Recessos de cidade

Lisboa, 11 Junho

 

Tem armadilhas, a (suposta) diarística. Agravadas a cada degrau pela vida, alheia aos esforços do (suposto) cronista. Alturas há em que a folha se estende qual cemitério na falda da colina. E que dizer descontado o banal, além do bem e do mal, sobre aqueles que partem, mais ou menos próximos, relativizando-se a proximidade por conter intimidades, por ter contribuído, das maneiras mais díspares, para o que fomos sendo? Mal conheci Ruben de Carvalho (1944-2019), mas devo-lhe muita navegação no grande oceano da música, não apenas pelo que foi dizendo, mas por quem programou na Festa do Avante, para dar um exemplo. A América, sem o jazz e o romance policial por ele recontados, não me seria a mesma. Saudades das crónicas! Antigamente, os jornais andavam prenhes de futuro. (Relembro a talhe de foice que a minha infância desaguou em revolução, para a qual ele contribuiu.) Mas Lisboa, a minha tão ausente Lisboa, não me seria a mesma sem Ruben, por milhentas razões, as que se sabem e as outras. Uma delas, talvez despicienda, foi a sua defesa, enquanto vereador, de uma Bedeteca de Lisboa condenada à lenta agonia da indiferença. Saravá, Ruben.

Varandão, Lisboa, 15 Junho

Apesar dos pesares, Lisboa continua sendo o que jamais deixou de ser: jogo de patamares e vielas onde o encontro floresce que nem enigma. Ramón [Gomez de la Serna] imaginou-a ponte de grande navio prestes a rasgar oceanos. E nela assim me sento, a olhar os nós por desatar do horizonte. Abro parêntesis [recto] nos afazeres e passo a porta, que é janela, do Luís [Gouveia Monteiro] para experimentar o concerto de bolso do Fred Martins, na companhia de cristal da Sandra [Martins]. As linhas do horizonte são agora as cordas de onde se soltam as melodias de estonteante riqueza, conduzindo a voz que nem seta ao coração perfurado pelo violoncelo, mas o órgão do sangue pensa e diz do tempo e da paisagem, da casa e quem nela mora, de ontem e de amanhã. O varandão, com esta dilecta companhia, foi mundo pulsando, levou a gente. «Onde mora a ternura,/ onde a chuva me alaga,/ onde a água mole perfura,/ dura pedra da mágoa,/ eu tenho o tempo do mundo, tenho o mundo afora,/ eu tenho o tempo do mundo, tenho o mundo afora.»

Santa Maria Maior, Lisboa, 19 Junho

A minha cidade tem uma galeria elevadora. Talvez devesse escrever elevatória, mas no contexto cruza-se com voadora. Diz o dito contexto que são «As Lisboas» do Nuno [Saraiva], postas no prédio da Junta de Freguesia que junta o baixo e o alto, Fanqueiros e Castelo, ou quase. Vou ter que voltar (fica até 27 do corrente), pois descobri que não consigo acompanhar o andamento do gabiru. Gabo-me de conhecer o seu corpus como poucos e logo me encontro hirto de surpresa, carapau a pedir o auxílio de alma caridosa na corrida de ver. E o quê? O mais solar dos cruzamentos entre a cidade e as suas personagens. O mais irónico dos mergulhos nos estereótipos, massa movediça da identidade. Um sem fim de suportes, a afirmar que Lisboa podia lá ser apenas de papel! Recapitulando, muito por culpa de sucessivas Festas da Cidade, mas também por ser filho de Alfama, o Nuno tem desenhado as figuras de que Lisboa se faz hoje. E cruza os monumentos, as ruas, os lugares, famosos e nem tantos, queridos ou nem por isso, com os corpos em andamento. E depois mergulha nas tradições, da sardinha à ginjinha, das marchas ao Fado, para colher os elementos com que compõe imagens que respiram sangue na guelra. O meu maravilhamento resultou ainda do encontro com azulejos e garrafões gourmet, mupis e troféus, jornais e muros. E finalmente os esboços, revelando as hesitações, as aproximações, antes do traço definir o corpo, ainda ele, da cidade, sempre ela. (Exemplo algures na página).

CCC, Caldas da Rainha, 22 Junho

A tarde respira de luz, mas, em obediência ao tema e à combinação, entramos no cubo escuro da sala. Nem por isso o momento deixou de se fazer solar, muito pela simpatia que o Carlos [Querido] suscita nesta sua terra (enfim, por onde passa). «Habeas Corpus» anuncia-se conjunto de micro-contos a bailar à volta da morte, a atazaná-la, empurrando-a, rasteirando-a, na certeza de que lhe cairemos nos braços. Cansados. Mas mesmo os aqui pousam nesta página acreditaram que, pelo riso e outras artes, a faremos mais tonta. Mas outras melodias se tocam nas deambulações destas figuras pelo território fértil do absurdo. E a palavra é uma delas. Os sentidos são tratados como produto da terra, com raízes e regas, cuidados de poda e desbaste. A Ana [Sousa Dias] teve a generosidade de nos oferecer leitura. «Gosto deste livro de caminhos obscuros e muitas vezes absurdos, recheado de citações discretas (ou evidentes) de grandes livros que fazem a história da nossa humanidade, e que recomendo que o leiam (e comprem, previamente). Que se divirtam como eu, sem gargalhadas mas com um sorriso cá por dentro, à espera do desfecho que chega na página seguinte. Que saboreiem a belo domínio das palavras, aquelas que são o fulcro de toda a literatura. Cuidado, que a fome das palavras pode levar a que desapareçam das páginas. E regresso ao início, a um dos temas recorrentes do «Habeas Corpus»: “Sempre que procurou o sentido da vida deparou-se-lhe o denso e indecifrável mistério da morte. Kyrie Eleison”.»

Santa Bárbara, Lisboa, 22 Junho

Este papel não parece de fibra, a não ser que seja de tempo feita. Não tivemos todo quanto precisávamos, Carlos [Câmara Leme] (1957-2019), para cumprir os projectos, muito conversados, inevitavelmente adiados. Deste prolixo testemunho do teu tempo, do nosso tempo e dos seus actores, perdido algures nos arquivos. Não te deixaste ficar. Procuraste sempre acompanhar em passo de corrida, como convém ao jornalismo, os que pensavam ou escreviam. Que saudades do tempo em os jornais falavam! Saravá, Carlos.

Horta Seca, Lisboa, 24 Junho

A ritmo mais do lento do que aspira o nosso querer, vão saindo edições internacionais dos nossos autores. Umas mais convencionais, como esta de «O da Joana», do Valério [Romão], que na versão francesa da Chandeigne se fez «Les eaux de Joana», o que me agrada bastante. As águas e o seu romper, na mulher, são fonte inesgotável de fascínio, portanto, de mistério. A saga de Joana é-nos apresentada, na contracapa, como cruzamento impiedoso de estudo clínico sobre a histeria, o cinema de Buster Keaton e a crueza de Louise Bourgeois, celebrando as sinistras núpcias do desespero com o burlesco. Sublinho a presença das referências visuais aplicadas ao texto do Valério, uma das suas forças.
Outras publicações resultam da soma de desejos e vontades, como «Chiuso per Inventario», pequena antologia de poemas da Rita [Taborda Duarte], passados a italiano pela Paola [D’Agostino] e acompanhados ao pincel pelo Pedro [Proença]. Destinado, por «Malas Artes», apenas aos sortudos de festival mediterrânico «na terra do pesto», eis inestimável volume, pássaro breve. «Non srivere troppi uccelli nelle poesie: è cosi triste/sentire un uccello che cinguetta nel posatoio del verso le unghie/ che raspano le frasi razzolate della poesia.”

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