As manhãs todas do dia de hoje

Utilizamos e pensamos a palavra “referência” para nos situarmos. É um situar vago, convenhamos. Se me contam qualquer coisa que se passou, eu crio um feixe de linhas que liga aquilo que ouço a um ‘plateau’ de cinema imaginário onde eu próprio construo as peças e faço a montagem. A relação entre as palavras e o mundo depende, pois, bem mais do modo como as palavras são por mim usadas do que pela sua (mais do que) hipotética imersão na realidade.

Sem dar por isso, vou referenciando o que me contam, mas já estou inevitavelmente a ficcionar. É o que fazemos na maior parte do tempo. O que torna possível a ficção é um conjunto de convenções estranhas à linguagem (e ao aparato semântico que a sustém) que, de um momento para o outro, corrompe as regras que fabricam as pseudo-afinidades entre as palavras e o mundo.

Nas suas enseadas próprias, a linguagem aponta sempre para objectos inexistentes. O que os faz existentes é a nossa capacidade de criar sentido e de evitar o caos. Por isso mesmo, vejo-me a repetir com as minhas próprias palavras um pouco da história que acaba de me ser contada, apenas para que o interlocutor depois diga – “Sim, sim, foi isso mesmo”. Concordamos, sorrimos, levantamos as mãos um para o outro e sonhamo-nos a coabitar o mesmo universo, mas estamos inevitavelmente sós.

Convenhamos, no entanto, que há histórias e histórias. Se leio um poema, nem chego a ter a oportunidade de criar o meu pequeno cinema com a sua lógica de planos, ‘frames’ e sintagmas. De repente, já estou no ar a voar e a procurar a osmose perfeita. Tudo aquilo que o poema referencia é como uma lança que parte para não atingir alvo nenhum. Sou eu que construo a paisagem que ele atravessa e não tanto os pontos de chegada da lança que ele também é. O sentido é aqui uma amplitude em movimento que escapa à compreensão, mas que me atira para dentro de um aquário em que tudo é nítido, definido e com aquela improbabilidade das coisas mais prováveis.

Pego no primeiro poema de ‘País possível’ (1973) de Ruy Belo, ‘Morte ao Meio-dia’, e estou imediatamente a ver-me nas ruas de domingo desertas, quando os relatos de futebol invadiam o asfalto sem bermas e havia pides com os jornais abertos atrás das montras dos cafés: “No meu país não acontece nada/ à terra vai-se pela estrada em frente/ Novembro é quanta cor o céu consente/ às casas com que o frio abre a praça// Dezembro vibra vidros brande as folhas/ a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal/ que o mais zeloso varredor municipal/ Mas que fazer de toda esta cor azul/ que cobre os campos neste meu país do sul?”. Todo este fim de ano é o fim de um mundo que se habita e para o qual a alegria e o fulgor (“toda esta cor azul”) parecem inúteis e se interrogam. Nitidez total.

Pego no segundo poema de ‘De Ombro na Ombreira’ (1969) de Alexandre O’ Neill e a viagem é idêntica: “E de novo, Lisboa, te remancho/ numa deriva de quem tudo olha/ de viés: esvaido, o boi no gancho/ ou o outro vermelho que te molha” (…) “Groselha, na esplanada, bebe a velha./ e um cartaz, da parede, nos convida/ a dar o sangue. Franzo a sobrancelha:/ dizem que o sangue é vida; mas que vida?// Que fazemos, Lisboa, os dois, aqui,/ na terra onde nasceste e eu nasci?”. O poema faz o mesmo retrato e coloca a mesma pergunta: que fazemos nós aqui, neste ermo povoado pela lança que nos atira para o nada, ou seja, para a angústia? Nitidez total.

O mundo que se referencia nestes poemas não existe. Para quem nunca viveu naqueles anos (entre 1969 e 1973), é óbvio que assim é. Pode dizer-se o mesmo para quem habitou aqueles anos, na medida em que a memória do vivido fica a flutuar numa retenção que jamais se levantará na nossa frente. A nitidez expressa pelos dois (excertos dos) poemas que acima transcrevi tem uma natureza puramente ficcional, mas sem pré-requisitos. Os esboços que nos propõem constituem, tal como escrevi aqui numa outra crónica, um modo de descompensar as anamorfoses do mundo. São eles – e não os textos que visam e vivem de um putativo realismo – que melhor idealizam a experiência e as suas reverberações espalhadas no tempo. A nossa vida (ou a nossa facticidade, como soletram os filósofos) é a arqueologia por vir que nos anima já as manhãs todas do dia de hoje.

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