Perspectivas VozesPortugal e o Cenário Presidencial de 2026 Jorge Rodrigues Simão - 15 Jan 202615 Jan 2026 “When societies feel unheard, they do not fall silent – they change the way they speak.” – Zygmunt Bauman A 18 de Janeiro, Portugal encontra-se perante um dos momentos mais significativos da sua história democrática recente. O ciclo presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa, iniciado em 2016 e concluído este ano, encerra-se com a impossibilidade constitucional de recandidatura, abrindo espaço a uma disputa plural e inédita. A eleição presidencial, marcada para 18 de Janeiro, com eventual segunda volta prevista para 8 de Fevereiro, não é apenas um exercício democrático rotineiro; é um teste à maturidade institucional do país, à capacidade de renovação das elites políticas e à resiliência da sociedade portuguesa perante os desafios globais. O sistema semipresidencialista português, consagrado na Constituição de 1976, atribui ao Presidente da República funções moderadoras, mas com poderes relevantes em momentos de crise, como a dissolução da Assembleia da República ou a nomeação do Primeiro-Ministro. Desde a Revolução de 25 Abril de 1974, todos os presidentes cumpriram dois mandatos consecutivos, e a impossibilidade de Marcelo Rebelo de Sousa se recandidatar abre espaço a uma competição original. A presidência portuguesa tem sido marcada por figuras que simbolizam diferentes fases da democracia com Ramalho Eanes como militar fundador da estabilidade pós-revolucionária, Mário Soares como europeísta e defensor da integração, Jorge Sampaio como moderador social, Cavaco Silva como economista liberal e Marcelo como comunicador empático. A sucessão de 2026 insere-se nesta linha histórica, mas com características próprias, como a ausência de incumbente, a fragmentação partidária e a emergência de novos actores políticos. Entre os candidatos destacam-se figuras de diferentes quadrantes políticos e sociais. Luís Marques Mendes, pelo PSD, representa a continuidade institucional e a ligação ao centro-direita tradicional. António José Seguro, pelo PS, aposta na coesão social e na defesa dos valores de Abril. Henrique Gouveia e Melo, independente, surge como candidato com forte apelo popular e imagem de competência técnica, fruto da liderança na campanha de vacinação contra a COVID-19. André Ventura, pelo Chega, aposta num discurso securitário e nacionalista, procurando capitalizar o descontentamento social. João Cotrim de Figueiredo, pela Iniciativa Liberal, defende a redução do peso do Estado e a liberalização económica. Catarina Martins, pelo Bloco de Esquerda, centra-se na justiça social e nos direitos humanos. Esta pluralidade reflecte uma sociedade mais diversificada, mas também mais polarizada. As sondagens sugerem que nenhum candidato deverá alcançar maioria absoluta na primeira volta, tornando provável uma segunda volta entre dois candidatos de blocos distintos. Portugal entra em 2026 com uma economia marcada pela recuperação pós-pandemia, mas também por desafios estruturais, como a baixa produtividade, o envelhecimento demográfico e a dependência energética. O turismo continua a ser o motor económico, mas enfrenta pressões de sustentabilidade e necessidade de diversificação. A transição digital e ecológica é imperativa, exigindo políticas públicas consistentes e investimento em inovação. Socialmente, o país vive tensões entre a valorização dos serviços públicos e a pressão fiscal, entre a integração europeia e o ressurgimento de discursos nacionalistas. O envelhecimento da população coloca desafios à sustentabilidade da segurança social e à coesão intergeracional. A desigualdade social, embora mitigada por políticas redistributivas, continua a ser preocupação central. A presidência, embora não detenha competências executivas, pode desempenhar um papel simbólico e mobilizador, influenciando agendas e promovendo consensos. A cultura portuguesa, profundamente enraizada na memória histórica e na projecção lusófona, desempenha um papel central na afirmação internacional. A presidência simboliza a continuidade de valores republicanos e democráticos, sendo o Presidente visto como garante da estabilidade e da unidade nacional. A pluralidade de candidatos reflecte diferentes visões sobre identidade nacional, desde a defesa de Abril à retórica securitária, da empatia social à tecnocracia institucional. A diversidade cultural portuguesa, marcada pela coexistência de tradições locais e pela abertura ao mundo, encontra na presidência um espaço de representação simbólica. A eleição de 2026 será também um momento de afirmação identitária, em que se debatem valores como solidariedade, liberdade e pertença europeia. Portugal mantém-se como membro activo da União Europeia, participando nos debates sobre integração económica, transição energética e defesa comum. A presidência de 2026 será crucial para garantir estabilidade diplomática num contexto global de tensões geopolíticas. A escolha de um presidente com perfil conciliador ou mais interventivo poderá influenciar a percepção externa do país. A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa continua a ser espaço privilegiado de afirmação internacional, reforçando laços históricos e culturais. A pertença à NATO garante segurança estratégica, mas também implica responsabilidades em contextos de tensão geopolítica. Portugal, pela sua posição atlântica e lusófona, desempenha papel de ponte entre continentes e culturas, e a presidência simboliza essa vocação internacional. O Presidente é visto como garante do equilíbrio e da unidade nacional, sobretudo em momentos de crise. Para além das competências formais, a presidência possui uma dimensão simbólica, representando valores e identidades colectivas. A filosofia da presidência portuguesa assenta na ideia de que o Presidente deve ser árbitro e moderador, mas também inspirador e mobilizador. A eleição de 2026 coloca em debate diferentes concepções do cargo com uma presidência mais interventiva, centrada na autoridade moral, ou uma presidência mais discreta, focada na mediação institucional. Esta reflexão filosófica é essencial para compreender o significado da eleição. As sondagens disponíveis até 13 de Janeiro de 2026 continuam a mostrar uma corrida presidencial portuguesa extremamente competitiva e fragmentada, marcada pela ausência de um favorito claro e pela persistência de um elevado número de indecisos. O panorama mais recente revela uma recomposição significativa no grupo da frente em que António José Seguro e João Cotrim de Figueiredo surgem agora como os candidatos com maior dinamismo, enquanto André Ventura e Henrique Gouveia e Melo registam ligeiras quebras e Luís Marques Mendes desce para o quinto lugar, com valores que oscilam entre cerca de 15% e 17%, afastandose da disputa imediata pela passagem à segunda volta. António José Seguro beneficia de uma tendência de crescimento contínuo desde o final de 2025, apoiado por um perfil percebido como estável e institucional. João Cotrim de Figueiredo, por sua vez, consolidou uma trajectória ascendente que o aproximou do núcleo dos principais candidatos, reforçando o seu apelo entre eleitores jovens, urbanos e liberais. André Ventura mantém um núcleo duro de apoio expressivo, mas continua a enfrentar dificuldades em alargar a sua base eleitoral, surgindo sistematicamente fragilizado nos cenários de segunda volta. Henrique Gouveia e Melo preserva um capital relevante de confiança pública, embora tenha perdido algum fôlego nas últimas semanas, reflectindo um ambiente político mais volátil e competitivo. Luís Marques Mendes, que chegou a liderar intenções de voto no final de 2025, enfrenta agora uma quebra consistente que o coloca fora do grupo mais competitivo, ilustrando a sensibilidade do eleitorado a movimentos de última hora e a reposicionamentos estratégicos. O quadro geral permanece marcado pela coexistência de perfis muito distintos com candidatos independentes com forte reputação pública, figuras com longa experiência partidária e protagonistas de discursos mais populistas e securitários. Esta diversidade reflecte um eleitorado dividido entre a procura de estabilidade institucional, a valorização da competência técnica e o desejo de renovação política. A presença continuada de Ventura no grupo da frente, mesmo com fracas hipóteses de vitória numa segunda volta, confirma a consolidação de um discurso contestatário que encontrou espaço na sociedade portuguesa. Em paralelo, o crescimento de Cotrim de Figueiredo evidencia a procura de alternativas liberais e reformistas, enquanto a recuperação parcial de Seguro demonstra a relevância de perfis moderados num contexto de incerteza. As candidaturas com menor probabilidade de alcançar a segunda volta como Catarina Martins, António Filipe, Jorge Pinto ou Manuel João Vieira continuam a desempenhar um papel importante na pluralidade do debate, representando agendas específicas e contribuindo para a vitalidade democrática do processo. No seu conjunto, as tendências até 13 de Janeiro de 2026 revelam um país em reflexão profunda sobre o tipo de liderança que deseja para a próxima década. Entre tradição e inovação, continuidade e mudança, integração europeia e afirmação nacional, o futuro Presidente será chamado a preservar os valores republicanos e democráticos, interpretar as expectativas de uma sociedade em transformação e oferecer uma visão capaz de unir diferentes sensibilidades num contexto global cada vez mais exigente. Estas sondagens colocam André Ventura num intervalo aproximado entre 19,5% e 20% das intenções de voto na primeira volta das eleições presidenciais. A partir destes valores, é possível projectar o número de votos que poderá alcançar em diferentes cenários de participação eleitoral. Se a afluência às urnas for semelhante à das últimas presidenciais, com cerca de 4,2 milhões de votantes, Ventura deverá situarse entre aproximadamente 820 mil e 840 mil votos, permanecendo abaixo da fasquia simbólica de um milhão de votos neste cenário de participação mais reduzida. Caso a participação se aproxime da registada nas legislativas de 2024, em torno de 6,5 milhões de votantes, o mesmo intervalo percentual traduzirseia num total entre cerca de 1,26 milhões e 1,30 milhões de votos, valor ainda assim inferior ao patamar alcançado pela AD nas legislativas. Nos cenários de segunda volta, as sondagens colocam Ventura num intervalo entre 25% e 29%. Aplicando estes valores a uma participação semelhante à das presidenciais, o candidato poderá obter entre cerca de 1,05 milhões e 1,22 milhões de votos. Se a afluência for comparável à das legislativas, o intervalo projectado sobe para valores entre aproximadamente 1,62 milhões e 1,88 milhões de votos. Uma votação tão expressiva num candidato com este perfil é frequentemente entendida como o reflexo de tensões sociais acumuladas ao longo do tempo. Revela um sentimento de insatisfação com o funcionamento das instituições, a percepção de desigualdades persistentes e a ideia de que questões como segurança, justiça, custo de vida, imigração ou a qualidade dos serviços públicos não têm recebido respostas eficazes. Ao mesmo tempo, o crescimento de discursos mais directos e confrontacionais mostra que uma parte significativa do eleitorado procura linguagem simples, posições firmes e uma atitude de desafio perante o sistema político tradicional, mesmo que isso acentue divisões. Este fenómeno também evidencia a fragmentação do sistema partidário, com menos fidelidade aos partidos tradicionais e maior abertura a alternativas que rompem com o padrão habitual. Tal dinâmica altera equilíbrios, estratégias e até a forma como as campanhas são conduzidas. Contudo, mesmo com uma votação elevada, subsistem limites claros à capacidade de transformar notoriedade em maioria, o que indica resistência noutros sectores da sociedade e contribui para um ambiente político mais polarizado, mas não necessariamente dominado por um único bloco. Para o sistema político, um resultado deste tipo funciona como um aviso. Mostra que há grupos que se sentem excluídos, políticas que não estão a corresponder às expectativas e percepções de injustiça ou insegurança que permanecem sem resposta convincente. Este sinal obriga os partidos tradicionais a repensar prioridades, a ajustar a forma como comunicam e a reforçar a proximidade com diferentes segmentos da população. Por fim, este movimento inserese numa tendência mais ampla observada em vários países europeus, onde candidatos com discursos semelhantes têm ganho espaço. Muitos analistas interpretam este fenómeno como consequência de transformações culturais, económicas e tecnológicas que estão a alterar profundamente a relação das pessoas com a política e com as instituições democráticas.