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Apenas mais uma. Laboriosa, incansável, seguindo o meu carreiro, o desígnio que ultrapassa qualquer vestígio de individualidade. Não me atrevo a sair da linha por temer o destino fatídico de ser mais um cadáver sem nome. Baixo a cabeça e carrego o fardo que me justifica até ao formigueiro, todos os dias sempre com a terrível noção do quão dispensável sou neste oceano infinito de outras formigas como eu.

A minha natureza é fundada no meu carácter dispensável, na forma como serei inevitavelmente substituída. Sou apenas mais uma, em nada especial vistas as coisas pelo prisma do grande objectivo comum. Somos mais que as mães, tantas que taparíamos esta terra se estivéssemos todos num plano térreo. A abundância determina que tenhamos de viver empilhadas em andares, que tenhamos de ganhar solo ao mar e ao céu e extravasar até que tudo termine. Um destes dias vamos regressar à terra quando o espaço à superfície se esgotar.

Sou apenas mais uma. O que realmente importa é a contribuição para o edifício de todos nós. Apenas um ponto a serpentear as artérias da cidade, a queimar oxigénio para levar a nossa avante. Apenas mais uma, sem vestígio de um pensamento original, sem um laivo de emoção perante o grande esquema cósmico e a beleza poética e cruel desta coisa de nascer, existir e morrer. Viver com pensamentos só me traz problemas, como pedras no carreiro e a vontade imensa de mudar de rumo e fazer-me de peito aberto à contramão. Passar de ser só mais uma para ser a única, a forçar caminho contra a correnteza de conformidade. Sonho desobediente enquanto vergo a mola e sigo, cabisbaixa a minha ordem superiormente estabelecida.

Apenas mais uma, faço por não ser notada neste oceano infinito de formigas. Aliás, não me preciso esforçar, porque somos tantas que as minhas acções ficam diluídas num oceano de milhentas réplicas de mim própria. Posso fazer o que me apetecer nesse sentido, desde que permaneça no carreiro, posso canibalizar as minhas companheiras sem medo de repercussão.

Cada rainha tem dentro de si a chave para ser mãe de mais de 300 como eu em apenas uma semana na minha acepção de insecto. Somos as infinitas filhas de uma linha de produção biológica que jamais vai parar. Não sou, de todo, o resultado de um milagre da vida, aliás, a minha existência é uma certeza num mundo previsível.

Apenas mais uma a comer tudo o que apanha, a corroer a solidez do mundo, a criar comichão na coesão molecular de tudo e mais alguma coisa, a amargar açúcar, a seguir a correnteza de réplicas desprovidas de alma.

Apenas mais uma, mas ocultando no labor o libidinoso desejo ter asas e voar para fora do carreiro. Mudar de rumo, mudar de rumo acima do formigueiro e partir tendo o vento como guia, acima da barafunda comunicativa de feromonas e antenas. Ficar apenas uma, solitária, sem trilho para seguir, sem carga comunitária para transportar. Ser apenas uma e encontrar-me, não pactuar na perdição colectiva nunca mais, voar acima das artérias carregadas de formigas. Ser apenas uma e voar de acordo com o meu capricho, ter o mistério como destino até deixar de ser.

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