Sexo XXI

Vinte e um gramas é o que pesa eventualmente a alma, o que deixa um rastilho de dúvida que nos incita a tratar desta suposição com esperança. Ela está presente num momento muito belo e lancinante no Evangelho segundo São Mateus «depois, lançou um grande brado e entregou a alma», devolveu o sopro que o sagrou na hora de nascer, aos gritos, aos urros, chorando, aos brados. Esta ínfima substância não é fácil nem quando começa nem quando acaba. Entramos em choro, saímos em brado, e ainda somos o resultado dos suores gritantes de quem se dá.

O século vinte e um, tão jovem ainda, já tem o seu peso, nasceu com imagens de queda e de gritos, nasceu talvez com a alma aflita, e tocou pela primeira vez nas fontes naturais do circuito da transmissão: seremos provavelmente a última Humanidade sexualizante, o tempo que se desvia das naturais funções acaba por recriar os seus próprios órgãos, transmutando o fruto na marcha evolutiva face à essência primeira.

Parece estranho que digamos estas coisas numa esteira de desejos mundiais, mas não será difícil olhar a escalada híbrida, o hermafroditismo, o imenso mal-estar da função que talhou o órgão – órgão que faz a função – a ciência avança de forma apaixonante e quase atravessamos o nosso corpo como ilustres desconhecidos… Amor, ainda um eufemismo servidor da causa, não criado e sim gerado, e que consoante os méritos de cada um foi orientado e sublimado na construção árdua do mundo onde jamais se confundiu “amor profano” com grande amor, pois Deus parecia estar no homem como sémen propagador, era-lhe consubstancial na transmissão.

Atravessemos. Os séculos são estradas, têm alma, nascem e morrem e, claro, a dramatização desta matéria não se esgota, o pré-condicionamento não está apagado. Afinal ainda procuramos um arquétipo perdido… que em ninguém se encontra, mora, ou se repõem. O problema não está nas pessoas e nos seus níveis de conflitualidade ou de atracção, mas sim num certo “air du temps” que mutilou a outrora função cegamente programada. Tem gerado até pelo temor da sua força muitos neuropatas, mas esse imenso caudal será arrumado num grande “tubo de ensaio” como matéria atómica. Lixo radioactivo! Com quanto a transfiguração que nos daria uma experiência amorosa parece também ter sido rejeitada na fase alternativa do “beijo que liberta”. Beijos são sopros, talvez almas, tudo em que descremos como bem sabemos se afasta de nós. A sexualidade tomou um espaço anatómico que denunciava já a sua futura morte, demonstrando assim uma saúde moribunda.

Intelectualmente fomo-nos preparando para o século XXI e fizemo-lo com relativo êxito, mas biologicamente estamos atrasados. Somos uma plataforma de vestígios portadora de vínculos que não estão adaptados para a breve realidade de uma outra História do Tempo. Creio que esse tempo nos devore, esse mesmo tempo que gastámos a “comer-nos” uns aos outros com a prática canibal de uma sexualidade que na função se esgotou. O corpo foi brutalizado, o corpo «Glorioso» não é isto, e talvez nos peça agora o fim das provas antevendo nós agora o grau da sua luz numa outra projecção: «as fantasias do teu erotismo/ põe-nas, semi-ocultas/ em meio às tuas frases/ esforça-te, poeta, por guardá-las todas.» Kaváfis

Mais diz ainda: “Lembra corpo o quanto foste amado, e os desejos que brilharam em outros olhos claramente”, este corpo vamos com ele até festejarmos tudo tão claramente como um encontro sem par, que o par é um lado estagnado da função, e ela é outra, e tão nova, tão repentinamente nítida, que amá-la não pode ser um local narcísico, amando-a no lago frio das ilusões, tanto e tão, que caímos na armadilha mil vezes repetida de uma prova elementar que não transpusemos.

Amar outrem, muito, tudo, não é necessário, são conclusões morais que obrigam a um cansaço e muita vigília… Acontecer no tempo. O corpo continua e os vinte e um gramas implantados nos ditarão o caminho novo que se aproxima agora da meta anunciada. Nem o castigo, nem a libertação, nem a aceitação, nem o logro ou a luxúria, conseguiram restituir a grande causa escondida que brotará melhorada e porá fim a uma parte do processo evolutivo.

Os corpos subtis foram apelidados de “corpos aromáticos” e um mundo que cheire bem terá resultados telepáticos amorosos progredidos e ampliar-se-á na construção da alma vindoura, os fluídos da energia transformadora e formadora estarão próximos de um êxtase de vida que reconheceremos mais benigno para esse peso tão leve e definitivo.

Talvez mudando a escala da erotização mundial nos possamos então propor a reformar estes destinos grupais projectados num mito que agora encontramos sujeito a falência, mas longe, tão longe da castração por fluxo concentrado o qual não fez mais que precipitar a sua queda. A liberdade encontra-se sempre ligada ao propósito do bem e bom será então dar as boas vindas a este «Sexo XXI» sem o medo dos contágios.

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