Holandeses voadores – V

Um mês depois, voltei a ler poemas no café literário. Publicara dois livros, ‘Ângulo Raso’ e ‘Vão Interior do Rio’, de que lia excertos em holandês e em inglês. Na minha corrente de consciência, enquanto deixava a voz entregue ao burilar da linguagem, via um filme que me elevava e que me fazia cair ao mesmo tempo. E nessas imagens que se atropelavam havia bebés feitos de folhas de plátano, padeiros de socas e com focinho de vaca, os canais da cidade sempre gelados, os cisnes do Oosterpark que se viam das janelas do Instituto dos Trópicos, a grande tela que se devorava a si mesma e, em primeiro lugar, a cara dela a repetir que já tinha partido e que tudo o que estava agora a viver não passava de um acréscimo, de uma extensão impensada. E apesar disso, via-a ali de carne e osso no fundo da sala, tal como na primeira vez, com as mãos pousadas no assento da cadeira e os olhos a transbordar daquela liquidez capaz de acender a noite.

Eu subia e descia como se fosse um ioiô. Ela bem me tinha avisado que havia pessoas que sobem em altura. Não será, pois, uma proeza exclusiva dos deuses que ligam a ignição sobre as lajes dos mausoléus ou no cimo das cúpulas de edifícios celestes. São pessoas que estão condenadas a contrariar a força da gravidade, de tal modo que adquirem novas rotinas. Comem, adormecem e trabalham sempre a subir, sempre a subir como os balões, nem se sabe se alguma vez avistarão o topo do mundo. Precisamente o oposto do conto de Clarice Lispector que ela regularmente relia com uma trovoada de riso à mistura, intitulado ‘A Fuga’. “…Caía para fora da terra e ficava caindo sempre” (….) “Caía onde? depois resolvia: continuava caindo, caindo e se acostumava, chegava a comer caindo, dormir caindo, viver caindo, viver caindo, até morrer. E continuaria caindo?”.

Assim estava eu a ler poesia naquele espaço raquítico encostado ao piano e, em simultâneo, a navegar noutro espaço e noutra vida completamente diferentes. Ora me elevava, ora caía. Talvez esta fosse a natureza e o despropósito do apaixonado que desconhece o seu estado de vertigem.

Foi no final da sessão que ela me passou para a mão uma pequena pasta que continha os desenhos da Giudecca. Eram reproduções, mas não entendi por que mas dera, nem me apercebi de quem seria o autor. No outro lado da pasta, por trás das gravuras, vi os bilhetes e logo percebi a contenda. Sem querer ir directo ao assunto, passei o tempo, já numa cervejaria em frente ao rio Amstel, a perguntar o que era a Giudecca. E ela lembrava que os segredos eram, como eu tinha acentuado, carros de bois de eixo móvel que atravessam até o próprio reino dos céus.

10

Ocorreram-me os dedos a bater no teclado da máquina de escrever. Martelar o céu até voltar a atravessá-lo de vez com as palavras a perfurarem a fita negra que me costumava sujar as mãos. Era a sensação que a longa carruagem me devolvia já em final de viagem. Passámos Verona.

Ouvira entretanto dizer que a Giudecca é ao mesmo tempo uma ilha e uma arquipélago do sul de Veneza. Em tempos diferentes fez de alcatraz para criminosos, recebeu uma judiaria e foi também o local escolhido por Miguel Ângelo para cumprir três anos de exílio voluntário, entre os anos de 1529 e 1532.

No preciso instante em que estava a imaginar os mistérios da Giudecca e a repetir a palavra vezes sem conta de modo a torná-la num mata-borrão que resiste ao esquecimento, o homem do cachimbo levantou-se. Era parecido, quase igual ao médico chileno que fora meu aluno no Instituto dos Trópicos.

Chegámos ao término meia hora depois. Viajar de Amesterdão para Veneza é saborear uma recaída. Dois terços de cada corpo humano é constituído por água. Razão por que partir de uma cidade de águas dormentes na direcção de uma outra de águas insubmissas é insistir em radiografar o nosso próprio ser. Apesar de o comboio jurar que sempre esteve em movimento, creio que esta viagem se reduziu a um périplo de quem não conseguiu sair do mesmo espaço e do mesmo elemento: a água.

Já a contemplar o andamento e a toada irreal dos vaporetti, os seus argumentos convenceram-me. Na realidade, a água confunde as cores do vento siroco, insufla o tacto dos grandes cedros e apodera-se dos sabores que se ateiam nos cais. A água reflecte as arcarias transparentes e duplica os assombros. A água envolve o sonhador de velas latinas que aparecem em baixo-relevo nas placas de mármore. A água é uma criação amniótica, mas também a dissolução de todos os sólidos, de todos os sonhos, de toda a vida. Veneza, cidade corpo, cidade nua, cidade para flutuações extremas.

Só ao entrar no pequeno hotel da Fondamenta delle Zattere é que me apercebi de que estava a pisar o chão onde John Ruskin vivera. A coincidência é uma máquina. Uma máquina para afinar instrumentos até que a música de todos eles produza uma mesma luz. Uma luz turva que anoitece os passos lentamente. Foi desse modo que subimos as escadas com a madeira descarnada a ranger sob os nossos pés.

Da varanda do quarto avistei finalmente a Giudecca de ponta a ponta e, a nascente, na sua função de mastro do tempo, a torre pontiaguda de San Giorgio Maggiore. Estendi os braços na névoa e ali fiquei durante seis dias e seis noites como se fosse possível remover da memória os milagres de Carpaccio ou de Bellini, os almoços no Rialto, as correrias do lido ou as infusões do Arsenal.

Mantive os braços nessa posição e ainda hoje assim continuo. Nunca entendi por que é que, num repente inusitado, ela saltou para o parapeito da varanda e, logo a seguir, como se fosse um feitiço, a vi desaparecer no ar. Um ar que era uma névoa densa, cada vez mais escura. Uma névoa escura engolida de vez pela água.

Nunca mais a reencontrei. Até ao dia de hoje. Ainda me debrucei com o rosto a fundear à volta de todas as ilhas da Giudecca e apenas deslindei uma pequena silhueta a aspirar o fumo de um cachimbo, movendo a língua para trás em direcção ao céu da boca. Fiquei preso nessa imagem, pois repetia integralmente a história do meu aluno chileno, depois de a mulher ali mesmo lhe ter também desaparecido.

Nunca mais me consegui ocupar do alheamento da noite. Nunca mais consegui baixar os braços. Nunca mais deixei de escutar nos meus ouvidos o martelar da máquina de escrever com que escrevi esta história.

Miguel Ângelo conheceria de certeza o portento e o enigma, deitado na sua rede a sorrir e a auscultar com toda a atenção os acontecimentos que se repetiam, década após década, na outra margem da Fondamenta.

Fim

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