Grande Plano MancheteBranqueamento de Capitais | Macau mantém-se um “nó fundamental para lavagem de dinheiro” Hoje Macau - 8 Abr 20268 Abr 2026 O cenário foi traçado por especialistas em branqueamento de capitais à Agência Lusa, que destacam que o negócio assume novas formas, depois das campanhas contra as empresas junket. Os novos modelos passam pelas casas de câmbio, de penhores e a utilização de cartões de crédito Especialistas em crime organizado indicaram à Lusa que Macau continua a ser um “nó fundamental para a lavagem de dinheiro” por organizações criminosas, apesar do desmantelamento do anterior sistema de jogo VIP no território Segundo Martin Pubrick, antigo membro da Polícia Real de Hong Kong e especialista em corrupção e crime organizado, embora Pequim tenha desmantelado o sistema de angariadores de jogo VIP, conhecidos como ‘junkets’, que outrora dominava o sector dos casinos da cidade, Macau continua a ser uma porta de entrada crucial para a lavagem de dinheiro na região. “Embora grandes sindicatos criminosos chineses tenham deslocado operações pelo Sudeste Asiático em resposta a medidas repressivas, Macau continua a ser um ponto operacional e de encontro para estas redes profundamente enraizadas”, disse à Lusa. O sistema de ‘junkets’ permitia “enormes fluxos de capitais provenientes da China Continental” e enriquecia grupos ligados às tríades, um “processo que terminou nos anos anteriores à pandemia de covid-19, quando o Governo central expandiu a campanha anticorrupção, reforçou os controlos de capitais e processou vários ‘junkets’ de Macau para enviar uma mensagem clara”, explicou o analista. Alvin Chau Cheok Wa, ex-chefe do maior grupo de ‘junkets’ da cidade, a Suncity Group, foi preso em 2021 e depois condenado a 18 anos de prisão por associação criminosa e exploração de jogo ilícito. Num processo paralelo, Levo Chan, líder do Tak Chun Group, o segundo maior ‘junket’ de Macau, foi condenado a 13 anos de prisão por acusações semelhantes. Modelos afastados John Wojcik, investigador sénior da Infoblox Threat Intelligence e ex-analista do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, faz a mesma análise. Apesar de a mensagem das autoridades locais ser clara de que “as velhas formas de negócio acabaram”, Macau mantém uma importância estratégica nesta indústria paralela, afirmou à Lusa. O modelo de negócio dos “junkets” de Macau e dos grupos criminosos associados era, até 2019, centrado nos casinos. Hoje, porém, a actividade deslocou-se para apostas e jogos ilegais online, com pagamentos em criptomoedas e uma expansão significativa para esquemas de fraude digital em larga escala, sublinhou Pubrick. “Casas de câmbio, lojas de penhores e movimentos através de cartões de crédito absorveram essa procura, o que pode significar que a lavagem de dinheiro em Macau é hoje menos centralizada e menos visível”, observou o analista. Mas “Macau continua a ser um nó fundamental para a lavagem de dinheiro”, reiterou. Estes grupos criminosos, descreveu Pubrick, adaptaram-se, deslocando operações para jurisdições com regulamentação mais frágil, como o Camboja, Filipinas, que acolhia várias companhias de jogo online offshore, assim como zonas fronteiriças de Myanmar (antiga Birmânia). Muitos migraram para “apostas ilegais online, fraude digital e transacções em criptomoedas”, criando um negócio “geograficamente distribuído”, com vítimas que se expandem hoje à Europa e Américas. “Macau já não é o centro da lavagem de dinheiro, mas é uma porta regulada que continua a ser explorada por grupos criminosos da China Continental, Hong Kong e Taiwan”, reforçou Pubrick. Casos mais recentes Dois casos recentes ilustram esta realidade. Em Março, as autoridades de Taiwan prenderam 20 pessoas envolvidas num esquema de lavagem de dinheiro estimado em 33 mil milhões de dólares taiwaneses. De entre as duas dezenas de detidos, 10 foram, entretanto, acusados pelo Ministério Público de Taiwan por, nomeadamente, usarem casinos de Macau para branquear o dinheiro, proveniente de jogo ilegal na Internet. “Mulas de dinheiro” inflacionavam limites de crédito, compravam grandes quantidades de fichas e trocavam-nas por moeda local, disfarçando os fundos. Dois alegados cabecilhas do esquema permaneçam em fuga. Num segundo caso, Lin Ping-wen, um fugitivo taiwanês ligado a um dos maiores escândalos de jogo ilegal na Ilha Formosa e procurado por jogo ilegal e branqueamento de capitais, foi morto a tiro no Camboja, em Sihanoukville, cidade costeira no sudeste do país conhecida pelos seus casinos. Com antecedentes no crime organizado em Taipé, Lin esteve também ligado a um escândalo de manipulação de jogos de beisebol em 2007 e, mais tarde, integrou o sector de promoção de jogo VIP em Macau, com ligações ao Suncity Group. Dados oficias mostram redução anual no número de transacções suspeitas No ano passado, o número de transacções suspeitas registadas pelo Gabinete de Informação Financeira (GIF) apresentou uma redução anual de 6,1 por cento, para 4.925 relatos. No entanto, este foi o segundo valor mais elevado dois últimos 10 anos e que representa uma média de 13 transacções suspeitas diárias. A maior parte das denúncias não são tidas como transacções suspeitas, e no ano passado apenas 118 operações foram encaminhadas para o Ministério Público. O recorde de transacções relatadas pelos diferentes sectores da economia ao GIF atingiu o pico em 2024, quando foram registadas 5.245 operações financeiras que geraram suspeitas, uma média de 14 transacções suspeitas por dia, com 142 a serem apresentadas ao Ministério Público. No ano anterior, em 2023, o número tinha sido de 4.614 transacções. Entre 2020 e 2022, durante os anos da pandemia e das fortes restrições de circulação para o território, devido à adopção da política de zero casos de covid, os números atingiram valores mais baixos, que variaram entre 2.224 e 2.199, sempre inferior às 2.500 transacções. Antes da pandemia e até 2016, o valor mais elevado tinha sido registado em 2018, quando foram denunciadas 3.716 transacções, um valor que apenas foi ultrapassado em 2023, a primeira vez em que o registo ultrapassou a barreira das 4.000 transacções, o que representa uma média de 11 casos por dia. Jogo mais alerta As principais denúncias recebidas pelo GIF partem do sector do jogo, que no ano passado foi responsável por 73,1 por cento dos 4.925 relatos de transacções suspeitas, o que significou 3.603 relatos. No entanto, o sector do jogo apresentou menos denúncias ao GIF em termos anuais, dado que em 2024 foram reportadas 3.837 transacções suspeitas. Ainda no que diz respeito a 2025, o segundo sector a apresentar mais denúncias foi o das instituições financeiras e companhias de seguros com 1.008 movimentos suspeitos. Finalmente, todas as outras instituições da economia apresentaram 314 relatos, o que representou 6,4 por cento do total.