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10/10/17

Adianta Olivier Rolin que Michaux viajava «para expulsar de si a sua pátria, as suas amarras de cultura grega ou romana, ou germânica ou hábitos belgas».

«O que é uma civilização?», pergunta o belga a fechar Um Bárbaro na Ásia para responder com uma radicalidade que não receia o paradoxo: «Um impasse (…) Um povo devia ter vergonha de ter uma História».

Como isto acerta na mouche, ou com mais precisão, na tsé-tsé, visto da minha varanda de Maputo sobre os falhados estados africanos e a ignóbil façanha com que os “libertadores” se locupletam alarves, limpando os pés ao capacho em que converteram o seu povo.

Ser «enraizado», escarnece Rolin, «deixemos isso para as beterrabas».

Uma nação só está madura quando se esquece de si mesma. Não a que esteja alienada de si, como a nação colonizada, mas esquecida, ou seja, tão saturada de si que prefere entregar-se ao cosmopolitismo. Aí não lhe dão as febres nacionalistas, que resultam de uma identidade cultural ter caído na patologia da abstracção. E educa os seus cidadãos para serem cidadãos do mundo.

Entretanto, a confrontação no conflito catalão está assegurada e será estúpido acreditar que se vai confinar ao campo institucional e aos tribunais.

Com verdadeiro destemor (cojones ele tem) Puigdemont, no seu discurso de hoje, foi o mais longe possível na retórica da independência e sem declarar guerra aberta reiterou a falta de fidelidade ao rei (aliás, em vez da bandeira da independência imediata ergueu a da República, o que para bom entendedor…) e face à sua provocação a violência que vimos no dia do Referendo, apesar de um aparente apelo ao diálogo, vai crescer. Repare-se, primando por um cinismo exemplar, Puigdemont suspendeu a  independência para reafirmar a legitimidade desta, o que deixa sem recuo Rajoy e o rei Felipe.

Eu que fui a favor do Referente, tinha sérias dúvidas sobre a necessidade de uma suposta independência da Catalunha, porque nem tudo o que é plausível é o mais funcional. Agora é totalmente incerto o que vai acontecer.

Rajoy, que deveria aproveitar a oportunidade para alterar a Constituição e transformar a Espanha num estado federal, dando maior autonomia às nações hispânicas, não vai resistir – até para mostrar como a legalidade tem por si a força – a aplicar o artigo 155, jugulando a honra catalã.

Aí será o ponto do não retorno. E a irracionalidade vai crescer como os cogumelos.

Uma última proposta: exporte-se o Costa (por muito dinheiro) para a Catalunha. Ele negoceia, ele reconcilia.

10/10/2017

Ontem baixei vinte livros da net, de três autores de quem gosto muito: Philippe Sollers, François Cheng e Pascal Quignard. Para quem como eu vive sem boas livrarias nas imediações é um consolo. Fiquei radiante, e simultaneamente apreensivo. A facilidade com que hoje se fura o pneu que permite ao autor viver à tona de água é alarmante.

Em Moçambique não há livrarias, ou só as há de best-sellers e que carregam no preço do livro, que chega a custar meio ordenado mínimo. A única teta à mão é a net, e a pirataria campeia. É a única e verdadeira indústria cultural por estas paragens. O jovem ou lê um dos vinte e muitos livros do Mia Couto – é um exemplo – que hoje se baixam na net, ou não lê.

Ainda esta semana descobri na net um livro de que acabei de fazer um posfácio para uma segunda edição (nem sei se já saiu da tipografia), de uma ensaísta brasileira. É um livro fantástico que cruza filosofia e estética e que aborda os regimes da figuração do corpo na arte da primeira metade do século XX. Inclui-o na bibliografia obrigatória de duas disciplinas e já pus duzentas pessoas a lê-lo. Agora baixa-se, gratuitamente.

Tudo isto está errado e está certo. Do ponto de vista antropológico os desfavorecidos têm de corrigir os desequilíbrios sociais, as entropias, e às vezes os danados da terra só pelo crime se resgatam.

Como autor fico alarmado.

Há definitivamente que estabelecer-se um novo tipo de contrato social para que a rica opulência de alguns (em Inglaterra publicam-se por ano 9000 livros só do género infantil, em Moçambique 100, de todos os géneros) não degenere nesta tribulação dos direitos intelectuais.

Antes que, como diria o Xie Lingyun, o Yang na sua frescura renda o Yin exausto.

11/10/2017

“Os mortos não têm mais a palavra, ou antes, têm-na mas seca, sem a água que a faça viver. E por isso em muitas culturas se faz a libação à terra, para devolver com a humidade um pouco de palavra aos mortos”: leio numa entrevista de Geneviève Calame-Griaule sobre os Dogons.

Eram belas as tradições quando eram realmente vivas, antes de se converterem em tradicionalismos tacanhos e de uma severa esterilidade.

Preparando entretanto uma colecção de livros orientais, petisco à esquerda e à direita, e apanho esta coisa maravilhosa do Sri Aurobindo sobre as realizações espirituais: «esta assombrosa reverência pelo passado é algo desconcertante e temível! Ao fim e ao cabo, o Divino é infinito e o desdobramento da Verdade pode ser um processo infinito ou ao menos que permita o espaço para novos descobrimentos e novas afirmações, inclusive, até novos conseguimentos…». Isto é importantíssimo e convém repeti-lo: o tradicionalismo faz de Deus um coxo e dos seus atributos infinitos algo determinado com régua e esquadro. A mim que sou um ateu intermitente um tal conceito handicapado não afecta. Mas é perturbador pensar que supostos crentes abraçam com fervor e de cara lavada a hipótese de uma amputação divina, como se não se sentissem culpados por transformarem Deus num galo capão.

A aventura espiritual, que a há, aquela que nos transforma, é que não consente em tais limites. É mesmo uma questão ética.

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