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Como algo tão pequeno, indefeso e frágil consegue amedrontar o poder absoluto? Como pode uma palha ripostar contra o mais potente dos canhões? O medo dos outros fez Golias de um insignificante David. Sou um corpo estranho num organismo que me repudia e expele das mais variadas maneiras, ainda assim insisto em ter uma voz.

Uma vez eleito, sem grande expressão comparativamente às forças tradicionais que se abeiram dos tronos decisórios, seria apenas uma voz ineficaz no plenário. Mesmo que esbraceje e me multiplique, o poder terá sempre uma maioria confortável para fazer o que bem entender. Terei transcendido a posição de homem e ascendido a uma espécie de excelso ideário? Se por lá ficasse, passados alguns discursos inflamados a minha palavra seria diluída num mar de consensos contrários. Perderia o gás e tornar-me-ia parte da mobília, como as minhas versões anteriores, oposição meramente decorativa, relegada para o plano do capricho. Se me deixassem ficar seria apenas um ineficaz clamor no deserto, um joguete que daria legitimidade ao simulacro de debate de ideias da ordem pré-estabelecida.

Porém, o Pavor Absoluto de uma voz crítica que rompa o marasmo de ténues discórdias leva à extrema e desnecessária martirização, a matéria da qual a acidental História faz heróis.

O Poder opera como uma manada esmagadora de elefantes em marcha rápida, a levantar pó e a calcar o chão com o peso de dois mundos, mas que de repente entra num frenesim amedrontado por avistar um rato. A mera visão do pequeno roedor faz os elefantes erigirem-se nas patas traseiras, com a tromba no ar, soltando estridentes gritos de pânico e alerta para quem vem atrás.

Eu próprio fico assustado com o pavor, ou a aversão, que provoco. Não encontro razão para tamanho alarido, ou desproporcionalidade de reacção, às mais mundanas e naturais reivindicações que faço. Por mais que repita que não sou uma espécie de sucursal de pseudo-revoluções vizinhas, mesmo que tenho manifestado alguma simpatia por gritos de liberdade, o pouco tempo mostrou-me o pragmatismo daquilo que se pode alcançar, assim como aquilo que se pode perder. Ainda assim, o meu rosto imberbe é traumatizante para quem olha para a juventude como algo domesticável, para quem entende que as novas gerações, que transportam o mundo no bolso, podem ser manietadas por propaganda e ideias que cheiram a mofo.

Eu sei porque vi com os meus olhos. Quando um povo resolve o problema do tecto e da comida, a sua fome é outra. Cultura e liberdade. Não penso que já chegámos a esse ponto de insaciável fome de ideias, às discussões tolhidas de paixão, porque vivemos numa bolha de conforto. Mas quando as tenazes da opressão apertarem, essa fome fará roncar os estômagos dos mais novos. E aí testemunharemos outro tiro no pé que o amedrontado poder insiste em dar. Qual a razão para o aperto do cerco de controlo, numa sociedade totalmente pacificada? Porque andam à procura de sarilhos e lutas onde elas não existem?

A legitimidade tremida tem destas coisas, produz estes efeitos secundários de pavor a opiniões e visões contrárias, mesmo que não representem uma ameaça existencialista.

Tudo permaneceria na mesma se eu pudesse exercer o cargo para o qual fui eleito. Haveria um pouco mais de excitação na assembleia, discursos e interpelações proferidas de pé. Mas no fim do dia, o que interessa é que o Executivo continuaria a ter o monopólio legislativo com a total complacência da vasta maioria dos legisladores. Eu faria um posts de Facebook a marcar o meu desdém pela promiscuidade institucional e todos iriam para casa descansados. Esta seria a via mais fácil para todos. No entanto, isso está posto de parte, à medida que estão para atingir o clímax outros tantos desproporcionais processos.

A via dolorosa da perseguição, estes pequenos calvários institucionais, são a minha ascensão. Uma semente de despropósito que tem a transcendência como fruto.

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