Grande PlanoFrancisco José Leandro e Anabela Santiago, académicos: AULP é “infra-estrutura de poder” Andreia Sofia Silva - 14 Mai 202614 Mai 2026 Francisco José Leandro e Anabela Santiago estão a estudar a perspectiva geopolítica da língua portuguesa, analisando o trabalho da AULP – Associação das Universidades de Língua Portuguesa. Os académicos consideram que a aproximação de Macau ao mundo hispânico “não deve ser vista como ameaça ao português” São já muitos os anos de funcionamento da AULP – Associação das Universidades de Língua Portuguesa. Que balanço fazem da sua actividade em termos de resultados práticos para a geopolítica do português? Francisco Leandro (FL) – O balanço é claramente positivo, sobretudo se entendermos a geopolítica da língua portuguesa não apenas como promoção cultural, mas como criação de redes institucionais duradouras. A AULP tem contribuído para transformar a cooperação universitária num instrumento de diplomacia académica, aproximando instituições de ensino superior, investigadores, estudantes e decisores de diferentes países de língua portuguesa. Os resultados práticos não devem ser medidos apenas por indicadores imediatos, como eventos ou protocolos assinados. O impacto mais relevante está na consolidação de uma comunidade académica transnacional, na circulação de conhecimento, na formação de quadros e na capacidade de dar maior densidade institucional ao espaço lusófono. Nesse sentido, a AULP funciona como uma infra-estrutura de poder: discreta, mas estrutural, porque cria canais estáveis de cooperação científica, académica e diplomática. Naturalmente, há ainda desafios. Pode exemplificar? A projecção internacional do português continua dependente de maior financiamento, maior integração com políticas públicas e melhor articulação com os sectores económico, tecnológico e científico. Mas a AULP tem tido um papel consistente na passagem da lusofonia de uma ideia cultural para uma rede institucional operativa. É certo que Macau se posiciona como uma plataforma importante no contexto da AULP. Porém, a agenda política para o comércio entre a China e PLP aponta para uma crescente aproximação à língua espanhola. De que forma Macau, e também a AULP como extensão, se pode adaptar a esta nova realidade? FL – A aproximação ao espaço hispanófono não deve ser vista necessariamente como uma ameaça ao português. Pode ser vista como uma oportunidade, desde que o português não seja diluído numa lógica meramente instrumental. A questão central é saber se Macau e a AULP conseguem posicionar o português dentro de uma estratégia mais ampla de intermediação entre a China, os países de língua portuguesa e o espaço ibero-americano. Macau tem uma singularidade que não deve ser desperdiçada: é um território onde a língua portuguesa tem valor jurídico, histórico, diplomático e institucional. Essa condição permite-lhe funcionar como plataforma de ligação entre a China e a lusofonia. Perante uma maior aproximação ao espanhol, a adaptação deve passar por uma lógica de complementaridade: português, espanhol, chinês e inglês podem coexistir como línguas de circulação económica, científica e diplomática. Nesta geopolítica do português, e colocando três países numa balança, quem tem feito mais pela dinamização do idioma? Portugal, China ou Brasil? Anabela Santiago (AS) – Essa comparação só é útil se for feita com alguma nuance. Não cremos que exista uma resposta única, porque cada país tem desempenhado um papel diferente na geopolítica do português. O Brasil tem uma centralidade demográfica, cultural e mediática incontornável. É o país com maior número de falantes de português e tem uma capacidade muito significativa de projecção cultural, científica e económica. Portugal, por sua vez, tem desempenhado um papel importante na normatização, na diplomacia da língua, na política externa cultural e na articulação institucional do espaço lusófono. A China não é um país lusófono, mas tem reconhecido valor estratégico ao português, sobretudo através de Macau e da sua relação com os países de língua portuguesa. Nesse sentido, a China contribui de forma diferente: não pela pertença linguística, mas pela incorporação do português em estratégias de intermediação económica, diplomática e académica. Portanto, em vez de perguntar quem fez mais, talvez seja mais rigoroso perguntar quem tem feito o quê. O futuro do português dependerá menos da liderança isolada de um país e mais da capacidade de articular estes papéis: a escala brasileira, a estrutura diplomática portuguesa, o interesse estratégico chinês e, cada vez mais, o crescimento africano e asiático da língua. O estudo que estão a desenvolver olha para as “assimetrias históricas Norte–Sul” no que diz respeito a esta geopolítica. De que forma devem ser colmatadas, e quais as mais evidentes? AS – As assimetrias Norte-Sul são visíveis em vários planos. Desde logo, no acesso desigual a financiamento científico, infra-estruturas universitárias, redes de publicação, mobilidade académica, tecnologia, bases de dados e capacidade de internacionalização. Também existem assimetrias simbólicas: durante muito tempo, o conhecimento produzido no Norte Global foi visto como mais central, enquanto o conhecimento produzido no Sul Global foi tratado como periférico ou localizado. No espaço lusófono, isto significa que universidades africanas, timorenses ou de outros contextos do Sul Global nem sempre têm as mesmas condições para participar na produção científica internacional, mesmo quando trabalham sobre temas essenciais para o futuro da língua portuguesa. Colmatar estas assimetrias exige medidas concretas. Quais? AS – É necessário reforçar programas de mobilidade equilibrada, apoiar publicações científicas em português com padrões internacionais, financiar projectos de investigação liderados por instituições do Sul Global, promover coautorias menos hierarquizadas e valorizar conhecimento produzido a partir de diferentes realidades locais. A AULP pode ter aqui um papel importante, precisamente porque é uma rede académica transnacional. O objectivo não deve ser apenas integrar o Sul Global em estruturas já existentes, mas permitir que essas instituições também definam agendas, prioridades e critérios de relevância científica. Sendo a AULP uma associação ligada ao ensino superior, consideram que falta conexão do idioma com os diversos tecidos empresariais da Lusofonia? FL – Sim, essa conexão ainda pode e deve ser reforçada. A língua portuguesa tem sido frequentemente tratada como património cultural, académico ou diplomático, mas precisa também de ser entendida como activo económico. Uma língua ganha projecção quando está ligada a oportunidades concretas: emprego, comércio, inovação, tecnologia, formação profissional, indústrias culturais, turismo, serviços jurídicos, saúde, energia, economia azul e transição digital. Sendo a AULP uma associação ligada ao ensino superior, tem condições para aproximar universidades, empresas e instituições públicas. Essa aproximação pode passar por programas conjuntos de formação, estágios, investigação aplicada, incubadoras, redes alumni, centros de estudos empresariais lusófonos e projetos de transferência de conhecimento. O ponto essencial é este: a geopolítica do português não se consolida apenas nas universidades, nem apenas nos governos. Consolida-se quando a língua circula também nos mercados, nas empresas, na tecnologia, na inovação e nas profissões qualificadas. A AULP pode contribuir para essa ponte, formando quadros capazes de operar em contextos lusófonos e iberófonos, com competências linguísticas, interculturais e técnicas. Macau referido como um “hub híbrido de conhecimento” No passado dia 8 de Abril, Francisco José Leandro, professor associado da Universidade de Macau, e Anabela Santiago, investigadora nntegrada Centro de Estudos Internacionais do Iscte-IUL e doutorada em Políticas Públicas, apresentaram alguns detalhes do estudo que estão a desenvolver em torno da geopolítica do português, com a palestra “Abordagem multidisciplinar à geopolítica da língua portuguesa” na I Conferência Língua e Mundo, promovida pela Universidade Autónoma de Lisboa. Segundo explicaram os autores ao HM, o estudo analisa “a geopolítica da língua portuguesa enquanto variável estruturante do sistema internacional”, com foco no papel da AULP. Esta é vista como uma “infra-estrutura de poder que articula educação superior, ciência e diplomacia académica no espaço lusófono e iberófono”. A abordagem de Francisco Leandro e Anabela Santiago lança um olhar ao português “como vector de soft power estrutural, duradouro e institucionalmente mediado”. O lugar da RAEM A AULP é encarada como “actor estratégico da diplomacia académica, capaz de transformar cooperação universitária em poder institucional”, na qualidade de “rede académica transnacional”. No caso do papel de Macau nesta matéria, o território surge, segundo os académicos, como “um hub híbrido de diplomacia do conhecimento, onde a língua portuguesa funciona como recurso diplomático na projecção externa chinesa e como instrumento de intermediação académica e científica no eixo Sul–Sul”. O estudo analisa ainda “a relevância estratégica da articulação entre Lusofonia e Iberofonia, através da convergência com o espaço hispanófono, como mecanismo de ampliação do alcance institucional, científico e geocultural do português”. Desta forma, uma das conclusões é que “a projecção geopolítica da língua portuguesa depende crescentemente de redes académicas robustas, estando a AULP no centro desta arquitectura de poder linguístico no sistema internacional contemporâneo”.