O futuro eterno agora

James Goodman escreveu provavelmente o livro mais esdrúxulo que já foi dado a ler, «O Futuro Eterno Agora»: um pequeno ensaio acerca de um teledisco dos Metallica, gravado em 1998, que nem sequer é uma canção da banda, mas uma versão de «Whiskey In The Jaar», canção popular irlandesa do século XVII, embora os rockers americanos façam uma versão partindo não do original, e sim de uma outra versão, da banda rock irlandesa Thin Lizzy, que gravou a canção no inicio dos anos 70. Esta canção conta a história de um salteador que acaba sendo preso depois de roubar um militar inglês, nas montanhas de Cork e Kerry. Mas isto é irrelevante para o escritor, pois aquilo que lhe importa é o desregramento que aparece no teledisco dos Metallica, gravado numa casa de Brooklyn.

Nas primeiras páginas, atravessamos aquilo que pode ser considerado a história das versões mais conhecidas da canção: The Dublinners, na década de 60 do século passado, os Thin Lizzy na década de 70 do mesmo século, que é a primeira vez que a música passa realmente para o mundo rock, depois no início da década de 90 uma versão mais rápida por The Dublinners e The Pogues, e por fim a cover dos Metallica, já no final do século XX. E esta é, para Goodman, a versão que importa abordar. E não tanto no disco, mas no teledisco. Porque o livro é acerca do teledisco da banda e não propriamente sobre a canção. Lê-se na pequena introdução: «A canção em si mesma não me importa tanto, poderia ser outra qualquer, desde que o teledisco fosse aquele. É, por conseguinte, um livro sobre um teledisco. E este mostra-nos os Metallica a tocarem numa casa cheia de jovens raparigas seminuas, em ambos os polos dos excessos: dançam, bebem, tomam drogas, têm sexo; caem, vomitam, adormecem. E isto tudo nos mundos fechados que são uma casa e um teledisco de pouco mais de 4 minutos. Aquela casa e aqueles 4 minutos representam mais do que um mundo, representam um modo de viver a vida.»

James Goodman tem agora com 45 anos, 39 quando publicou «O Futuro Eterno Agora», e está longe de ser um reputado escritor americano. Pelo contrário, raramente é convidado para revistas e nunca fez a capa de uma. Goodman ensina filosofia medieval no departamento de filosofia da Universidade Brown, no estado de Rhode Island. A sua tese de doutoramento, publicada depois de «O Futuro Eterno Agora», foi acerca da abstinência e tinha como título «Epicuro e a Mecânica de Controlo do Desejo». Nessa tese Goodman mostra como Epicuro, partindo fundamentalmente dos textos de Platão, funda uma mecânica de controlo dos desejos, de modo a poder alcançar-se apenas os prazeres bons e não aqueles que nos são prejudiciais. Esta acção, de separação do trigo do joio dos prazeres, é fundamental para se alcançar uma vida feliz, segundo Epicuro. Por conseguinte, para que tal pudesse ser alcançado com eficácia, seria necessário um conhecimento profundo da mecânica do desejo, para podermos controlar o desejo que nos poderia tirar do nosso caminho. No fundo, deixar-se levar por desejos que conduzem a prazeres nefastos conduz a perdermo-nos de nós mesmos. Ou seja, um homem deixa de ser ele mesmo quando se entrega aos prazeres que o desviam do seu caminho, os prazeres que lhe são prejudiciais. Como exemplo, Goodman mostra uma extensa paleta de vícios, desde o jogo à heroína, passando pela comida e pelo sexo. Mas a tese da abstinência de Goodman mostra também uma ligação estreita entre abstinência ou controlo dos desejos e futuro.

Ou seja, para Goodman, Epicuro liga domínio sobre os desejos com futuro, como um adiante, com a vida ter sempre um adiante de si. É esta consciência de que a vida é à frente, de que a vida não é aqui e agora, que leva Epicuro à criação desse mecanismo de controlo do desejo. Na sua tese, escreve: «Se a vida humana durasse apenas 30 anos, uma mecânica do controlo do desejo não seria tão importante.» Em «O Futuro Eterno Agora», escreve: «Com o rock’n’roll, e especialmente o punk rock, expandiu-se a ideia de que a vida depois dos 30 anos seria uma triste forma de vida. Do mesmo modo que para os antigos guerreiros morrer de velhos ao invés de no campo de batalha.»

Por conseguinte, parece evidente que estes dois textos têm uma ligação profunda entre eles. Se uma mecânica de controlo dos desejos faz todo o sentido numa vida que se dá conta do futuro, isso não faz qualquer sentido para quem veja a vida como um eterno agora. Para Goodman, o teledisco dos Metallica é uma obra-prima acerca desse eterno agora, de se viver como se não houvesse futuro. Na verdade, é mais do que não haver futuro. Eterno agora é uma ilusão de quem está de fora. De quem está num ponto de vista diferente ou radicalmente oposto, como o de Epicuro. Veja-se como o autor descreve: «O teledisco mostra pessoas que vivem de um modo, não que não contemplem o futuro, mas que o futuro será continuamente igual ao presente. Para aquelas pessoas, que podem ser personagens de um pequeno filme, embora representem um modo real de se viver, o futuro é um tempo que irá repetir o agora em que estão. É errado pensar que o futuro não está no seu horizonte de sentido. O futuro está no horizonte de sentido, mas no modo de um futuro eterno agora. Amanhã, o mês seguinte, o ano seguinte, a década seguinte será semelhante ao agora em que estão, apenas noutro tempo, com o mesmo desregramento, os mesmos desejos, os mesmos tipos de experiência. Ou seja, o futuro existe, mas não existe; ele não é preenchido, mas ilusoriamente preenchido.»

James Goodman conduz-nos a uma reflexão filosófica não apenas acerca dos excessos, mas também acerca da relação da vida que se vive com a consciência que se tem de futuro.

Termino com uma curiosidade. Às páginas 54-5, Goodman fala do som da banda nesse teledisco. Refere-se ao som pesado e mais grave das guitarras – em relação à também versão rock dos Thin Lizzy – como modo de acentuar o desregramento que está em causa em todo aquele «pequeno filme». Acrescenta depois que os Metallica tocam esta canção com uma afinação em C# (Dó sustenido). É provável que haja gravações ou espectáculos em que isso aconteça, mas no teledisco a que o escritor se refere os Metallica tocam com uma afinação em D (Ré), por conseguinte, não tão grave quanto Goodman nos quer dar a entender, embora bem mais grave que a dos Thin Lizzy, que tocava com a afinação clássica em E (Mi). Mas é um detalhe sem importância num texto que nos prende do início ao fim, não apenas pela inusitada reflexão, como também pela profundidade da mesma.

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Teresa Almeida Rocha
5 Jan 2021 17:27

Muito interessante. Obrigada pela leitura do artigo.

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JOSE GOMES
5 Jan 2021 19:26

Muito bom.