Não foi antes de 1933. Uma demonstração contra as medidas sanitárias provocadas pela Covid-19 incluiu facções da Afd (Alternativa para a Alemanha) de extrema-direita. “Horror – Subida das escadas do Reichstag” lê-se no site do canal ARD. Mas na página do FB da AfD, lê-se:
“Assalto ao parlamento (Sturm auf den Reichstag)” e não “subida (Eskalation)” é o que se lê na página do FB da AfD.
Há uma invisibilidade mais difícil de detectar do que todas as outras. É quando tudo se faz às claras. Os prestidigitadores, os mágicos, mas também os desportistas exímios e como é óbvio os políticos mais hábeis são os grandes mestres da simulação e da camuflagem.
A finta consiste em dar a entender o sentido de uma acção diferente da que vai acontecer. Para simularmos é preciso sermos fazer crer ao outro que a nossa intenção se esgota na nossa acção, no nosso movimento, na nossa palavra. Temos de ser críveis. O CR7 circula alternadamente os pés sobre a bola. O adversário não sabe se o toque é da esquerda ou da direita ou quando acontecerá. O pugilista finge bater no rosto do adversário com uma mão para bater no tronco com a outra. O nosso olhar está absorvido pelas mãos do mágico sem folga para percebermos como tira o coelho da cartola. O que acontece na simulação, na finta, pode ser propositado, mas resulta do que nos acontece na vida, já assim sem darmos pelas coisas.
Esperamos que se dêem coisas que não acontecem. Há outras que, contra a expectativa, acontecem mesmo. O próprio modo como as coisas se dão é diferente do modo como esperávamos que fossem. Há um jogo complexo entre o que achamos que está visível no horizonte e depois o que vem a acontecer.
A invisibilidade mais difícil de detectar é a que se dá às claras. Podemos não querer acreditar no que estamos a ver e ser isso mesmo que está a acontecer. O elemento fundamental da simulação é o tempo. O futuro iminente cria a pressão necessária para termos uma percepção errada do que está a acontecer.
Esperar de pé, quando apetece é fugir ou atacar, produz a mesma ilusão como quando a mudança se dá. Tudo pode mudar para ficar na mesma. Tudo pode parecer que está na mesma e existe em metamorfose.
A verdade engana. O povo sabe do que está a falar. Um povo é levado pela verdade, sobretudo pelo poder eficaz com que as verdades são ditas. Elevamos quem nos diz as verdades mesmo que com a aura da impopularidade. Mas as verdades sempre foram ditas pelos demagogos.
A história repete-se quando o povo baixa a guarda.
A frustração da desilusão faz baixar a guarda. Os fantasmas são conjurados. Ergue-se o ideal de beleza, de triunfo. Nesse ideal de beleza e triunfo não cabem, por exemplo, os judeus ou os homossexuais (Otto Weininger, George L. Mosse), como se compreender pela história recente da Europa mas também os negros, transplantados de África para o ocidente. “Apetrechos dotados de alma” (Aristóteles) podem também ser crianças e mulheres e todos aqueles a quem lembramos sempre que vieram à existência pela porta dos fundos.
O discurso da transparência não usará de subterfúgios. Dirá a verdade. Não poupará palavras na denúncia. Fundará um partido para defesa da “nova ordem” das coisas.
Quem manda no partido pode ser um ressentido ou não. Sabe junto de quem há-de falar. É para os ressentidos. Todos nós, contudo, temos razão para o ressentimento.
Estar vivo é sentir-se ressentido. Temos a sede de totalidade, pelo simples facto de chegarmos à existência. Mas houve sempre alguém que nos impediu de vingar e depois de ter sucesso. Para o homem do ressentimento a força de bloqueio não é apenas quem detém privilégios, a gente bela, as pessoas de sucesso, os que triunfaram. São os outros como eu que estão a mais. O paradoxo é que todos sem excepção estão a mais se não forem os meus. Os outros não deveriam ter direito a nada.
O ressentimento pode adormecer mas é acordado. Os poderosos sempre souberam acicatar os ânimos. A Krypteia, a polícia secreta espartana, actuava como rito iniciático para os jovens. Abatiam hilotas (a casta dos escravos que trabalhavam a terra) em “raides”. Desde sempre soubemos espalhar o terror. Não pensava Calígula “odeiem-me à vontade desde que me temam (oderint dum metuant)”?
Às claras, alastram pela Europa, Portugal não é excepção, manifestações de apego à tradição e ao caracter puro, enraizado das etnias. A alemã AfD (Alternative für Deutschland) voltou a dar sentido às “Mahnwachen (vigílias)”, numa manipulação clara do descontentamento da população contra as medidas sanitárias provocadas pela Covid-19. As manifestações “contra” têm um sentido completamente novo, porque procuram negar a evidência da presença de um mal. Negar as medidas contra o Corona vírus é negar a existência do vírus, como negar as manifestações contra o racismo é negar o racismo. As manifestações destes partidos são anti-manifestações. Não são afirmações da realidade. São formas de perpetuação do escondimento da realidade.
Os novos demagogos não têm, como Giges, anéis que os tornam invisíveis. Não precisam deles já. Dizem tudo às claras. Quando o mal é dito às claras, já não estamos perante uma afirmação. Estamos perante uma ameaça, e há ameaças que devemos levar a sério.












































































































