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O pensamento ontológico de Parménides mostra-nos a radical diferença entre a verdade e a opinião. A primeira alcança-se através do espírito, da consciência, e a segunda através dos sentidos. Por outro lado, o ser é uno, indivisível, imóvel, verdadeiro, ao passo que as coisas advindas dos sentidos são múltiplas e sempre numa relação com outras coisas. Parménides descobriu as coisas como entes, como algo que é; e, em consequência disso, teve de atribuir ao ente uma série de predicados que são contraditórios. E isto apresentava um problema.

Reveja-se o exemplo clássico da vara nas águas do rio: a vara introduzida na água dobra, segundo a vista, segundo os sentidos, embora na realidade continue recta. Por conseguinte, fica-se perante uma situação embaraçosa, em que temos de dizer que há o ser e o há não-ser.  Ainda que ele dissesse que esta era a via da opinião, que segundo os sentidos os entes poderiam ser e não-ser, acrescentando que só a via da verdade, da razão pode dizer o real, a verdade é que estávamos diante de um problema. A multiplicidade, que é onde os corpos vivem, que é onde a nossa vida acontece, está condenada a uma infinita aparência, uma infinita falsidade. O mesmo problema acontece com o movimento.

O ser é imóvel, todos os entes na sua essência, isto é, todos os entes na sua verdade não mudam, aquilo que é, é de modo permanente. Parménides parecia ter aberto a porta para o interior das coisas, para o interior da essências das coisas, mas fora impotente para resolver a relação entre a essência das coisas e o modo como elas nos aparecem. No fundo, incapaz de ligar o mundo do que é verdadeiro, essencial, e o mundo onde nos movemos, o mundo das aparências. Será Heráclito que, primeiramente, irá tentar resolver esta aporia em que Parménides caíra.

Vejamos então como Heráclito pensava. Heráclito nasceu em Éfeso, na Ásia menor, foi chamado a governar a cidade, mas não aceitou o cargo, de modo a poder dedicar-se por inteiro à filosofia. Xenófanes, Parménides e Heráclito eram contemporâneos, mas o primeiro era o mais velho de todos e o último o mais novo. Heráclito conhecia bem o pensamento de Parménides. Heráclito desprezava a multidão e condenava os cultos e ritos da religião popular. Os gregos deram-lhe o cognome de “o Obscuro”. Diz-se do oráculo de Delfos, que não manifesta, nem oculta o seu pensamento, indicando-o apenas por sinais, e isto poder-se-ia aplicar ao pensamento de Heráclito.

Como grande conhecedor de Parménides, Heráclito identificara bem o problema da via da opinião e irá fundar o seu pensamento ontológico ou metafísico num conceito a que dará o nome, que importámos do latim Devenire, para o português Devir. Mas o conceito usado em grego por Heráclito é menos abstracto: panta rhei, tudo flui. Tudo flui, isto é, fluência é o conceito chave do filósofo de Éfeso.

Veja-se alguns fragmentos de Heráclito:

“Para aquele que entra no rio, é sempre outra e outra a água que flui.”

“Tudo o que está a ser, move-se, nada permanece parado.”

“Tudo muda, nada permanece igual”

“Não se pode pisar duas vezes as águas do rio.”

“A um mesmo tempo, pisamos e não pisamos o mesmo rio; somos e não somos.”

Heráclito parece fazer dos sentidos o centro do seu pensamento, pois afirma repetidamente a impossibilidade da permanência e do não movimento do ser; afirma ainda que nós somos e não somos, ao mesmo tempo. Tudo é e não é, a um mesmo tempo, tudo é fluência. Estamos perante uma inversão completa do pensamento de Parménides. Mas para além da fluência, há mais dois conceitos fundamentais no pensamento de Heráclito: polemos (guerra) e logos (sentido). Afirma também que o fogo é o elemento primordial. Por conseguinte, dirá: “O mundo é um fogo sempre vivo; partes desse fogo são sempre extintas para formar as duas outras principais massas do mundo, o mar e a terra. As mudanças entre o fogo, o mar e a terra equilibram-se mutuamente; o fogo puro, ou etéreo, tem capacidade directiva.” (…) “Esta ordem do mundo, não a criou nenhum dos deuses, nem dos homens, mas sempre foi e é e será: um fogo sempre vivo, que se acende com medida e com medida se apaga.”

A esta noção de medida viremos mais tarde, quando tratarmos do logos, vejamos agora como se acende e apaga o mundo, isto é, como se explica o movimento, que não existia para Parménides, se não como ilusão. Heráclito explica o movimento através da discórdia ou guerra, cuja palavra em grego épolemos. Chega mesmo a dizer que a guerra é a dikê, isto é, o caminho certo, a justiça. Esta guerra outra coisa não é senão a expressão da luta de contrários, existente em tudo o que é. A mudança do mundo é uma guerra. O mundo, tudo o que é, tudo o que há, está em constante guerra. A mudança é uma guerra. As coisas a mudarem é a face da guerra, da guerra a acontecer, não só no interior de todas as coisas, mas na própria essência de todas as coisas. Ser é ser em mudança. Dirá mais tarde Camões, “todo o mundo é composto de mudança / tomando sempre novas qualidades”. Poderíamos substituir mundo por ser, em Camões, que as contas batiam certas. Este poema de Camões, provavelmente o poema mais heracliteano que conheço, expressa bem a consciência da mudança, que tudo governa, como dizia Heráclito. Veja-se o poema de Camões, antes de avançarmos para uma análise do sentido da fluência em Heráclito.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

Muda-se o ser, muda-se a confiança:

Todo o mundo é composto de mudança,

Tomando sempre novas qualidades.

 

Continuamente vemos novidades,

Diferentes em tudo da esperança:

Do mal ficam as mágoas na lembrança,

E do bem (se algum houve) as saudades.

 

O tempo cobre o chão de verde manto,

Que já coberto foi de neve fria,

E em mim converte em choro o doce canto.

 

E afora este mudar-se cada dia,

Outra mudança faz de mor espanto,

Que não se muda já como soía.

 

Mas vejamos a mudança em Camões à luz da guerra em Heráclito, pois no fundo não é outra coisa o que Camões canta. Assim, quando cada um de nós engorda, envelhece, fica careca, ou definha, tudo não passa de expressões da guerra que acontece em nós mesmos, a guerra a destruir-nos e a construir-nos, a mudar-nos. Quando nos tornamos mais inteligentes ou mais experientes, é a guerra, que aconteceu, que nos transformou. Quando tudo deixa de ser o que é para ser uma outra coisa, é a guerra ou, se preferirem, a discórdia a acontecer ou o resultado da mesma, o já ter acontecido.

Nada pode ser permanente, se tudo está em mudança. Por conseguinte, tal como nós, que somos e não somos, também tudo o que é, é e não é. Ser e não ser, ao mesmo tempo, é a dikê, a justiça, o caminho recto de tudo o que há. Para termos uma noção mais precisa de sermos e não sermos ao mesmo tempo, basta mostrar um foto nossa, quando éramos criança, a uma criança. Ela não consegue entender, não consegue ver que nós fomos aqueles que estamos agora a mostrar como tendo sido. Para a criança nós somos o que somos e não o que não somos, que é o tempo de criança. Na verdade, esta experiência de mostrar uma foto nossa de criança, a uma criança, mostra claramente que somos e não somos ao mesmo tempo. Nós somos aqui e agora a mostrar a foto, mas também não somos aqui e agora naquele que fomos. A criança não consegue entender esse não ser, a criança não entende que não somos, pois é isso mesmo que o nosso passado é para a criança; passado, esse, sem o qual nós não seríamos aqui e agora.

Ainda ontem, uma jovem mulher que cresceu comigo como se fosse minha filha, ao longo de quase dez anos, escrevia-me acerca do fim de semana dela, em família, aquela que também foi um dia a minha, dizendo: “Como é engraçado ver o quanto as coisas mudam. E o quanto elas não mudam também.” Esta condição, esta tomada de consciência levada a cabo por essa jovem, bem poderia ter sido um fragmento de Heráclito: tudo muda, mas nada muda também; embora neste não mudar haja mudança. É uma complexa dialéctica, onde Heráclito tenta dar conta do que nos acontece. Mas o mesmo acontece com a natureza. Veja-se o caso da borboleta. Ela é e não é. Quem ao olhar uma borboleta, sem que o saiba, consegue imaginar o casulo e a larva que ela também é? Tudo está em constante mutação, em constante mudança.

E, contrariamente a Parménides, que reconhecia a existência de tudo isto, mas remetia tudo para a doxa, a opinião, a via da falsidade, pois todo este falso conhecimento chegava-nos através dos sentidos, que não são de fiar, Heráclito vai dizer antes que esta é que é a via da verdade, esta é que é a verdade do mundo, a verdade de tudo o que é. Tudo muda, tudo flui, tudo está numa contínua guerra. Mas, contrariamente ao que se possa pensar, não se trata de afirmar os sentidos acima do nous, do espírito, da consciência. Não é através dos sentidos que acedemos à guerra que acontece no mundo, a cada momento e em todo o lado, mas através do logos.

O Logos, que podemos traduzir por sentido, embora seja comummente traduzido por palavra ou discurso, é aquilo que faz com que se entenda o que se entende. Aqui, tanto Parménides quanto Heráclito concordam, o ser do homem reside na palavra, isto é, na compreensão daquilo que é a sua situação no mundo. Em Heráclito, a palavra pode nem ser a palavra em sentido literal, isto é, a palavra escrita, a palavra falada, mas uma consciência particular, uma linguagem outra, mas que de algum modo entre em contacto com outros. Parménides pretende que a compreensão dessa situação seja toda ela espiritual, da razão, ao passo que Heráclito pretende que o sentido da situação do homem seja compreendido na mente e no tempo, isto é, na situação particular do homem de saber que tem de cuidar de si mesmo.

Em Heráclito logos é simultaneamente palavra (discurso, como em todos os gregos), proporção e sentido. Mas o que entendemos por sentido? Usualmente, quando alguém faz uso da palavra, sentido quer dizer que algo é inteligível, isto é, que algo está a acontecer de tal modo que ele o consegue compreender. Aqui, sentido diz tão somente que alguém está a compreender o que se passa; aquilo que lhe está a ser dito, aquilo que está a ver, ou aquilo que está a pensar. Um texto em ideogramas chineses é incompreensível para a grande maioria dos ocidentais, esse texto não fará para nós qualquer sentido, assim como para a maioria das pessoas o verem uma fotografia da configuração electrónica de um átomo. De facto todos nós estamos a ver, mas o que vimos não nos é compreensível, não produz sentido. Mas sentido quer também dizer direcção, isto é, o caminho ou o percurso que se toma.

Quando alguém, junto ao Largo de Camões, me pergunta onde é que fica o Teatro São Luís, eu indico-lhe (mostro-lhe) o sentido que ele quer: “O senhor segue sempre em frente, sempre por esta rua…” Em suma, eu dou-lhe a direcção, dou-lhe o sentido que ele procura. Por outro lado, ele ao não saber o sentido (direcção) que deveria tomar para chegar ao teatro São Luís, está deposto numa não inteligibilidade do caminho, isto é, ele não compreende a rua que tem diante dos olhos. Aquilo que para mim e para vós é mais do que evidente – ou seja, quando queremos ir ao teatro São Luís nem sequer pensamos nisso, quer dizer, não precisamos de nos pôr a pensar “ora, o que é que tenho que fazer para ir ao teatro São Luís?”, ou “e ainda fica longe?” –, para aquele senhor que me interpela pode ser tudo evidente, tudo menos isso. Porque aquilo que faz sentido é aquilo que sabemos.

Este saber não é algo de erudito ou teórico, é algo que faz parte da vida a cada momento, como por exemplo cortar o pão ou saber a direcção do que se procura. E aquele que pergunta já sabe alguma coisa, pois por isso pergunta. A pergunta é um modo de saber em estado de nevoeiro, que no fundo é o nosso estado em relação à nossa vida. Mas quando alguém pergunta pelo teatro São Luís, ele sabe várias coisas: o que é um teatro, que ele fica em Lisboa, que fica próximo do Largo de Camões, onde ele pergunta pela direcção, etc.. Ele sabe várias coisas, mas não por aquilo que pergunta, não sabe como lá chegar. A este saber em forma de pergunta, esta consciência do que se quer saber, que se quer saber mais, é comum a todos e chama-se Logos. O Logos é comum a todos.

Tentemos ligar então dois poderosos fragmentos de Heraclito, 89 e 45. No fragmento 45, Heráclito escreve: “Não é possível descobrir os limites da alma, mesmo percorrendo todos os caminhos: tão profunda medida ela tem.” No fragmento 89, escreve: “Os despertos (acordados) têm um mundo único e comum, e cada um dos adormecidos se vira para si mesmo.”

Para Heráclito, a alma humana não se conhece a si mesma, pelo menos não no mesmo sentido que podemos conhecer as leis matemáticas. Por outro lado, ele traça uma linha fundamental, e original, entre os estados de vigília e de sono. Na vigília há um só mundo para todos, um mundo que é comum, mas quando se cai no sono ficamos enclausurados num outro mundo, que nos é próprio, que é de cada um de nós; no sono mantemo-nos desligados dos outros e do mundo, fechados em nós mesmos. O homem adormecido está preso em si mesmo, numa imaginação desenfreada, desligado da realidade comum. Aquele que dorme não conhece o outro. Mas ele não está somente longe da alteridade, está também longe da sua própria alma. Como uma criança, que passa a maior parte do tempo a dormir, a sonhar, desligado do pensar. A alma humana está ligada ao Logos comum, ao pensar. Quem dorme não pensa.

Este sublinhar a necessidade do estado de vigília, é também o sublinhado, não só do ponto de vista ontológico, pois só acordados podemos pensar, como também o sublinhar de um ponto de vista ético, pois é no comum, na alteridade que o humano cresce, e não no próprio do sono, do sonho, da imaginação sem correspondência real. Não podemos esquecer que aquele que dorme, em sentido literal, não toma conta de si. No sono estamos entregues aos cuidados da sorte, e não aos nossos cuidados.

É aqui que podemos dizer que o humano é aquele que sabe que tem de se cuidar, tem que velar pela sua própria vida. Há, evidentemente, uma primazia do saber em Heráclito, de tal modo que criticou Pitágoras, acusando-o de polimata, alguém que sabe muitas coisas, mas não aquilo que verdadeiramente importa. Por conseguinte, este saber que Heráclito privilegia, é o saber que não contraia o Logos, o saber que nos faça ver aquilo que somos e o que é o mundo. E não há nós sem mundo. Não há nós sem Logos. Enquanto Parménides traça uma ontologia centrada na razão, Heráclito irá traçar uma ontologia centrada no humano e, neste sentido, um pouco à imagem do que dois milénios e meio mais tarde Heidegger irá traçar no seu Ser e Tempo.

Não se pode pensar, segundo Heráclito, partindo do pressuposto de que a nossa vida é falsa, que os nossos sentidos nos enganam. Nós somos, à imagem do mundo, fluência. Tudo é fluência, devir. Não se pode querer pensar como se nós fôssemos permanência absoluta, ainda que racionalmente possamos pensar essa hipótese. Para Heráclito, mais importante do que a distinção entre sentidos e razão é a distinção radical entre vigília e sono, que mostra claramente que o filósofo de Éfeso compreendeu a essência humana, isto é, a necessidade de ter de cuidar de si e a consciência dessa situação.

Por outro lado, a compreensão de que é na vigília e na compreensão da situação humana, que podemos também traçar uma ética, porque na vigília participamos do Logos, do que é comum. Mais tarde, na sua derradeira crítica, a estética, Kant irá retomar este conceito de comum de modo a explicar os juízos estéticos. Também ele entenderá, como o filósofo de Éfeso, o arrazoado dos juízos fora da comunidade. Sem sensus communis, dirá Kant, não há juízos estéticos ou quaisquer outros. Sem sensus communis não há juízos, ponto final. É também assim que Heráclito entende o sentido da vida humana: sem comum não há verdadeiramente humanos, mas gente que dorme ou bêbados, expressões adormecidas da vida humana.

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