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Por toda a cidade espalha-se o chinfrim dos meus congéneres, milhares de martelos pneumáticos a quebrar solidez, a refazer, a destruir para construir. Por todos os recantos soam rajadas que escavam fundo a insónia e a sanidade mental. Macau é um eterno estaleiro de construção.

Onde não se constrói algo de raiz, há uma reconstrução em curso e outra já planeada para multiplicar a divisão dos sólidos. Os materiais mais rijos, como o cimento, tijolo e ferro, não aguentam a exposição aos elementos da região. Humidade, chuva ácida e uma profusão de paradoxos tornam os edifícios em estruturas raquíticas, de ossos fracos. Eu sou a broca nessas cáries arquitectónicas, o escopro mecânico que empresta vibração à vida de quem faz de Macau a sua casa. Declaro morte à audição e a tudo o que é sagrado à face da terra.

Sou a sinfonia que musica esta pequena balbúrdia, a banda sonora para a vida que se erige na vertical, a impetuosidade que não conhece perdão ou respeito pelo descanso e a paz dos humanos. Repouso ao domingo, mas todos os outros santos dias, das 9 às 5 se as regras forem cumpridas na terra que as considera decorativas, sou inferno sonoro para quem tem de conviver a um piso de distância da minha obra.

Tomo totalmente conta da vida das pessoas, imponho-me de forma implacável, incontornável. Por vezes, alinho-me num trio de martelos pneumáticos, ou num dueto com uma marreta, e torno impossível a conversa, o pensamento, a habitabilidade. Empurro pessoas para fora de suas casas, para fora das suas mentes, para além das fronteiras da razoabilidade.

As minhas vítimas predilectas são aqueles que trabalham à noite e que precisam da manhã para retemperar energias. Pobres almas penadas, condenadas à incoerência e a deambular arbitrariamente pela cidade, movidos por objectivos com curta esperança de vida. Espectros de olhos cavados pelo deficit de sono que tentam, em vão, concentrar-se em algo. Desafortunados com tampões nos ouvidos que retalham o sono nos momentos permitidos pelo meu desmedido sadismo.

Gosto de criar a ilusão de esperança durante meia-hora de silêncio, para voltar à carga com toda a força do automatismo. Comigo tudo é vago e a vida transforma-se numa sequência de surdos fotogramas.

Sou a analogia perfeita para toda perfuração sexual que se espalha em quartos de hotel na colectiva coreografia de destruição de carne. Fricção mecânica de martelos biológicos a escavar amor desesperado e insaciável nas paredes de calor e humidade.

O martelo pneumático devia ser o símbolo de Macau. O instrumento da perpétua construção e o remédio para a inevitável decrepitude da osteoporose dos edifícios e instituições. A representação dos trabalhos em curso, das obras que nunca acabam e que se arrastam em infernal algazarra, a materialização da existência barulhenta, indiferente a tudo e todos.

Conjugo demolição e construção, destruição e criação, vida e morte, Génesis e Apocalipse, todos os extremos instrumentalizados para fazer e desfazer esta cidade. Sou forjado pela bigorna de Hefesto e o martelo de Thor, sou a acção e o exercício de desmantelamento de tudo o que é sólido.

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