Palas nos olhos

A descaracterização que está a ser feita da larga maioria dos manifestantes de Hong Kong provoca-me urticária pela injustiça que implica. Já foram agentes da CIA, agora são terroristas, emissários de Steve Bannon (entrando em contradição com a tese CIA), putos mimados (apesar dos protestos serem transversais à sociedade), putos sem casa e em desespero socioeconómico, estudantes influenciáveis, lavados cerebralmente por influências externas que nunca se materializam, manifestantes profissionais pagos pelo Dr. Evil.

Tudo, mais alguma coisa e coisa nenhuma em simultâneo. Pelo meio, tapam-se os olhos à coisa mais evidente para alguém que vai a Hong Kong e que tem lá amigos. Existe uma identidade Hongkonger que em muitos aspectos é antagónica ao patriotismo forçado que não admite crítica ou dissidência.

Além disso, há um sentimento de desespero que se agudiza à medida que direitos e liberdade entram em erosão. Depois temos um Governo que não existe além da polícia e da força, que não tem qualquer interesse em ouvir as preocupações da população, mesmo quando 1/3 vem para a rua mostrar o seu desagrado.

A mera suspensão da lei da extradição deixa a pairar um fantasma legal que abre portas ao envio de pessoas que vivem no segundo sistema para um país onde a justiça rapta, espanca para arrancar confissões, detém sem acusação e que em tudo é distante de um Estado de Direito.

Em Macau vive-se com palas nos olhos, sem noção do que é o primeiro sistema, mas ele vem aí. Talvez nessa altura percebam porque se manifestavam aqui ao lado.

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