Volúpia de grafite

Galeria do 11, Setúbal, 31 Agosto

 

Por razões de mera logística, acabei perdendo um daqueles momentos de fruição, o lançamento de obra aparelhada em magnífico cenário, novo e maduro fruto da paixão do Jorge [Silva]: «M. Lapa – Ilustração». Para já, vai deslumbrando, e com isso apaga, nem que seja por instantes, a longa travessia da instável ponte dos orçamentos apertados, das burocracias ameaçadoras, dos perigos constantes, como se dançássemos na ponte bamba sobre desfiladeiro vertiginoso em plena selva, na ilustração expressionista de Lapa, pejada de animais selvagens do mais variado tipo. O grande gozo está na partilha, no desocultar, afastando pesada cortina, do trabalho prolongado e discreto, daqueles que foram fazendo chão, cenário sem importância do que por nós passa. Não me custa, gordo-burguês que aprendi a ser, afastar as questões ideológicas, para desfrutar apenas das imagens. Há muito folheio as páginas da revista «Atlântico», em qualquer afã instrumental, ou apenas para me deixar levar na cadência gráfica da tipografia e do desenho, arremedo da arte antiga da iluminura a seduzir olhar e gesto, o do manuscrito e o dos que queiram entender a disposição da linha, a sempiterna enigmática ocupação da folha. Tenho para mim que um dos momentos de maior fulgor da civilização encontra-se na definição da página como horizonte maior da leitura, terreno de saber e imaginação. Não páram de se suceder os deslumbramentos, alguns menos óbvios, tal os esboços.

Tenho que me controlar para regressar a este texto, desobedecendo ao apetite de continuar a folhear. O inacabado abre uma janela para o processo, para o pensamento em acção, como papel e o lápis ou o marcador, enfim, os materiais, também eles a dizer do gosto, do equilíbrio e do seu contrário. Aprecio o incerto, como fresquidão da cerveja na garganta, pelo que me perco com facilidade nos bastidores do inacabado. Com a inteligente simplicidade que colocou na arrumação de mais este volume, o Jorge alimentou este meu vício com secção ocupada com indicações de futuras paginações de vários livros e revistas, como a Prelo, da Imprensa Nacional Casa da Moeda, mas denunciando nesse caso um interesse pela fotomecânica que afecta a costela romântica do desenho, aquela a sujo de grafite.

Bela, Lisboa, 3 Setembro

Na pauta do verso dito nas colinas da cidade, as «Primas Terças», do mano André [Gago], soam a veterania. [Georg] Trakl foi a floresta escolhida para se erguer na noite, ventosa como convém aos expressionismos chiaroscuro. A celebração de Baco começou antes, no Santa Clara Mix Café, do Jacinto [Gameiro] e da Cila, anfitriões de rara qualidade, que resolveram assentar arraiais ali na beira-panteão. A incorrecção política será castigada, mais tarde ou mais cedo, pelos polícias do gosto, mas interessa sobretudo o bem servir e melhor acolher. Para a função estavam convocados o Carlos [Barretto], que rasgou paisagens no espaço acanhado, o [José] Anjos, na voz cava, e, além do anfitrião-orquestrador, o tradutor e ressuscitador-mor das línguas-mortas, António [de Castro Caeiro]. Brilharam intensidades, em certos casos, no extremo da comoção. Com ponta de estranheza, o poeta aconchegou-se aos meus dias. «Sobre o canto negro, precipitam-se,/ À tarde, os corvos com um forte grasnar./ As suas sombras tocam, ao de leve, nas corças,/ E, às vezes, são vistos a descansar de mau humor.// Oh! como eles perturbam o castanho sossego,/ No qual um campo se exalta / Como uma mulher que um grave pressentimento enfeitiça,/ E, às vezes, podem ouvir-se crocitar.// Por causa de uma carcaça cujo cheiro algures sentiram./ E, de repente, dirigem o voo para norte/ E desaparecem como um cortejo fúnebre/ Na atmosfera que estremece de volúpia.»

Horta Seca, Lisboa, 10 Setembro

A visão de Robert Frank (1924-2019) não acenderá mais nenhuma câmara. As redes encheram-se das suas imagens, das poucas que resistem ferozmente ao desgaste da incessante multiplicação de imagens. Até ao zero absoluto, o do banal indistinto em nos vemos mergulhados. Milhares de imagens serão ainda mais traficadas por estes dias, meia dúzia de bytes, que não valem uma ampliação sem distorção, mas pouco afectando o seu carácter esmagador que nem cavalo erguido sobre as patas traseiras. Cavalgando as regras, todas e cada uma, as imagens de Frank são momentos de real, abrem a cortina para o teatro que aconteceu naquele exacto lugar, com aquelas pessoas de nome próprio, em conjunto crescendo por inteiro e excessivo, carnal e bruto, etéreo e luminoso, enfim, humano. Era um raptor de histórias. Não sabíamos do tecido do humano até lhe vermos as fotografias. E por isso colecciono para os dias de Inverno e Setembro os seus auto-retratos, mesmo aqueles nos quais inclui outros, por exemplo o da companheira, suprema ternura. Que tem isto a ver com a frieza da banalidade omnipresente nas selfies destes dias? Nele, o humano ergue-se e desafia a escultura: vês que esta ruga não se fez monumento?, sentes o sangue nesta mão?, percebes que existo por causa destes olhos? Somos mais quando somos capazes de ir ao teatro vermo-nos nos outros, corvos saltitantes nos pastos da dor e da alegria. Não sabíamos quem éramos, que corpo tínhamos, de que alma viemos ou iremos, até entrarmos nas fotos de Robert Frank.

Horta Seca, Lisboa, 10 Setembro

Deixam de ser, para o nosso sempre, íntimo e talvez intransmissível, dias iguais. O calendário de Setembro está picado pelos corvos, umas vezes poisam na pedra do mau humor, noutros grasnam ao desafio pontuando os céus. Há uma estranheza de verso na circunstância de assinalarem tantos e tão queridos. O negro dos corvos brilha de tão definitivo e não sei bem como o interpretar.

Horta Seca, Lisboa, 16 Setembro

Sabemo-lo, coisa crónica na dita, refrão acompanhado à guitarra pela morte: as segundas-feiras são um concentrado de ansiedade, um nó cego de urgências e desatinos. No meio de mais esta fruste tentativa de, através da palavra, encontrar sentido no que faço – na bisga, sempre na bisga – vejo-me entalado entre inventar tentativa para dar cor à palidez da presença no pavilhão 61, da Feira do Livro do Porto, e rever em definitivo a nossa participação no Fólio deste ano, em torno de «O Tempo e o Medo», e no qual o Hoje Macau deixará também a sua marca. Isto para dizer o mínimo do «instantece» agora mesmo. Já agora, o programa promete, sobretudo nas entrelinhas do que se escreve com holofotes.

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