Nunca vemos

Alfonso Guillermo Ibarra, nascido em San Sebastian em 1978, publicou um romance em 2013 que rapidamente se tornou um clássico: «Nunca Vemos». O livro começa com este diálogo: «Estraguei tudo, pá, disse ele. Mal me tinha sentado à sua frente e perguntava-me como é que ele poderia ter estragado tudo e o que era esse tudo? Por insegurança, continuou ele, enquanto entornava mais vinho no copo, por me fazer passar por quem não sou, ou exagerar partes minhas até ao caricato. E eu continuava a não entender aonde ele queria chegar com a conversa. Mas não demorou que me respondesse: porque a verdade é que queria aquela mulher como a mim mesmo, aliás, mais do que a mim mesmo. E eu continuava a não entender nada; como é que se podia estragar algo? Como é que alguém pode estragar algo se dois não querem estragar?»

Assim, logo no início percebemos que se trata de um livro acerca da solidão. Da solidão dos encontros, isto é, da solidão que espoleta por existirem pessoas e elas nunca se entenderem, e da solidão maior, segundo um dos heróis do romance, Xavier, que é a de encontrar alguém que julgamos certo e não fazer nada por isso ou até fazer tudo para que isso não aconteça. Como brinde, o romance mostra-nos ainda a solidão de não nos fazermos compreender, mesmo àqueles que nos são mais próximos, amigos de longa data. Xavier leva todo o romance a falar – a um grande amigo – de um encontro que teve com uma mulher com quem viveu durante um mês, até que acabaram. É este amigo que nos conta a história. Xavier e Maitê acabaram, tendo ele a certeza de que ambos não deram o seu melhor «como se cada um de nós estivesse boicotando a felicidade». Durante o romance nunca ouvimos a mulher falar, nunca a conhecemos a não ser por palavras de Xavier. Percebemos que Xavier e o amigo, o narrador – Alfonso, o mesmo nome do escritor –, estão bebendo, e à medida que o romance avança Xavier vai ficando mais bêbedo e torna-se surpreendente como o final se liga ao que ele dizia no início, sem que no final o diga, mas mostre. No final, Alfonso entende perfeitamente o que pode ter acontecido a Xavier, que tentou explicar durante um romance inteiro sem se fazer compreender.

Como em determinado momento se lê: «Não conseguimos dizer o que sentimos, nem o que pensamos. E quando estamos próximos de o fazer, muitas vezes dizemos precisamente o contrário, julgando que isso poderia parecer mal, de tão estranho nos parece. Porque tudo nos parece estranho quando é bom. Alfonso, sinto que estamos perdidos entre o que não conseguimos dizer e o que queremos dizer.»

O livro pode ser lido como a génese de uma bebedeira, como a descrição alargada de uma dor de corno ou ainda como um elogio ao amor. Elogio no sentido em que o amor aparece no romance como aquilo que se almeja, embora não se alcance. Apesar de tudo é um elogio. Lê-se: «As palavras de Xavier levaram-me a pensar que o facto de ser tão difícil amar e ser amado mostra bem que se trata de um exercício que os humanos têm de praticar até ao fim; suspeito que os humanos nunca serão suficientemente bons no amor.»

Um dos interesses do romance é o facto de Alfonso, o narrador, amigo de Xavier, que passa o romance a falar de terem dado cabo do amor – por vezes diz que foi ele, por vezes diz que foram os dois, por vezes diz que é do humano estragar as coisas –, é padre. E este padre vai reflectindo acerca do amor erótico através do relato do amigo. É como se de algum modo fosse um olhar estrangeiro, pois Alfonso nunca sentiu esse amor, embora tenha lido acerca dele em romances e ouvido os seus amigos de escola, antes do seminário, falarem.

Assim, se de um lado temos alguém que, por experiência, julga que o amor está condenado a fracassar, de cada vez que se tenta, e mais fracassa quanto mais próximo parecemos estar dele, do outro lado temos alguém que, a despeito de não ter experiência e talvez por isso, vai fazendo tudo para salvar o amor dos fracassos humanos. Há momentos hilariantes nesse confronto. Como o caso em que Xavier conta «E depois eu não tenho nenhum talento em pedir desculpa ou em agradecer; dou as coisas por certas, como se fosse normal alguém me dar um abraço vindo do nada ou trazer-me uma garrafa de vinho da rua ou levar-me a jantar fora […]; e se me chamam a atenção, ou eu mesmo me dou conta de ter feito um gesto mal ou que deveria ter dito algo que não disse, não consigo dizer desculpa. Xavier, disse-lhe eu, o que tu tens é de treinar; começa por dizer várias vezes ao dia “obrigado” e “desculpa”, “obrigado”, “desculpa”, sempre que alguém falar contigo. Isto muito fez rir Xavier, o que por si só já foi um bem sem medida.» No fundo, embora em tom de brincadeira, o padre tem razão: tudo no humano é prática. Como ele diz um pouco mais à frente:

«Embora a prática possa não ser suficiente para tudo, talvez não nos faça mal nenhum em insistir nela.»
Infelizmente não vou ter tempo – e talvez não seja a pessoa indicada – para falar acerca da questão de estilo do romance. Mas, e como já devem ter visto, a escrita ocorre sem separação de voz, quer seja por aspas ou por travessões. Damo-nos conta de quem está a falar pela própria voz do narrador ou, melhor seria dizer, pelo contraste entre a voz de Xavier e a do narrador. A verdade, é que não nos damos conta desse artifício, ou pelo menos rapidamente esquecemos, tal é o ritmo de escrita que Alfonso Guillermo Ibarra nos impõe.

Nas últimas páginas do livro, Xavier, já muito embriagado, começa por dizer ao amigo que não devia tê-lo convidado para isto, para desabafar, para tentar que ele o entendesse, que na verdade foi uma estupidez, visto que ele nunca sentiu o corpo de uma mulher, que não sabe o que isso pode fazer a um homem. Nas últimas páginas, vemos um homem diferente do que vimos no início e do que fomos vendo ao longo do romance e percebemos como as coisas podem dar errado. Quero deixar claro, contudo, que as coisas não darem certo não tem apenas a ver com o excesso de bebida de Xavier, embora possa ter sido por isso ou algumas vezes isso possa ter ajudado. As coisas não darem certo entre a maioria das pessoas tem apenas a ver com a frase que o narrador pensa, quando Xavier vai pela última vez a caminho da casa de banho: «Faz-se tudo… tudo não. Mas há pessoas que fazem o que se pode para que nada dê certo.» É como se fôssemos cegos, como se nunca víssemos o bem que nos acontece. Porque, como pensa Alfonso, «[…] só por cegueira posso entender que alguém deite tudo a perder.» Mas deita. Não é só da nossa natureza perder, deitar a perder também. Mas no fundo é como diz o padre: nunca vemos. Porque deitar a perder é uma forma de cegueira.

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