A grande dama do chá

Não era um acaso encontrarem-se ali. Quase todas as tardes, quando o calor começava a acalmar, Ezequiel de Campos ia até junto da Igreja de São Lourenço. Sentava-se defronte da porta e ficava a olhar para os crentes que entravam em busca da salvação e saiam aliviados dos seus pecados. Ao longo dos séculos aquela igreja mudara de estrutura, a madeira transformara-se em pedra, mas a sua missão mantivera-se. Ali esperavam-se, entre rezas, os marinheiros, os que saíam e não sabiam se voltavam. Por alguma razão, também era conhecida pela Igreja dos Ventos de Navegação Calma. Cândido sentou-se ao lado de Ezequiel e ficaram os dois em silêncio, durante largos minutos, a observar a igreja, até que decidiram ir em busca de um local mais aprazível para conversar. Apanharam um riquexó, que os levou até ao Hotel Central. Entraram numa sala ampla, cheia de cadeiras e mesas, onde, num palco, actuava uma orquestra filipina. Tocava tangos e rumbas, algo que parecia agradar à clientela, feita de chineses e ocidentais. Entre os corpos, o fumo esvoaçava como se fosse uma nuvem em movimento constante.

Ali discutiam-se negócios, alguns deles não muito claros. Por esses dias o dinheiro circulava em Macau de forma abundante. Ninguém queria saber de onde vinha, nem para onde ia. Muitos daqueles homens dedicavam-se a vender produtos para a China que não estava sob ameaça das tropas japonesas. Outros já pensavam nos negócios que poderiam fazer com os soldados do Sol Nascente. Ezequiel e Cândido sentaram numa mesa recatada, junto a uma parede, de onde podiam observar toda a sala. Alguns casais mais jovens dançavam, mas a maioria dos homens que ali estavam acompanhados por raparigas chinesas e russas, estavam mais interessados em estabelecer contactos e fazer negócios. Pediram gin fresco. Ezequiel olhou à volta e cumprimentou um chinês, muito elegante no seu fato cinzento claro. Este fez uma vénia.

– É um conhecimento de há pouco tempo. No comércio temos de obedecer mais a interesses do que a princípios.

Cândido respondeu:

– Não duvido. Mas os princípios, às vezes, são uma boa defesa para nos defendermos do que não conhecemos.

Ezequiel fez um esgar.

– A minha mulher, às vezes, diz-me o mesmo. Por causa dos nossos filhos.
– Tens filhos?
– Sim.

Fez um ar espantado, antes de dizer:

– Ah, julgavas que a Marina Kaplan era a minha mulher. Não. Sou casado. A Marina é, digamos, o meu lado lunar. O que está escondido da Macau que vemos de dia e que só existe na penumbra.

Quase todos aqui têm máscaras. Não te espantes comigo. Só assim se mantêm as aparências. Toda a cidade funciona desta forma, mesmo para quem não o quer. Isso é muito português, não é? E também é muito chinês.

Ezequiel voltou a dar um gole no gin.

– Era o que estava a precisar! Meu caro Cândido, és a pessoa que eu conheço que mais deseja estar sempre noutro lugar. Como se cada lugar te sufoque. Se calhar é por isso que o saxofone e o jazz sirvam para te libertares. Para praticares a arte da fuga constante. Continua a ser um saltimbanco que se consegue divertir neste mundo. Fazes bem. Procura o que é a vida. Eu já não tenho muitas ilusões.

Fez uma pausa, antes de continuar:

– Nunca foste às corridas de cavalos, no Jockey Club?
– Nunca.
– Deverias ir. Para veres que o jogo e as apostas ainda são a forma de algumas pessoas conseguirem libertar-se um pouco desta vida. A esperança nunca foi uma boa conselheira.

Apenas disfarça o medo. Repara, quer a esperança, quer o medo, levam-nos quase sempre a colocarmos o nosso presente e o nosso futuro nas mãos de outros. Viste isso na Igreja de São Lourenço. Por isso gosto de lá ir. É por isso que muitos apostam nos japoneses. Outros nos ingleses. E, os mais sensatos, nos cavalos.

Cândido moveu-se na cadeira.

– O que é que te preocupa, meu caro músico? O que é que os portugueses vão fazer se a guerra chegar aqui? O que sempre fazem. Adaptam-se e procuram sobreviver. A maioria será neutral, à espera que os outros tomem decisões.

– Estamos cansados, Ezequiel.
– Há muito que o estamos. Já leste alguma vez “Os Lusíadas” do Luís da Camões?
– Um pouco. Não todo.
– Fazes mal. Está lá tudo. Houve um tempo em que alguns deuses se tornaram homens e estes se transformaram em deuses. Isto porque os portugueses avançaram pelos mares que os deuses tinham reservado para seu deleite. Puseram em causa as regras até aí existentes. Na Ilha dos Amores, um lugar imaginado por Camões, os marinheiros portugueses encontram as ninfas e o amor e o sexo quebram o muro entre os dois mundos. Os portugueses conseguem algo nunca alcançado e tornam-se, de alguma maneira, deuses.

– Foi um sonho.
– Foi a realidade. Mas, ao tornarem-se deuses, amoleceram. Outros vieram bater à porta do paraíso depois de, também eles, caminharem pelos mares. Holandeses, franceses, ingleses. E nós perdemo-nos nos nossos sonhos. Vê o que resta do nosso império material. Vai naufragando devagarinho. Isso enquanto Portugal fica cada vez mais pequenino. Vamos saindo de lá às carradas. Porque somos estrangeiros dentro dele. E somos tratados como pessoas que não pertencemos aquela faixa estreita de terra. Desde a Ilha dos Amores que andamos a tentar perceber o que somos.

– Que visão catastrofista, meu caro Ezequiel. Merece mais dois copos de gin.

Fez sinal a um dos empregados para trazer mais duas bebidas. Depois voltou a ouvir Ezequiel dizer:

– A realidade é uma invenção do Diabo. Mas agora temos também de nos defrontarmos com a realidade. Não podemos ficar indiferentes face ao que se passa na China. Afinal, a vida é um lugar de constantes provas. Onde nos salvamos ou perecemos. Ficamos esperançados porque, no fim, todos sabemos que não há futuro.

Cândido suspirou. E depois disse:

– E tu? Que pensas fazer?
– Eu? Sempre me achei um capitão de um veleiro. Navego consoante as marés e as ondas, o bom tempo e as tempestades. Não me posso queixar.
– E a Marina?
– Sabe a minha vida. Não é algo que a preocupe. É um pouco como eu. No fim recordamos sempre o que amamos e o que odiamos. Sabes, Cândido, deixei de acreditar no inferno quando tinha 15 anos. O meu pai deixou a minha mãe e desapareceu. Nunca mais o vi. Depois, passados uns meses, a minha mãe deixou-me em casa de uma tia e disse-me “até logo”. Nunca mais a vi.

O que é o inferno? Eu vivi-o. Assim, porque é que eu não posso dizer mentiras, se para mim já não há inferno? As mentiras são necessárias, porque as pessoas são seres simples.

Na pista, muitos casais continuavam a dançar ao som da música da orquestra filipina. Não era pior do que a Benny Spade Orchestra. Muito provavelmente nunca tinham tocado no Ciro’s de Xangai. Talvez não levasse as coisas tão a sério, tal como as pessoas que ali estavam. Eram formas diferentes de ver e de viver a vida. E, às vezes, ficava com dúvidas sobre quem tinha razão. Ezequiel de Campos tinha os olhos fixos nele. Talvez estivesse a perceber o que ele estava a pensar. Porque esse fora um assunto que o preocupara há muitos anos. Mas que agora era irrelevante.

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