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Num primeiro olhar aquelas imagens esbatidas a preto e branco, e diríamos que era Rilke, menos belo, talvez, mas sem o reflexo imediato que separa os seus cinquenta anos de diferença, no mesmo século, que século é das mais emblemáticos gentes.

Nasceu no Porto e por lá morreu, mas, entretanto, e pelo meio, onde acontece viver, fazem-se não raro coisas assombrosas e sérias como foi o resultado da sua obra. O estilo pode ainda agora parecer-nos reflexo de um certo provincianismo de salão de uma retórica ultraconvencional para agrupar ao ultra-romantismo do seu tempo de fronteira que não deixa de ser ele, também, um legado precioso.

Já estamos em plena época formal decadentista, hesitante, de grandes mudanças sociais, 1822 e a Carta Constitucional, mais quatro anos que o nosso poeta, e por aí vão entrando os tempos e os homens, o seu nacionalismo (matéria romântica) é no entanto mais mítico que revolucionário, mais Oriental que Europeu… ele, o herdeiro em linha directa de Lamartine, mas que buscando mais, vamos encontrar um cancioneiro de «Naus Catrinetas» envolto em plenas histórias do fantástico.

O saudosismo decadentista tinha firmado o seu terreiro, e Fernando Pessoa, a síntese de todas estas gentes, conseguiu ordenar matéria vasta quando nele, tudo isto, mais a vanguarda dos novos tempos que firmou com os do seu grupo, olhou para estes com a atenção devida entre os pares. Sem dúvida que não nos podemos esquecer das grandes ramificações, a influência daqueles que o precederam, nem a lista de saudade e desencanto agarrada ao espectro romântico, que mais que pura corrente é uma dissimulada forma de preguiça das sensações.

Nesta altura criara-se tal como hoje uma inflacionante “poetização” no tecido social, vulgarizada em pagelas, revistas, jornais, críticas, crónicas, edições, que mais não fizeram que distanciar os de qualidade e esquecer toda essa fornalha de intensificadores de coisa nenhuma. Uma mais que decadente e formal manifestação, sim, serôdia, penosa, pois que sem um poeta dentro estas coisas podem-se tornar insuportáveis.

E independentemente do lado quimérico ou mitológico do poeta, ele vai-se regionalizando, primeiro entre as tunas académicas, depois no chão da terra; é a época das grandes indignações à Guerra Junqueiro. Eles tinham causas! Toda esta gente me parece agora esmagada pelas pedras sepulcrais do Tempo, e se em “pedacinhos de ossos” encontramos um Camilo Pessanha na grande Necrópole, este foi em busca de um certo «Noivado do Sepulcro» que o seu romantismo programático à Lamartine foi beber.

Mesmo na senda das grandes mudanças a segurança em lendas tem sido na Literatura Portuguesa, mais do que em qualquer outra, uma nota importante a considerar: mudar sim, mas sempre um pouco extemporaneamente, talvez porque tenhamos de facto mais passado que futuro, que sempre num país incerto se vai fazendo sem a justa medida não só dos tempos singulares, como de uma noção desregulada de progresso. Um regicídio foi tudo o que sobrou de real a uma verdadeira intervenção poética, e para isso se agruparam antes e depois alguns pequenos exércitos destes homens.

Batalhas que não dão sossego para um povo que varre os cadáveres para debaixo dos tapetes e trata a morte com um instinto de civilização tamanha que os dias da sua vida não têm, e em nada reflectem a expressão de Lamartine «Je te salue, ô Mort! Liberateur céleste, Nous voilá face à face avec la vérité!» No entanto os nossos suicidas só lá para a «Geração de Setenta» e no início do século vinte fariam as honras mais prósperas desta eleição o que leva Miguel de Unamuno a escrever «Portugal um povo de suicidas» são ainda as grandes depressões ultra-românticas.

A idílica temática da Morte como componente atractiva é aquela que nos leva até à «Rainha Morta» reabilitada com desvelo por António Patrício numa velada paixão pelo cadáver em que tudo parece assombroso repondo assim uma formidável energia esquecida. Eles acabam por se entrelaçar em toda esta poesia finissecular, de tal ordem em movimento constante que nos deixam aturdidos por uma riqueza que desconhecemos, que é a da acção da Língua como modelo escultórico do entendimento. Aliás, Soares de Passos é muito visualista, muito exacerbado nas suas interpelações verbais, e se não foi a pintura que nos deu a grande causa, pois não somos definitivamente espanhóis, esta natureza pictórica dos autores agora expostos não desmerece em nada a pintura vizinha. Até Cesário a paleta cresce, na «Visão Visual» do poema.

Tudo isto é tão especial que apetece lembrar. Reabilitar o substrato e esquecer o artefacto que nos dilui, isso sim, num suicidário esquecimento. E pensar que ele reabilitou Agar e se misturou nas areias de um deserto lendário para dignificar a mãe ameaçada e dar relevo a um projecto tão humano! É um poema lindíssimo que não desmerece o sopro mariânico da componente colectiva que era a sua. E agora no meio destas mães tão sós, quem se lembra ainda a escrava Agar? O silêncio. E uma cantata de morbidez reflexa em Templos onde não passa este olhar incrível dos poetas.

 

Oh! quem dissera nos passados dias

Em que em meu colo te cerquei de amor

Oh! quem dissera que a morrer virias

Neste deserto sem achar frescor?

Emurcheceste, já não tens verdura,

Perdi meu filho: sobre a terra dura

Correi, meus prantos, sem cessar correi!

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