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F acebook, Lisboa, 10 Março

O uso das fotos de perfil no livro das caras merecia umas horas de reflexão mais ou menos divertida. A mim interessa-me o gozo de compor suposta identidade da forma mais disparatada, comentando, representando, homenageando, espelhando, jogando, revelando, escondendo. Tenho repetido amiúde leões e agora volto a chamar Peyroteo ao rosto. Faria cem se fosse vivo, o jogador recordista de golos que gostava de ópera, coisa só assinalável nesta época de tão rica carestia (tanta oferta, tão pouco desejo). O Peyroteo continua a jogar comigo em conversas sem conta, tanto que gostava de lhe publicar biografia a sério, assim à maneira de Ruy Castro. Chamaram-lhe stradivarius, por ser o mais letal dos Cinco Violinos. Que instrumento gostaria de ser se fosse grande?

 

Horta Seca, Lisboa, 10 Março

Felinos escondem-se no verde da paisagem, em belo desenho da Inês Machado, logo na primeira página. Mais adiante a banda desenhada e mais desenhos, além de poema e texto solto. «Abyssal», revista de edição limitada e impressa em risografia, será o resultado mais duradoiro da primeira Festa Abyssal, uma mini-feira que queremos periódica, e neste querer incluem-se as vontades do Gonçalo [Duarte] e do Xavier [Almeida]. Além editores e/ou autores de projectos afins, como a Triciclo, a mostrarem os seus trabalhos de ourivesaria gráfica, teremos exposição convidada, no caso foi o Bruno Borges, com as suas massas dançantes, concertos e o mais que nos aprouver. Por exemplo, cerveja, numa proposta da Trevo, do João [Brazão] que alegrou a tarde chuvosa. «Abyssal» deu que ver, dá para ler e pode-se beber. Dura apenas um dia de cada vez.

 

Musicbox, Lisboa, 10 Março

Ainda não tinha tido oportunidade de ouver Beat Hotel, o projecto do André [Gago] em torno da poesia da Beat Generation. O trocadilho justifica-se pelo lado performativo do concerto, com a imagem a somar-se à voz e aos outros instrumentos, navegando ondas alterosas de rock, o propriamente dito, além do progressivo e do sinfónico, mas ainda de blues e jazz. Os poemas de Kerouac, Corso, Ginsberg, Ferlinghetti e Burroughs chegam quase a ser cantados, numa dança que me põe a pensar na geometria variável que a poesia dita vai desenhando. Onde começa a canção? Muita riqueza anda a acontecer por aqui. E pensar rima com dançar.

 

  1. Jorge, Lisboa, 16 Março

Ao contrário do que planeara, consegui apenas, e a muito custo, ir à sessão de competição das curtas portuguesas da Monstra, sinal maior da vontade do [Fernando] Galrito em nos pôr a ver animação. A qualidade do trabalho nacional não é nova para mim e este lote, sobretudo na variedade, comprova-o. A surpresa deu-se nos temas: a solidão e o trabalho infantil, a doença nas crianças, a agorafobia, a desertificação ou a crise económica foram alguns dos assuntos abordados, com mais ou menos densidade, com mais ou menos humor. O premiado «A Sonolenta», da Marta Monteiro, e a menção honrosa, «Água Mole», de Laura Gonçalves e Xá, são excelentes exemplos. Um conto de Tchekhov serviu para a Marta desenvolver uma narrativa encantatória e sensível sobre vidas condenadas desde cedo ao trabalho. O final não é feliz. «Água Mole» parte do real, as vozes, para contar da resistência ao esquecimento do nosso interior. Um careto tornado personagem acendeu-me uma esperança, a de que somos ainda capazes de revisitar a nossa tradição. Ainda me emocionei com o «Surpresa», do Paulo Patrício, também ele partindo de uma voz real para desenvolver fantasia gráfica sobre doença, hospitais e afecto. Noto agora que os sons foram presença forte, muito por causa de «Das Gavetas Nascem Sons», de Vitor Hugo Rocha, que fez sonoplastia da memória. «Razão Entre Dois Volumes», da Catarina [Sobral], compõe personagem que perde uma memória, um pensamento, uma emoção. Trata-se do sr. Cheio, parceiro do sr. Vazio que não encontra nada que preenche e por isso parte em viagem. Será menos real que as outras, esta história?

 

Horta Seca, Lisboa, 17 Março

Vou vivendo vários livros ao mesmo tempo, a pensar na cadência da frase, na profundidade de uma observação, a conversar com personagens, a dialogar, em silêncio ou não, com o autor, a vislumbrar a sombra do objecto. Matuto ainda no detalhe, nas inúmeras combinações a convocar para que se torne material um espírito volátil suscitado pelas letras. Depois, a urgência obriga-me a mergulhar como âncora em um apenas, aquele e não outro. Nos últimos dias foi «Poetas Portugueses de Agora», da Lisbon Poetry Orchestra. Primeiro foi a música do Tiago Inuit, Luís Bastos e Filipe Valentim, capitaneada pelo Alex Cortez a partir de busca da voz dos poetas, Cláudia R. Sampaio, Daniel Jonas, Filipa Leal, Paulo José Miranda e Valério Romão. Seguiu-se a harmonização das vozes deles com a dos diseurs, Paula Cortes, Nuno Miguel Guedes, André Gago e Miguel Borges. Muitas afinações depois, o papel começava a ser horizonte desenhado pelo Daniel Moreira, através de aproximações esboçadas em objectos e seres fragilizados pelo lápis, fragmentos de natureza, minerais e madeira, paisagens melancólicas, céus e paredes com sujidades, correcções a branco (exemplo algures na página). O livro chegou ontem, também ele concebido pelo Daniel como caderno de campo, diário de viagem, com páginas em branco para serem desenhadas pelos leitores a partir da experiência dos inúmeros concertos anunciados, ou do cd com vozes e música ou das palavras ou do silêncio. Hoje celebramos a exposição, não apenas de desenhos, mas da ideia que os sustentam, móveis que permitem aos que queiram sentar-se, ouvir, ler, desenhar. Uma janela apenas abre para outras linguagens, uma caixa com vista para a oficina do artista. , «Caderno de um Mundo Inacabado», assim se chama. O Daniel interpretou bem a força que se solta desta fragilidade, a palavra como ferida no joelho nascida do tropeção durante a corrida. Desenhou sobre o abysmo uma montanha que se pode tocar, subir com os dedos.

 

Horta Seca, Lisboa, 18 Março

O Ricardo [J. Rodrigues] que há muito me desafiara, resolveu em semana de aniversário extrair-me «lições de vida», coluna da Notícias Magazine hoje publicada. Perturba sempre qualquer coisa encarar a nossa imagem reflectida no olhar dos outros. A banda desenhada fez-se segunda pele da qual não mais me livrarei. Não me incomoda e atrevo-me a achar que percebo. O ziguezague do meu percurso não permite grandes conclusões, a não ser esta em me encontro e à qual cheguei para desbloquear crise da meia-idade: o editor no olho do furacão, ponto impróprio da geometria descritiva, que faz convergir no infinito os paralelos do aqui e agora.

 

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