Onde o mar se acaba e a terra começa

Não, não é engano. O título deste texto é mesmo “Onde o mar se acaba e a terra começa” e não “Onde a terra se acaba e o mar começa”, como Luís de Camões escreveu numa das estrofes do canto III dos Lusíadas:
Eis aqui, quase cume da cabeça
De Europa toda, o Reino Lusitano,
Onde a terra se acaba e o mar começa,
E onde Febo repousa no Oceano.
Este quis o Céu justo que floresça
Nas armas contra o torpe Mauritano,
Deitando-o de si fora, e lá na ardente
África estar quieto o não consente

Vem este texto a propósito do que está gravado numa placa do monumento que se encontra perto da cidade Choshi, junto ao farol do Cabo Inubo, o local mais a leste da prefeitura de Chiba, no Japão: “Cabo Inubo e Cabo da Roca – Monumento à amizade – Aqui… Onde o mar se acaba e a terra começa”.

A situação geográfica deste cabo faz com que fique sujeito com certa frequência à ação de tempestades tropicais e tufões.

Na parte oeste do Pacífico Norte os ciclones tropicais (tempestades tropicais e tufões) formam-se em geral no bordo sul do anticiclone subtropical característico dessa região, estatisticamente entre as Ilhas Marianas e as Filipinas, deslocando-se para oeste à medida que intensificam, progredindo em seguida para noroeste e norte, atingindo um ponto em que as suas trajetórias invertem o sentido passando o movimento a ser para nordeste ou leste, acabando por atingirem as latitudes médias. Ao progredirem neste trajeto afetam com certa frequência o Japão, nomeadamente a sua maior ilha, Honshu, onde se encontra o cabo Inubo. Foi na sequência de um tufão que causou o naufrágio de um navio de guerra japonês que provocou 13 vítimas mortais, em outubro de 1868, que surgiu a necessidade da construção de um farol neste cabo, cujo início de funcionamento se reporta a 1874.

Sensivelmente à mesma latitude do Cabo Inubo, no extremo oeste do continente euroasiático, no Concelho de Sintra, freguesia de Colares, também surgiu a necessidade de se erguer um farol no Cabo da Roca, não por causa de ciclones tropicais, mas devido à frequência de nevoeiros e à forte agitação marítima causada por sistemas frontais no inverno e forte nortada no verão. Antes do século XIV acreditava-se na Europa que os penhascos do Cabo da Roca, varridos quase permanentemente por vento forte, eram a extremidade do mundo, o que inspirou Camões para escrever o célebre verso da estrofe do canto III. O farol do Cabo da Roca, um dos mais antigos do nosso país, foi mandado erguer durante a vigência do marquês de Pombal, tendo começado a funcionar em 1772, cerca de cem anos mais cedo que o do Cabo Inubo.

O nome do Cabo Inubo provém da junção de dois carateres chineses, o primeiro dos quais significa cão e o segundo uivo. Uma das várias explicações desse nome é a de que nessa região eram frequentes as concentrações de leões-marinhos, cujo som emitido é semelhante ao uivo dos cães. Há, no entanto, outras versões, nomeadamente a que se baseia na lenda que narra que um cão ali perdido uivou durante sete dias e sete noites. Se fosse um cão qualquer não seria motivo para inspirar uma lenda, mas tratava-se do animal de estimação de Minamoto no Yoshitsune (1159-1189), um dos mais famosos samurais da história do Japão.

O Cabo da Roca tem também sido fonte de lendas, das quais sobressai aquela em que um menino de cerca de 5 anos fora raptado por três bruxas e largado num buraco próximo do Cabo da Roca.

Tendo ouvido o choro da criança, uns pastores deram o alarme e o menino foi salvo pelos habitantes de uma aldeia próxima. José Gomes, era esse o seu nome, contou à mãe que durante o tempo que esteve no buraco fora alimentado com sopa de cravos, por uma senhora muito bonita.

Mais tarde sua mãe, para agradecer o resgate, foi rezar numa igreja onde estava uma imagem de Nossa Senhora, tendo a criança afirmado que fora aquela senhora que o havia alimentado.

À semelhança da inscrição gravada na placa perto do farol do Cabo da Roca (“Onde a terra se acaba e o mar começa”), as autoridades de Choshi decidiram colocar uma placa perto do farol do Cabo Inubo, com uma frase análoga, numa manifestação de amizade para com o povo português. Nessa placa estão gravadas as coordenadas de ambos os cabos.

Tive conhecimento deste assunto em conversa com Minoro Kamoto, na altura presidente do Grupo de Trabalho de Hidrologia do Comité dos Tufões, com sede em Macau desde 2007, quando lhe disse que vivia em Portugal a cerca de 15 km do Cabo da Roca, o local mais a oeste da Europa continental. Deixou-me curioso quando me deu a conhecer que visitara o cabo Inubo, tendo-se referido ao monumento com a inscrição “Aqui… onde o mar começa e a terra acaba”. Também me falou da existência de um vídeo que circula na Internet, intitulado “Inubousaki and Roca Cape – Friendship Monument” (https://www.youtube.com/watch?v=l3U5iCyeJLs), onde tive a oportunidade de me inteirar sobre a atitude amistosa das autoridades japonesas de prestarem homenagem à amizade luso-japonesa através da inscrição junto ao farol de Inubo.

Numa época em que se constroem muros entre os povos, é com satisfação que se toma conhecimento que também se edificam pontes.

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