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P. é um arqueólogo norte-americano, com quem trabalhei durante algum tempo, e que esteve na origem de me ser atribuído, em 1997, um vistoso diploma, devidamente emoldurado, a castanho e dourado, com os seguintes dizeres: Texas A & M University Recognizes Dr. Miguel Martins In appreciation of Excellence in Teaching within the discipline of Anthropology.

Ora, acerca de P., não posso perder a oportunidade de contar um par de histórias:

A primeira tem que ver com o seu irmão, portador de uma doença mental que não sei precisar qual seja mas que faz com que, a maior parte do tempo, viva internado numa instituição especializada. Todavia, segundo P., poderíamos passar um dia inteiro a conversar com o irmão sem que nos apercebêssemos de qualquer desvio à chamada normalidade. Acontece, apenas, que o rapaz se torna violento, tendo já obrigado à hospitalização de vários indivíduos, sempre que, na rua, vê mimos e homens-estátua.

A outra história passou-se directamente com P., aquando da sua participação num congresso, algures na Califórnia. Aí, durante um dos momentos de convívio, conheceu uma rapariga, tendo havido imediato interesse mútuo, o que conduziu a que acabassem por passar a noite juntos, em casa dela.

Tratava-se de uma faustosa vivenda, a que se chegava percorrendo uma alameda que desembocava num largo arborizado, usado como parque de estacionamento.

Ora, a meio da noite, P. despertou e achou por bem regressar ao seu hotel. Não encontrando papel e caneta para deixar um bilhete, decidiu que regressaria, na manhã seguinte, para despedir-se da moça. Entrou no carro e, ao fazer marcha atrás, embateu numa árvore. Não se preocupou por aí além. Pensou: “Amanhã, quando me vier despedir, pedirei desculpa pelo sucedido”.

Só que, no dia seguinte, estacionou no mesmo local, saiu do carro e, olhando a malfadada árvore, viu que esta, completamente tombada, arrancada ao solo pelas raízes, ostentava uma placa com a seguinte inscrição: “Plantada em 17??, esta é uma das árvores mais antigas da Califórnia”. Entrou em pânico e partiu imediatamente, sem sequer se despedir da rapariga.

Não gosto de congressos, reuniões, conferências, debates, etc. Raro me apanham nisso e, quando vou, regresso quase sempre irritado comigo. Antigamente, gostava. Fosse como ouvinte ou como orador. Mas, antigamente, fazia tantas coisas que agora nem me passam pela cabeça. Política, por exemplo.

Cruzes, canhoto! – digo hoje, procurando enxotar para bem longe de mim tanto disparate.

(Convicções, bem vistas as coisas, nunca as tive, ou, melhor dizendo, sempre soube o que recusava mas, quanto ao que pretendo, isso sempre me remeteu, de imediato, para o plano do onírico – e ainda bem! O pensamento não é, no meu caso, uma operação que se realiza sobre a realidade mas sim aquém ou além dela).

Numa dessas ocasiões, uma das menos disparatadas, participei, em Genebra, a convite de J., ex-deputado, empresário e divulgador de música rock, num congresso do Partito Radicale Transnazional. Aí, conheci figuras relevantes da política italiana, como Marco Pannella e Emma Bonino.

Mas a figura deste partido que alguma vez teve maior mediatismo (para incómodo dos actuais dirigentes) estivera com ela em Lisboa, muitos anos antes, num contexto totalmente diverso — refiro-me a Ilona Staller, vulgo Cicciolina, actriz de filmes pornográficos, deputada e, depois, mulher e musa do escultor Jeff Koons.

Aquando dessa sua passagem por Lisboa, Ilona visitou a Assembleia da República. A esse propósito, a poetisa Natália Correia, ao tempo deputada, escreveu a seguinte quadra:

Estava o Parlamento em tédio morno

Do Processo Penal a lei moendo

Quando carnal a deputada porno

Entra em S. Bento. Horror! Caso tremendo!

Também conheci Natália Correia. Sem pretender com isso diminuir a sua erudição, devo dizer que era uma pessoa insuportável. Ouvi-la falar, na televisão ou ao vivo, era um teste à paciência de um santo. Como política, uma desgraça (em todo o caso, claro, melhor do que 95% dos que agora temos). Como poeta, quase sempre desinteressante (em todo o caso, claro, melhor do que 80% dos que agora temos).

Poetas (quero dizer, escritores de poesia, que poetas é outra coisa, só às vezes — raro — coincidente), poetas irritantes, dizia, a roçar o insuportável, é, aliás, o que há mais — aí, a percentagem deve andar pelos 70%.

Estas percentagens, como se calcula, são de uma cientificidade absoluta…

O rigor, supérfluo e presumido, acessório da vaidade e, logo, da fraqueza, é outra coisa que me irrita.

O interesse reside na exposição, não na veracidade.

Acredito na star quality, não no método.

Gosto muito mais do Humphrey Bogart do que do Marlon Brando.

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