Estudar o espírito

A autocracia é o único “sítio” onde se estuda o espírito das palavras, fora da religião e da filosofia. Nestas duas últimas disciplinas, tenta-se chegar à luz ou conhecimento esmiuçando significados, analisando textos, desmantelando teses. Na dimensão política onde se reverencia um líder como uma divindade multiplicam-se os estudos aprofundados das obrigatoriamente sábias palavras do líder.

É o que temos assistido com Xi, como prova a carta que enviou recentemente a um centro de apoio a idosos de Macau. O homem não pode pedir uma tijela de arroz sem que o pedido se transforme numa espécie de evangelho anunciador de nutrição, sem que venha alguém dizer que as palavras do líder contêm todos os nutrientes essenciais à vida. A idolatria faz isto mesmo, cria mitos a toda a hora, transforma trivialidades em fenómenos quase divinos e revela o grau de lealdade dos seguidores.

Não estou a dizer que estamos perto dos níveis de comoção exigidos nas aparições públicas de Kim Jong-un, mas seria bom testemunhar alguma contenção por parte dos líderes locais. No caso desta última missiva, será mesmo necessário um estudo profundo para entender as palavras do Presidente? A mensagem pareceu-me simples. Além da cordialidade, ficou expresso o desejo de que os mais velhos ficcionem a história da China e de Macau para apenas englobar os progressos socioeconómicos. Não me parece que o amor permita a transmissão de factos históricos desapaixonados e sem sensibilidade ideológica. Isso sim mereceria um estudo aprofundado.

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