A fragância do riso

Menina e Moça, Lisboa, 3 Outubro

Sem conseguir estancar a sangria, parar o relógio, cegar a agenda, por entre idas e vindas ao Fólio, dou uma saltada à Menina e Moça, a livraria da Cristina [Ovídio], entalada entre alcatrão pink e céu tintado pelo [João] Fazenda. Trouxe comigo o Rui [Garrido], de modo a podermos concluir se quem vê capas também pode ver corações. Indisciplinadamente, ou não estivéssemos sentados em mobília de infantário a beber como gente grande, discutimos muito para pouco concluir. Apesar da venenosa massificação, e da desatenção comercial, encontramos livros desenhados com cuidados de leitor, a procurar oferecer à primeira vista, ao primeiro toque, um sinal do que lhes vai no miolo. O livro a esticar-se objecto, quase um ser, pelo menos para os sentimentais que neles veem amigos, ferramentas que mudam vidas. O Rui contou da sua experiência de muitos anos e formatos e encomendas e cretinos, ajudando a desmontar essa ideia-feita de que a capa pode ser responsável por fazer ou desfazer bestas céleres. Ou até que deva ser pensada dessa maneira tacanha e desviante. Nas grandes fábricas da livralhada asséptica, tudo começa e acaba aí: na suprema ideia de venda. Nem que seja ao engano, prometendo por fora tema ou experiência ou escrita ou qualidade que não se encontra dentro. O Rui já nos ofereceu logótipos, ergueu grandes livros, pintou capas, e posso testemunhar da inteligência atenta a cada detalhe e desejosa de brincadeira. Por aqui sacrificamos, ainda que em cadeiras de adulto, ao deus lúdico.

Facebook, 6 Outubro

Divertida, a maneira como Bansky voltou a navalhar a arte enquanto jovem assunto. Serão feridas, serão arranhões, que a morte não bate assim? Três ou quatro fitas para reflectir na encenação: a galeria desconhecia por completo a moldura armadilhada? E uma com bomba incluída, passaria nas análises dos peritos? Quem o foi o primeiro dono da peça, ele próprio, orquestrando a cena? Era suposto a menina ser toda rasgada, ou o rosto escondido, o corpo cortado e o balão esvoaçando propõem nova versão? Há meias-destruições? A obra agora consiste apenas na moldura com original estraçalhado ou deve incluir os olhares e as expressões e os murmúrios durante a performance? Outras duas para pensar na atitude: Bansky quer mesmo fugir do mercado, fazer das ruas a sua galeria, das redes o lugar de debate? Que outra expressão artística se alimenta tanto da (auto) crítica como as plásticas? Por junto, eis mais umas quantas golpadas para o dinheiro, motor do velho assunto arte: a menina agora fendida vale mais, muito mais que o milhão que a arrematou. E o valor artístico mede-se em contado? Milagre da multiplicação do vazio. Valha-nos S. Dada. Um balão, neste espelho, nunca será apenas um balão.

Fundação Eugénio de Almeida, Évora, 13 Outubro

O Pedro [Proença] desafia tempestades anunciadas com inauguração em Évora, que ficará Março do ano que aí vem correndo contra mim. «O Riso dos Outros», mais do que exposição, instalou-se por uma boa dezena de salas e em nós como máquina produtora de histórias, de personagens, de reflexos e reflexões, de experiências sensoriais. O Pedro não pára um segundo, nem de pensar e menos ainda de fazer, em excesso celebratório de uma invejável alegria de viver. Tenho assistido com prazer à desmultiplicação de heterónimos que fazem vida a experimentar as relações das imagens com a literatura, da palavra tornada imagem, etc.. Se por um lado, a arte se deixa pensar em toda a sua gramática, nos seus processos, por outro, a bichocarpinteirisse criou, além de um sem número de livros, algumas passagens à parede destas ideias. Nesta mais recente, desmultiplicou-se em curador, João Gafeira, para convocar à livre criação sete artistas: John Rindpest, Sandralexandra, Sóniantónia, Pedro Proença, Rosa Davida, Pierre Delalande e Bernardete Bettencourt. Podemos, portanto, experimentar instalações, gigantescos frescos, colagens, fotografias, jogos com etiquetas-títulos-aforismos, pintura de frases e seus duplos, postais de viagens ao imaginário das viagens, formatos variegados, poesia solta, sarcasmo avulso [ver foto algures na página], telas. O jogo faz-se em idas e voltas ao texto, nas legendas e enquadramentos, nos títulos, nas frases soltas, claro, nas biografias. Há por aqui qualquer coisa de Oulipo, que nos convoca ao jogo de espelhos, a continuar a produção. Sofro de afecções peculiares suscitadas por cada um dos artistas incarnados, mas o Rindpest com a sua pintura de palavras toca-me mais além: «eu sou o texto que trai a sua sombra». Se parece artificial, tal se deve à minha inabilidade, que no Palácio da Inquisição, ampliada pela lente do humor inteligente, acontece muita vida, carne, sangue, suor e lágrimas. E, se a vida fede, como diz o Henrique [M. B. Fialho], em um dos seus contos, há que crer na «revolução interna que ajude o corpo a exalar uma fragância simpática, agradável, aprazível, a fragância do riso».

Biblioteca, Oeiras, 13 Outubro

«Geração Espontânea», o ciclo de conversas de «novos autores da língua portuguesa com o seu público» incluiu este mês o Valério [Romão]. A terra não tremeu com a conversa, orientada pelo José Mário Silva, mas não carecia. Uma primeira surpresa confirma a velha ideia de que as bibliotecas conservam tesouros. A receber-nos, um primeiro «romance», que o autor renega com (imberbe) veemência. Nenhum dos mais recentes estava à vista, embora disponíveis no final. Estavam, contudo, nas mãos dos leitores. E aqui reside a segunda surpresa, um lembrete para quem que ache tempo perdido tais sessões (quem nunca?): no final, as intervenções foram pura curiosidade, dúvidas luminosas e comentário inteligente. As bibliotecas ainda conservam leitores.

Casa da Cultura, Setúbal, 26 Outubro

Multiplicaram-se por estes dias cinza as vezes em que me sentei ao lado do Henrique [Manuel Bento Fialho], e delas todas conservo a rara sensação de que a conversa nos saiu, mais a ele, que a mim só me cabe suscitar, prazenteira e fluida que nem flume, rio ardendo na corrida para a foz que não chegará nunca. Desta vez, e para além do costumeiro distribuir de jogo sobre «A Festa dos Caçadores», mostrando aqui e ali um trunfo, o Henrique ergueu-se apreciador e intérprete do Zeca [Afonso]. Acabámos a trautear, mais ele, que só me cabe desafinar, a surrealista ternura: «Era um redondo vocábulo/ Uma soma agreste/ Revelavam-se ondas/ Em maninhos dedos/ Polpas seus cabelos/ Resíduos de lar […]»

Prazeres, Lisboa, 29 Outubro

As almas livres também se perdem? Só deambular á toa permite a descoberta. O Zé [Sarmento Matos] (1946-2018) ia sempre um pouco mais longe, mais adiante, e não apenas no calcorrear da cidade. Não se limitava a recolher informação, que o fazia e como poucos, mas arriscava interpretações. Com risco. Dava ideia que os seus passos faziam cidade, desenhavam-na. E os seus olhos tiravam da sombra, iluminando, o esquecido, o ignorado, o oculto. Lisboa não lhe escondia nada. Fez livros, não tantos como devia, mas o que trouxe a lume garante-lhe lugar de destaque na olissipografia. Devemos-lhe, ainda, a toponímia mais aventurosa do mundo e arredores. Por causa do Zé, Lisboa tem tatuada na pele ruas como a da Ilha dos Amores ou travessas Sandokan, Sinbad o Marinheiro ou Corto Maltese.

Na despedida, o ataúde não entrou à primeira na cripta dos escritores. O que não te deves ter rido… Não, não foi erro de construção arquitectónica e coiso. A cidade apenas não estava preparada: falta um beco, que seja, com o teu nome. Não esperas pela demora.

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