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02/07/18

Sou arredio à televisão e na generalidade às séries. A última que vi com agrado foi True Detective. A primeira temporada – já não espreitei as seguintes. Porém, como até em casa que não pratica a televisão tal frenesim chega, tive de trazer de Lisboa, gravadas sob encomenda, uma caterva de séries para a minhas filhas.

Este fim de semana espreitei uma das três que gentilmente, sem eu ter pedido, gravaram para mim: Homeland, que anda em torno do terrorismo e do regresso dos prisioneiros políticos de Al-Qaeda e cujos heróis são agentes da CIA. E papei a primeira temporada inteira, doze episódios em dois dias.

Gostei. Enredos bem estruturados, com personagens e diálogos adultos e, como é normal, bem ritmado.

Contudo, ao dar o mau passo de ver a segunda temporada percebi como por intratável inverosimilhança a coisa baqueava. O que era qualitativo na primeira temporada era a plausibilidade humana. Na segunda temporada a lógica narrativa já é totalmente televisiva, impõe-se o esquema da dramatização (o espectáculo acima de tudo) e o inesperado é o que rege a acção; pior, com uma causalidade sempre justificada ao posterior (- é o dispositivo de Eurípedes convertido em matéria televisiva). Além disso, as personagens começam a caricaturar-se e a reflectir um mundo maniqueu e em derrapada islamofobia.

Tivesse a série acabado no 12º episódio, com tudo em aberto, e seria perfeita. Depois a lei do mercado arrasa tudo. Para além da débacle moral: os terroristas e os supostos defensores do Bem são cegos prisioneiros da mesma teia de aranha, num mundo embutido no friso cinismo dos líderes e de profunda raiz escatológica, pois escava fundo a ideia de que um mundo manietado por gente tão feia é melhor que acabe.

Duas coisas compreendi: primeiro, como Séneca tem razão ao alvitrar que pobres não são aqueles que têm pouco mas antes os que necessitam de muitas coisas, pois é uma intensidade emocional aditiva absolutamente artificial a que nos leva a não conseguir largar o osso na sucessão de episódios de uma série, seja qual for o lixo que se vai alastrando nas nossas retinas. É mais fácil criar dependência do que dispensá-la.

Segundo, o romance está condenado a sobreviver como uma estética gourmet, tal como o livro, e vocacionados para franjas do mercado. Sobretudo nas sociedades em que o dogma da comunicação e da sua suposta instantaneidade foi substituindo o mais árduo valor da transmissão do conhecimento. A transmissão supõe uma inacabável aprendizagem de códigos sucessivos, o que exige um maior labor hermenêutico, enquanto a ilusão da transparência comunicacional faz parte de uma sociedade em que o sentido é gradualmente preterido pela performance e a reverberação da presença.

O romance é um veículo narrativo por excelência do primeiro regime e a televisão do segundo.

Daí que a literatura se veja hoje sob pressão de uma novelização crescente, que a modela como avatar pré-filmico, o que acontece já a oitenta por cento dos romances que se publica.

É impossível a um romance fornecer em cinquenta minutos o mesmo volume de informação e obter uma igual densidade de efeitos emocionais. Até porque um bom romance não visa preferencialmente o tabuleiro das emoções e quer igualmente partilhar o jogo da inteligência: que por exemplo o leitor se aperceba dos actos de linguagem. Numa boa série televisiva ou num bom filme a linguagem é apenas veículo formal e quanto mais invisível melhor – o Godard foi uma excepção. Há, por outro lado, uma competência artesanal nestes produtos que “parece” substituir com vantagem os recursos expressivos da narrativa literária – quando os domínios da literatura, os seus meandros e objectivos, não se esgotam na trama e visam uma especificidade inabordável por qualquer outro modo. Um bom romance, por fim, dado que não se limita ao factor da identificação, pressupõe um encontro com o leitor de recorte mais apurado do que a mera “atenção distraída” que dedicamos à televisão.

Já para não falar da desonestidade de se começar com um registo ficcional, para agarrar o espectador, e a meio do processo se alterarem as regras do jogo para se explorar unicamente os mecanismos certos para o êxito. Mas, enfim, estes são pruridos que já a ninguém interessa, desde que se ofereça um suposto bom espectáculo.

Vendo esta série lembrei-me de um reparo feito por Abel Barros Baptista ao mais recente romance português. Dizia o ensaísta que dantes os ficcionistas reflectiam uma experiência de vida e que agora os romances lhe pareciam aplainados e semelhantes uns aos outros porque espelhavam a mera experiência de espectador dos seus autores. Concordo em absoluto.

03/07/18

A natureza é muito mais perfeita do que Deus, sobretudo nas oportunidades humanas que os seus erros propiciam.

Em Mary Shelley, o filme, não faltam as escorregadelas, mas dá um retrato vivo de um drama de género que devia ser mais ponderado. A Percy Shelley, o poeta romântico com quem Mary se envolve até à morte dele, apaixonam-no a inteligência e o talento dela mas, contraditoriamente, mostrou-se incapaz de empatia e de superar a mentalidade da sua época. E aceitou prefaciar Frankenstein (romance que devido aos preconceitos sobre as mulheres não podia ser assinado pela autora, obrigada a anonimato), mesmo sob o preço de erroneamente passar por autor do livro escrito pela sua amante. O que constituiu um vexame para ela.

Numa das lojas do prédio da minha infância havia um merceeiro que nascera hermafrodita. O sr. Virgílio foi educado como menina até aos doze anos, quando se denunciou o desenvolvimento do seu verdadeiro sexo. Dizia a dona Luísa, sua esposa, que vivia nas sete quintas porque o marido entendia perfeitamente as mulheres. O dom que lhe dotara aquela partida da natureza.

Julgo que, se nascêssemos todos hermafroditas para só nos definirmos mais tarde, ganhávamos em empatia e numa relação interpessoal mais consentânea e além género.

Deus não, situa-se aquém da ideologia, enquadrado na pauta da cultura que o moldou.

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