Feiras do Livro

26/08/20

Não faço a menor ideia de onde surgiu esta caneta Lokubo que me apareceu numa bolsa da mochila e com que agora enxameio estas linhas – terá sido com uma caneta igual que Mark Strand, o grande poeta americano, se pôs a enpijamar os mortos? De qualquer dos mortos se recolheria pestanuda gratificação – há lá ofício mais nobre do que vesti-los para dormir? Mesmo numa vala comum devia ser obrigatório o pijama. Quem não enpijamasse os defuntos seria sujeito a pena.

27/08/20

Há ventos que insidiosamente enlouquecem os relógios. Como os que têm varrido a Feira do Livro de Lisboa, que está a retalho. É tão bom ver que metade dos stands se oferece como lojas em liquidação, é tão mau constatar que os moribundos já não têm valor. Quem “destapa” o logro e reconhece o que isto significa?

28/08/20

«”Deixei a Síria por medo dos bombardeamentos – mas quando isto aconteceu, desejei ter morrido sob uma bomba”. Najma al-Khatib, professora síria de 50 anos e mãe de dois filhos, é uma das testemunhas ouvidas pelo The New York Times.

Ao jornal, conta que foi levada de um centro de detenção na ilha de Rodes por oficiais gregos mascarados e abandonada num bote sem leme e sem motor em alto mar, antes de ser resgatada pela Guarda Costeira turca. Com ela estavam outras 22 pessoas, incluindo dois bebés.

Segundo o jornal, as autoridades gregas terão feito pelo menos 31 expulsões semelhantes desde março – no total 1.072 requerentes de asilo foram abandonados em mar alto.»: leio e coro de vergonha. Oficiais gregos mascarados? Coro de vergonha. Sem que a Europa tenha apontado a ignomínia? Coro de vergonha. Eis os coros de Sófocles enterrados pelo guano turco – não há-de Erdogan fazer o que quer!? Mais digno de facto morrer num bombardeamento – o futuro de uma Europa desossada de valores.

29/08/20

Triste, chegar o incauto de dez mil quilómetros para levar banhadas de amigos ou ouvir alguém “defender-se” deste modo: não posso estar contigo antes das onze porque não consigo acordar cedo. É cavilosa a dor de dentes no vazio dos búzios.

29/08/2020

Alegria por descobrir que a arte ainda se usa de múltiplos plintos, para além de baptizar urinóis. Gesto até imérito, mas que de tão repetido já condói de irrelevante. Aqui, pelo contrário, encontramos a leveza e o denso, a paródia e a veneração do palimpsesto, o humor e a reflexão, os sinais da tragédia permeados pela intensidade com que se recomeça, a criatividade no seu espectro mais amplo e necessário: https://issuu.com/pedroproenca5

Abra e espante-se por encontrar cento e quatro livros escritos, desenhados, magnificamente editados, pelo escritor e artista plástico Pedro Proença. Foi esta a minha mais enriquecida Feira do livro deste ano.

Se entretanto hesita, porque embater na esquadra de alguém realmente criativo exige mais do que a airosa coragem de jogar à batalha naval, comece por ler o livro de Pedro Eiras, O Riso de Momo/ Ensaio sobre os ofícios de Pedro Proença em torno da exposição O Riso dos Outros, editado pela Documenta.

E imitando o voo destas aves, num almoço em que só tive por companhia este livro impagável, fui habitado por versos, O CORDEIRO DELATOR INEBRIA-SE: «1 (trajecto)/ Os comboios como achas/ atordadas pela saudade de sol,/ por cima boceja o viaduto./ Cruz de Prata Palace – jardim, piscina, spa./ No rio borbotam filamentos de luz – ó amor, a sério?/ Entumecida cúpula, a do Panteão/ vista deste ângulo em que telhados se lhe ajustam,/ rútilos como batom./ No outro lado da rua ressalta um pórtico/ em mármore embutido no amarelo:/ ao cima a casa apalaçada onde se juraram disparos,/ na Iª República. Mas tão esparsos como este trânsito em Agosto./ Um renque de painéis solares/ amodorrados pela ideia fixa/ antecede o Museu da Água/ onde nenhum gota promete fazer greve de fome./ Será o início de um novo torpor na nossa história? Ui,/ passou com o sinal vermelho aquele gingar de ancas/ que galopa a instabilidade do olhar, sempre à cata de visitas proibidas.

3/ A mulher opulenta que à minha frente se sentou/ de vestido vermelho às bolas/ arca com a gravidez de um farol.// Eventualmente/ tudo se transforma.// Fêmea em pleno exercício
de culminação,/ surpreende-me o seu olhar errante/ e o merencório vagar com que os seus maxilares/ se movem como quem do futuro já pressagia/ a chegada dos predadores.//

Adensam-se os seus seios/ como o escuro no miolo/ das grutas de Lascaux – vaso/ o vinho de um gole ao reconhecer numa forma/ a resistência tardigrada./ Sem custo afundaria neles/
– gluglugluglu, como na ária de Offenbach.// Pena não sorrir, está grávida/ e contudo arredia à epifania,/ ao meu desânimo de não ser/ o garfo que lhe desfia boca dentro/ as ovas cozidas.// Catastrófica esta distância social: quando se levanta adivinho-lhe/ um jeito cigano, seríamos dois frames/ fundidos no queijo de uma refeição de Kusturica. //Ah (não abras tanto a boca rapaz!),/ como a intangibilidade do devir/ sobre a inconsistência dos átomos/ que nos palafita em simetrias/ nos atrai às dissidências!

4/ Em 1985, pintou vários Empédocles/ quando afinal só um deles/ caiu no Etna/- excelso multiplicador da esperança.// Gargantuesca ideia/ a vulva de Uva valsando/ no delineamento do vulcão.// A caca hoje só me sai preta/ como se encordoada em sangue/ – será a merda de um barroco/ ou o manifesto de Aguirre?//

Atalhemos pelo riso,/ indemne, ainda que viciado/ pelas mais variegadas proveniências,/ porque o dandismo,/ superior às nossas forças,/ é o cavalheiro que empresta/ à esfarrapada morte/ a agulha e o dedal.”

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