A grande dama do chá

Estar atento é a prioridade máxima, dissera-lhe Jin Shixin. E Cândido não se esquecera. Agora, mesmo quando se deslocava a pé para casa, tomava atenção aos sons e às sombras. E, também, aos raros transeuntes que passavam por ele. Aquela hora, só se cruzou com chineses e com alguns marinheiros que cambaleavam, sem saberem o destino. A noite estava calma. A brisa que durante a tarde tinha aparecido, extinguira-se e uma lua quase cheia brilhava sobre Macau. Cândido deixou-se dormir quando chegou à cama, mas foi atormentado por um pesadelo. Caminhava numa floresta de bambus, numa confusão de luz e sombra. Era perseguido e durante muitos minutos não conseguia distinguir o caminho que deveria seguir. O sangue escorria do seu corpo. Matara alguém. Quem? Acordou, sobressaltado. Procurou o corpo de Jin, mas nada encontrou ao seu lado. Ela não estivera ali. O suor escorria-lhe da testa. Levantou-se e foi sentar-se junto à janela, que abriu, para ver se entrava algum fresco que o despertasse.

Uma ave nocturna cantou. Se não fosse isso, Macau estaria em silêncio. Cândido sabia que as aves não cantam por estarem felizes ou tristes. Fazem-no para contactar com o que as rodeia.

De noite cantam de forma mais intensa. E isso serve para confundir os predadores. Os seres humanos talvez não sejam muito diferentes, quando escolhem a noite para soltarem os sentidos.

Todos esperavam, pensou Cândido. Ninguém duvidava que estava a caminho uma devastação em escala nunca imaginada. Os pássaros ainda cantavam, mas a contagem final já começara.

Cada vez chegavam mais pessoas fugidas da China. Contavam coisas inimagináveis. Pareciam perdidas e alguns, com dinheiro nos bolsos, procuravam uma consolação qualquer, fosse o jogo, o ópio ou as mulheres. Nessa noite, enquanto falava com Prazeres da Costa, Cândido pensara neles. Aquele estava feliz e triste. Amélia pressionava-o, cada vez mais. Queria deixar o marido e ir viver com ele. Ela rezava todos os dias e ia à missa em busca de conforto e de formas de expiar a sua culpa. Mas a infelicidade de Prazeres da Costa vinha-lhe da falta de dinheiro. Já um pouco embriagado, ele disse-lhe:

– Deus, para mim, só existe quando olho à volta, para as belezas da natureza. Para as mulheres.

A noite estava triste e a aurora ainda longe. Prazeres da Costa era um homem cansado de si mesmo. Nada que espantasse Cândido. Ele próprio, até agora, sempre estivera em guerra comigo próprio, para o bem e para o mal. Na sua cabeça havia uma discussão constante, um reencontro com os seus demónios, sobre ter de decidir, ter de tomar partido. Foi então que Prazeres da Costa lhe perguntou:

– Já decidisse?
– Já.

Prazeres da Costa fez um largo sorriso.

– Só precisas de fazer um relatório semanal sobre as actividades de Jin Shixin ou outras coisas que tenhas conhecimento. Mas se houver algo de urgente tens de me contactar.

– Assim farei.
– Ainda bem. Sabia que poderia contar contigo. Serás recompensado.

Nesse momento Marina Kaplan aproximou-se e colocou a mão no ombro de Prazeres da Costa.

Disse:
– O jogo vai começar. Vens?

O português levantou-se e seguiu-a. Cândido foi atrás deles. Na mesa estavam três homens sentados, preparados para uma longa noite de póquer. Cândido olhou para as suas faces. Eram jogadores experimentados, todos ocidentais. Só um tinha olhos orientais. A sua cara não lhe era desconhecida, mas recordava-o noutro ambiente. Só quando os seus olhares se cruzaram, ele recordou. Costumava encontrá-lo, à noite, em Xangai. Mas não como jogador. Vinha fardado.

Era polícia, no sector francês. Marina Kaplan, que observara tudo, sussurrou-lhe ao ouvido:
– Luc LeFranc.

Cândido não disse nada. Voltou para o reservado onde tinha estado a conversar com Prazeres da Costa. Não duvidava que seria mais uma noite de perdas financeiras para ele. Nesse momento voltou a ouvir Jin, que há alguns dias lhe dissera:

– É possível ver as pessoas como são, sem fingimentos. Ou são amigos ou inimigos. Ou vencem eles ou nós. Isso simplifica tudo.

Era verdade. Todos tentavam comprar a sua invisibilidade. Como se ele não existisse. E ele só tinha de decidir com quem queria alinhar. Despertou dos seus pensamentos madrugadores.

Batiam à porta. Era Jin. Ao entrar, beijou-o ternamente na boca. Depois, sem uma palavra, despiu-se defronte dele e arrastou-o para a cama.

Quase uma hora depois, Cândido abriu os olhos. Sentiu o corpo quente da chinesa. Os homens que conheciam Jin diziam que ela não dormia. Encontravam-na, muitas vezes, sentada, a meditar, de olhos fechados. Mas só isso. Era um absurdo. Todos os seres humanos têm de dormir. Cândido percebia que, durante o dia, ela se comportava como a grande dama do chá, como era conhecida. À noite, mudava. Era uma agente de Du Yuesheng e dos seus interesses. De noite era como uma flor de lótus que surgia das águas, imponente e bela, para mostrar a renovação. O Mal pode ser substituído pelo Bem, enquanto nos alimentamos do aroma da flor de lótus, ouvira dizer uma vez. Jin despertara e encostara-se a ele. Questionou:

– Em que estás a pensar?
– No que fiz há algumas horas.
– Não penses. Se um homem tem um preço, ele não é alto ou baixo. É apenas o justo preço que tem de se lhe pagar para que ele faça o que queremos.- És uma verdadeira amiga? Ou terei tomado a decisão errada?

Ela riu.

– Morra já, se não for o caso.
– Diz-me: sou teu amigo ou inimigo?

Jin hesitou por um momento, mas não respondeu. Ele deu-lhe um beijo nos lábios e disse:

– Achas que consigo ler o coração de uma mulher?
– Sim. E eu também o consigo fazer. Por isso vim acordar-te. Eu sou de uma região na China onde a piedade é considerada uma fraqueza.

Disse isto com um sorriso nos lábios. Como se quisesse mostrar que não tinha fraquezas quando tinha de decidir. Jin não conhecia a piedade. Ele nunca tinha encontrado uma mulher tão sedutora. Cada movimento que ela fazia, excitava-o. Tinha uma aura iluminada, como se fosse sempre iluminada pelo sol, mesmo quando se movia na escuridão.

– Vem!

Jin disse isso com voz de veludo. E ele foi, novamente. Os seus braços colocaram-se à volta do corpo dela e voltaram a beijar-se. Ainda viu o sol a nascer através da janela, mas ela parecia não ter pressa. Depois de terem feito sexo, ela sorriu e tirou os braços dele do seu corpo. Levantou-se e disse:

– Tenho algo para ti.

Tirou de um bolso escondido na sua cabaia um anel grosso, de ouro, onde estava uma pedra de jade verde. Agarrou-lhe na mão esquerda e colocou-o no dedo.

– Quem pode ser confiado para carregar a minha confiança?

Aquele anel, de tão belo, era uma prova de confiança. Mas era também uma espada de dois gumes. Era uma arma que não era mortal, mas estava apontada ao coração dele. Ele sabia o valor daquele anel. Por detrás da tentação de qualquer coisa escondiam-se sempre os dentes de ferro das consequências inesperadas.

– Depois de aceitares este anel estou desarmada perante ti.

Nada disso, pensou Cândido. Nunca, como naquele momento, ela tivera todas as armas. E ele, sim, estava desarmado.

Subscrever
Notifique-me de
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver todos os comentários