Até sempre

Da janela à porta são doze passos. Amanhã vou poder dar treze. De porta aberta e malas em punho, vou de uma ponta, não para a outra, mas corredor fora, rumo ao ar.

“Olá, está a começar o Muholland Drive no canal 12”. Avisa-me, de manhã, o Mário. David Lynch para acordar poderia ser estranho não fossem os tempos que correm. ”Já vi, mas vejo de novo” respondi. Enquanto o filme corria na Lotus, ligam-me dos Serviços de Saúde. “Amanhã é o seu dia de saída. Como se sente?” “Quando sair vai passar pelos nossos funcionários, etc, etc, etc.” Ao mesmo tempo, os telefones do Lynch tocam, uns a seguir aos outros com recados entre mundos e sincronizados com o deste quarto.
Vou sair amanhã para um lugar que desconheço.

Lá fora vou encontrar um mundo dolorosamente suspenso. Mas dentro de mim, o Mekong continua vigoroso num dia de calor e trovoada, e o sol nasce em Ankor. As montanhas de chá de Munar estão temperadas com pimenta e caril. O Cristo Rei da cidade maravilhosa dança o samba e a chapada de Minas rouba a vista. Perco o ar lá nas alturas de Bogotá com o meu irmão, e perco-me a mim nas tentações de Cartagena. Corro a cavalo na estepe mongol onde o silêncio tem peso e a aguardente é de leite de égua. Subo à Grande Muralha e salto pelo dorso do dragão que contorna as montanhas até ao infinito. Dou a curva por Chengdu entre pandas, budas gigantes e o bairro tibetano. Descanso com o Yuqi em Yang Shuo, terra dos sonhos. Salto para o capim de Malange e paro em Luanda para dar um beijo à Tânia. Corro além da Taprobana antes de beber um copo de vinho à luz do sol poente no Índico. Como na rua em Hanói e trespasso os buracos que o tempo faz nas montanhas de Ninh Binh com a Andreia. Mergulho na transparência do mar verde de El Nido e ando de bicicleta em Ko Yao Noi. Em Vinales, danço salsa no baile da associação e faço um mojito matinal para brindar com a Cristina. Perco-me nos labirintos de Yazd e subo aos telhados de Kashar para depois comer romãs e melancia num piquenique, no deserto, a caminho de Isfahan, sempre rodeada da melhor gente. Mais tarde, vejo o Evereste de uma aldeia perdida nos arredores de Katmandu. Está tudo em pausa. Mas tudo lá. A aguardar que o mundo volte a ser qualquer coisa.

Entretanto, quero fazer o trilho da montanha, respirar verde, nem que seja dentro de uma nuvem. Quero a minha varanda com a lomba no meio para me desviar dela a caminho do vaso de orégãos cubanos que a Sara me ofereceu.

Quero ver as caras todas, ao vivo.
A todos, obrigada pela companhia, pelo conforto e pelo afecto.
Bem hajam.

Até sempre

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