 120 milhões de pessoas durante os dois meses do festival. No maior dia estiveram reunidas 50 milhões. Portugal teve presença na Índia, não nesta zona, mas temos essa ligação”, sublinhou.

A curadoria da exposição é assinada pela artista chinesa Julia Lam. “Quis que fosse uma curadora local para criar uma ponte com o sítio onde estamos. Apesar de ser o mês de Portugal, achei adequado”, disse Eduardo Leal.

O programa inclui visitas guiadas a escolas em 11 e 12 de Junho, a palestra “Narrativas Invisíveis”, no dia 17, em diálogo com Lam, e um workshop pago de dois dias, a 20 e 21, sobre criação de narrativas visuais, intitulado “From a Single Shot to Visual Narrative”.

“A palestra é um diálogo com a Júlia sobre os projetos, as histórias escondidas por detrás deles, o que acontece em campo, os desafios e as partes menos giras”, detalhou. “Na oficina, quero mostrar como se constrói uma narrativa visual e um projecto”, explicou ainda. Estão previstas visitas abertas ao público a 23 e 28 de Junho, o último dia da mostra.

Será também lançado um livro de fotografia com conteúdos adicionais das reportagens. “O livro vai ter mais material das histórias que estão na exposição, para aprofundar o contexto”, acrescentou o fotojornalista.

Leal está actualmente a preparar uma possível exposição que retrata as monjas bhikkhuni do Sri Lanka, sobre a ordenação feminina no budismo.

A ordenação de mulheres bhikkhunis é uma questão complexa no sul da Ásia, com o Sri Lanka a ser um dos poucos países que restaurou a linhagem feminina formal. Na Tailândia, o ordenamento de mulheres como monjas é proibido, obrigando as devotas a viajarem para o exterior, muitas vezes para o Sri Lanka, para o fazerem. “Foi um trabalho de oito anos, com muitas viagens à Tailândia e ao Sri Lanka”, disse Eduardo Leal.

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