Permanecer Humano: Giacometti, Miró, Calder

Por Caroline Pires Ting

Há momentos na história da arte em que a resistência importa mais do que o progresso. Momentos em que permanecer de pé, ver com atenção e mover-se com cuidado tornam-se gestos radicalmente significativos. Alberto Giacometti, Joan Miró e Alexander Calder trabalharam a partir de um desses momentos. Sua arte é depurada, hesitante, viva. Ela não promete certezas. Oferece algo mais raro: uma forma de permanecer humano quando as formas se fragmentam, os sentidos se deslocam e o equilíbrio precisa ser continuamente renegociado.

A arte moderna costuma ser narrada como uma história de ruptura: novas formas substituem as antigas, tradições se quebram, linguagens colapsam para logo serem reinventadas. No entanto, ao observarmos atentamente a trajetória desses três artistas, outro enredo se impõe. Não o da ruptura como gesto heroico, mas o da insistência silenciosa: uma tentativa persistente de manter a arte ancorada na experiência humana em um mundo marcado pela instabilidade histórica, política e existencial (Arendt, 2007; Agamben, 2009).

Nenhum deles buscou a eternidade por meio do monumento ou da grandiosidade. Suas perguntas eram mais discretas, quase frágeis. Como um corpo persiste após o colapso das certezas. Como o sentido se forma antes de se fixar em linguagem. Como o equilíbrio pode sobreviver em um mundo submetido à mudança constante.

Giacometti: a ética da presença

As figuras de Giacometti parecem carregar consigo a memória de um acontecimento anterior ao olhar do espectador. Estreitas, gastas, reduzidas ao essencial, foram frequentemente interpretadas como emblemas do desespero existencial do pós-guerra. Contudo, como observam Jean-Paul Sartre e James Lord, essas figuras não encenam a ausência, mas a persistência da presença humana em condições extremas (Sartre, 1949; Lord, 1985).

O que Giacometti esculpe não é a falta, mas a recusa. A recusa em desaparecer.

Seus corpos não ocupam o espaço de forma afirmativa ou triunfante; antes, o atravessam com dificuldade e dignidade. Eles caminham, permanecem de pé, aguardam. Após a guerra, o exílio e a falência das narrativas totalizantes, Giacometti abandona as proporções ideais e os corpos heroicos, esculpindo aquilo que Maurice Merleau-Ponty identificaria como a condição encarnada do existir: um corpo vulnerável, exposto, irredutível (Merleau-Ponty, 1999).

Sua obra formula, assim, uma proposição ética contundente: permanecer humano não significa ser íntegro, completo ou poderoso, mas simplesmente estar presente. A eternidade, em Giacometti, não é transcendência. É resistência.

Miró: as origens do sentido

Miró afasta-se do realismo não como fuga da realidade, mas como retorno às suas camadas mais profundas. Suas pinturas são habitadas por estrelas, olhos, pássaros, linhas flutuantes e formas fragmentadas. Esses elementos não operam como símbolos estáveis, mas como uma espécie de pré-linguagem: uma gramática da percepção anterior à fixação conceitual do sentido (Miró, 1978; Dupin, 1993).

Frequentemente associada ao lúdico ou ao infantil, a obra de Miró é, em sua essência, rigorosa e profundamente crítica. Seu gesto consiste em desfazer a violência da hiperracionalização moderna, recuperando um estado em que o ver antecede o nomear. Como sugeriu Theodor W. Adorno, a abstração moderna, quando levada ao limite, não representa o mundo, mas tensiona suas condições de possibilidade (Adorno, 2008).

As constelações de Miró não descrevem o universo; ensaiam o instante inaugural em que o sentido começa a emergir. Nesse contexto, a abstração assume uma função ética: ela protege a fragilidade, mantém o sentido em suspensão e convida o olhar do outro a participar da produção de significado (Didi-Huberman, 2015). A eternidade, em Miró, não se apresenta como permanência da forma, mas como recomeço incessante.

Calder: equilíbrio como visão de mundo

Ao introduzir o movimento na escultura, Calder não transformou apenas a forma artística, mas sua lógica interna. Seus móbiles respondem ao ar, à gravidade e ao acaso. Nunca se repetem exatamente, mas tampouco se desintegram em desordem. Como observa Rosalind Krauss, trata-se de uma redefinição radical da escultura enquanto sistema relacional, e não como objeto estático (Krauss, 1977).

Calder não organiza hierarquias nem impõe centralidades. Ele compõe relações. Cada elemento depende dos demais para que o conjunto se sustente. O equilíbrio que emerge é dinâmico, provisório, vivo. Observar um móbile é assistir a um microcosmo em negociação contínua (Calder, 1966).

Em um século profundamente marcado pela obsessão com o controle, Calder propõe outra ética: baseada na confiança, na escuta e na adaptação mútua. Sua obra afirma que a estabilidade não exige rigidez. A eternidade, aqui, manifesta-se como continuidade em meio à transformação.

Três modos de permanecer humano

Considerados em conjunto, Giacometti, Miró e Calder delineiam três dimensões fundamentais da experiência humana contemporânea:

Ser: o corpo que persiste, mesmo fragilizado (Giacometti)

Significar: o sentido antes de se cristalizar em linguagem (Miró)

Relacionar-se: o equilíbrio que se constrói no movimento (Calder)

Eles não ilustram teorias nem propõem sistemas fechados. Encarnam atitudes diante da vida após a perda das certezas, após a devastação histórica, após o colapso das ilusões de totalidade. Cada um, à sua maneira, recusou o espetáculo e escolheu a contenção, apostando que a simplicidade poderia sustentar profundidade.

Por que ainda importam

Em uma época marcada pela aceleração, pela proliferação de imagens sem densidade e pela redução dos corpos a dados e métricas, esses artistas revelam uma atualidade inesperada. Eles nos lembram que a arte não precisa gritar para permanecer. Precisa manter-se próxima daquilo que não pode ser otimizado, traduzido ou plenamente capturado (Cassin, 2004).

Permanecer de pé.
Ver com atenção.
Mover-se com cuidado.

Isso não é nostalgia do modernismo. É a lembrança de que, talvez ainda hoje, o gesto mais radical seja simplesmente permanecer humano.

Referências Bibliográficas

Sobre Alberto Giacometti

Lord, James. Giacometti: A Biography. New York: Farrar, Straus and Giroux, 1985.

Genet, Jean. L’Atelier d’Alberto Giacometti. Paris: Gallimard, 1957.

Sartre, Jean-Paul. “La Recherche de l’absolu.” In: Situations III. Paris: Gallimard, 1949.

Bois, Yve-Alain. Giacometti: Sculpture, Painting, Drawing. London: Thames & Hudson, 1991.

Sobre Joan Miró

Miró, Joan. Écrits et entretiens. Paris: Daniel Lelong, 1978.

Dupin, Jacques. Joan Miró: Life and Work. New York: Abrams, 1993.

Adorno, Theodor W. Teoria Estética. Trad. Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 2008.

Breton, André. Le Surréalisme et la Peinture. Paris: Gallimard, 1965.

Sobre Alexander Calder

Calder, Alexander. An Autobiography with Pictures. New York: Pantheon Books, 1966.

Krauss, Rosalind E. Passages in Modern Sculpture. Cambridge, MA: MIT Press, 1977.

Sweeney, James Johnson. Alexander Calder. New York: The Museum of Modern Art, 1951.

O’Doherty, Brian. Inside the White Cube: The Ideology of the Gallery Space. Berkeley: University of California Press, 1999.

Referências Teóricas e Contextuais

Arendt, Hannah. A Condição Humana. Trad. Roberto Raposo. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.

Cassin, Barbara (org.). Vocabulaire européen des philosophies: dictionnaire des intraduisibles. Paris: Seuil / Le Robert, 2004.

Didi-Huberman, Georges. Diante do Tempo. Trad. Vera Ribeiro. Belo Horizonte: UFMG, 2015.

Merleau-Ponty, Maurice. Fenomenologia da Percepção. Trad. Carlos Alberto Ribeiro de Moura. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

Agamben, Giorgio. O Que é o Contemporâneo? Trad. Vinícius Nicastro Honesko. Chapecó: Argos, 2009.

Catálogos e Fontes Museológicas

Fondation Giacometti. Alberto Giacometti: Le Sculpteur. Paris, 2018.

Centre Pompidou. Joan Miró: L’échelle de l’évasion. Paris, 2019.

Calder Foundation. Calder: Hypermobility. New York, 2021.

Carolina Ting escreve em Português do Brasil.

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